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Divórcio e filhos

Homens e mulheres nascem e crescem diferentes na biologia, na química e, ainda, na educação, mas têm as mesmas expectativas relativamente à formação de uma nova família.

Com o progresso e a satisfação das necessidades materiais, a família é hoje encarada mais como uma unidade emocional/afectiva com base no amor do que uma entidade económica e de sobrevivência, mudando progressivamente de sentido.

Esta mudança tornou o casamento mais vulnerável à dissolução. Os adultos começaram a incumbir aos filhos uma carga magnífica e demasiado pesada: serem felizes para que os pais se sintam realizados.

Foi o princípio de uma família consumidora não só de bens materiais como de afectos. Contudo, a dificuldade em definir «satisfação conjugal» tem gerado frustração e insatisfação.

O casamento é hoje visto como uma cultura individualista, hedonista e isolacionista, valorizando-se a adaptação e a mobilidade. A gratificação imediata não favorece as ideias de partilha, cooperação e tolerância, tão importantes na conjugalidade.

São casamentos que se realizam para concretizar sonhos plenos de expectativas e desejos, mas as realidades obrigam ao pragmatismo e o sentimento de satisfação pessoal fica muito reduzido

Os pais mimaram os filhos, cobriram-nos de prendas para os ver «rir», o que não é o objectivo primeiro da educação… mas o que passou a ser.

Embora isto aconteça antes e depois da separação, ainda não estamos nela, porque quando esta acontece começa a luta pela posse do filho a todo o custo. Normalmente, esta «luta» passa por tentar que o filho fique, incondicionalmente, do seu lado, sem ter em conta as verdadeiras necessidades da criança.

Acabam por, aparentemente, dar mais atenção e dispensar mais tempo aos filhos após a separação, até mesmo numa lógica do «eu é que gosto de ti, não é o outro». Antecipar o desejo é matá-lo e os pais não dão tempo aos filhos para desejar, «dão tudo».

A criança é hoje «prisioneira» do amor que lhe dão e que esperam receber dela. Até à adolescência as crian­ças correspondem a estas idealizações, mas a partir daí quebra-se essa simbiose.

Aqui começam todas as reclamações dos pais, comparando o que lhe deram e a ingratidão dos filhos ao se separarem deles e preferirem sair com os colegas. As crianças precisam de modelos de identificação, esta mãe separada é-o até à adolescência, o pai não está em casa, serão os professores?

Nos tempos de hoje, há famílias monoparentais, famí­lias recompostas, com filhos de casamentos anteriores e do presente, casais com ou sem filhos e casais homos­sexuais, também com ou sem filhos, que vivem em conjunto. Independentemente da configuração, é no espaço familiar que a família perpetua os conflitos internos, que se arrastam de pais para filhos, ao repetir os modelos de referência interiorizados.

Muitos problemas começam nas expectativas dife­rentes que cada um leva para o casamento, nas razões que os leva a terem filhos, na sua construção pessoal, raramente acabada e, como casal, pode não haver sintonia nos conceitos básicos de vida. Muitas vezes insistem neste casamento ou em ter filhos porque já têm casa, as famílias estão envolvidas, etc., depois a convivência diária, rotinas, responsabilidades fazem o resto.

Surgem as frustrações, as culpabilizações recíprocas e é nesta situa­ção que, muitas vezes, se tenta um filho esperando que, por milagre, tudo se resolva. Não só o filho não vai ser a resposta como exige mais de um casal que já está de costas voltadas. Daqui até ao divórcio, é um passo.

São experimentados, pelas crianças filhas do divórcio, sentimentos de abandono, culpabilidade e de manipulação por estes dois adultos que, pelo desespero vivido, ficam cegos e surdos à dor dos filhos. As situações mais graves ocorrem durante os dois anos seguintes à separação por se tratar de uma fase de adaptação de todos às novas regras, fronteiras e famílias.

A verdade é que a relação dos pais com os filhos, após a separação, tende a repetir os vícios de quando viviam juntos. Quase sempre era a mãe quem se encarregava de tudo o que fosse chato e considerado pelo pai como «sobrecarga».

Às vezes, o homem ainda não queria ter um filho e esta pode ser uma das razões que leva a que, mais ou menos após dois anos, metade das crianças perca o contacto com o progenitor com quem deixaram de viver.

O divórcio é, nos dias de hoje, uma constante social. A separação afecta adultos e crianças de todas as idades. A maioria das crianças fazem a fantasia da reconciliação dos pais e sofrem uma desilusão brutal quando um deles casa de novo ou até os dois.

Na verdade, a figura de pai e mãe são tão fundamentais para a nossa construção enquanto indivíduos que essas imagens terão sempre um lugar especial na nossa mente, supervalorizadas na separação. A criança tende a ficar do lado de quem sente como sendo mais frágil, quase sempre a mãe, reagindo por lealdade.

É nesta configuração que a mãe detém quase todo o poder, poder esse que nem sempre deseja e vai pesar na solidão e dúvidas com que irá, a partir da separação, decidir a vida de todos. As crianças mais pequenas necessitam de contactos frequentes e regulares, raramente se recusam a encontrar-se com o pai.

Depois dos 8 anos ligam-se mais ao progenitor com quem vivem e estão mais atentas a se sentirem bem-acolhidas e a pesarem a responsabilidade do pai, na separação.

Os adolescentes estão virados para o exterior e é difícil aliciá-los por muito que gostem do pai ou da mãe, nesta fase é aconse­lhável propor outro tipo de encontros. Quando atingem a maioridade tentam reatar com o pai, distanciar-se da sua história e construir uma boa relação.

A violência familiar, física e psicológica, tem tendência a perpetuar-se, ou seja, crianças maltratadas têm quatro a cinco vezes mais probabilidade de, em adultas, maltratarem companheiros e filhos.

Violências emocionais, humilhações, constantes desvalorizações e críticas podem destruir mais a personalidade do que propriamente as agressões físicas.

É um mecanismo psíquico de transferência que passa para as gerações seguintes como um processo de libertação. Urge que se torne uma preocupação cada vez mais de todos, pois a violência aumenta a cada momento.

O sofrimento conjugal é a razão mais comum pela qual as pessoas procuram ajuda psicológica.

Quase sempre os maiores problemas estão centrados na quase incapacidade para comunicarem verbalmente e a outros níveis, os seus sentimentos, ideias e pensamentos. Um casamento pode durar se os casais souberem conduzir e lidar com os desentendimentos.

Numa terapia familiar o importante e desejável é dei­xarem de se preocupar sobre quem tem mais razão ou a lei do seu lado e aceitarem uma mediação o mais isenta possível com base no diálogo e na negociação de ambas as partes.

Os pais devem sempre conversar sobre todos estes e outros aspectos com os filhos, reflectirem juntos sobre as mudanças, assegurar-lhes o seu lugar como filho e tranquilizá-los em relação ao afecto.

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