Além do difícil diagnóstico da hiperactividade que, muitas vezes, é confundida com má educação ou, simplesmente, atitudes infantis, uma criança com hiperactividade pode apresentar problemas de relacionamento com os pais, amigos e professores.
Imaginemos uma criança. Irrequieta, sempre a correr de um lado para o outro, a desarrumar os brinquedos todos, espalhando-os pelo chão sem necessariamente brincar com eles, habitualmente, a perder os objectos (mesmo os que lhe são importantes), a interromper as conversas dos adultos com respostas impulsivas e a distrair-se com pequenas coisas de nada.
Se acha tudo isto normal, saiba que esta criança descrita pode, na realidade, sofrer de perturbação de hiperactividade e défice de atenção (PHDA), como se explicou no workshop organizado pela Parkids.
De acordo com a Dr.ª Fátima Trindade, técnica superior de Educação Especial e Reabilitação (técnica especializada em Perturbações Específicas da Aprendizagem na Clínica Médica Gerações), «a PHDA é uma manifestação clínica de uma perturbação cerebral mínima.
Afecta a capacidade de concentração e de manutenção da atenção por parte das crianças. É uma perturbação que afecta tanto os rapazes como as raparigas, mas tem uma maior prevalência nas crianças de sexo masculino».
As crianças com PHDA transpõem uma barreira de comportamento aceitável, em que deixam de fazer aquelas travessuras normais para passarem a ser um «transtorno» na vida dos pais, professores e de todos aqueles que se encontram à sua volta.
Chegam a ser consideradas como más ou mal-educadas. A verdade é que muitas apresentam alguns talentos em determinadas áreas. No entanto, esta questão, que afecta milhões de crianças, adolescentes e adultos é perfeitamente passível de ser controlada, garantindo a todos uma vivência normal.
Um dos problemas maiores no que respeita a esta perturbação está associado à dificuldade de diagnóstico. A sintomatologia é virtualmente ausente antes dos 3 anos de idade e, mesmo quando se começa a manifestar, adquire várias vertentes. Todas elas devem ser levadas em linha de conta, o que torna o diagnóstico exaustivo e lento.
«O diagnóstico é extenso, muito pormenorizado e envolve vários aspectos. Os sintomas manifestados podem ocorrer não só pela PHDA, mas como consequência de muitos outros problemas neurológicos, psiquiátricos, psicológicos e sociais. Depois da recolha dos dados, temos de os cruzar de forma a chegarmos a um diagnóstico devidamente sustentado», salienta a especialista.
Para que esta avaliação seja o mais rigorosa possível, solicita-se a colaboração dos pais, avós, bem como de amas e professores, que são as pessoas que, tendencialmente, passam mais tempo com a criança e que podem estar atentos aos sintomas.
Segundo Fátima Trindade, «para identificarmos uma criança que sofra de PHDA temos de identificar, pelo menos, seis dos seguintes sintomas: dificuldade em esperar a sua vez, falar demasiado, inquietação, interromper conversas, distrair-se facilmente, perder coisas, dificuldade em organizar-se, desatenção a detalhes, não ouvir quando se fala com ela e evitar tarefas que requeiram concentração. Estes devem manter-se ao longo de seis meses, no mínimo, em dois lugares distintos, como, por exemplo, em casa e na escola».
A constante aqui é a criança e os seus sintomas. Têm de ser os mesmos, independentemente do local e da ocasião. Só assim podemos identificar um problema com a criança e não um problema que se manifesta na criança motivado por factores externos», sustenta a técnica.
Outra questão que vem complicar ainda mais uma perturbação de difícil diagnóstico prende-se com o facto de esta não se manifestar da mesma forma, isto é, existem três subtipos principais de manifestações relacionadas com a PHDA:
– desatento (dificuldades de atenção nas salas de aulas, incapacidade em estruturar e organizar algumas actividades;
– hiperactivo/impulsivo (caracterizado por um constante movimento, um falar abusivamente e uma incapacidade em estar sossegado);
– misto (combinação dos dois subtipos anteriores).
E a seguir ao diagnóstico?
Depois de confirmado o diagnóstico, há todo um processo adaptativo a que não só a criança vai ter de se submeter, como todos os que fazem parte da envolvência diária em que ela está inserida.
É preciso entender que toda a família e pessoas que lidam com estas crianças vão ter de se adaptar a uma nova realidade, pelo menos até a situação estar amenizada. Através de um ambiente seguro e estruturado para a criança, a superação desta perturbação será mais facilitada.
«Não bastam uma ou duas horas semanais de intervenção reeducativa para superar o problema. Os pais devem ser educados a “ler” os sinais que os filhos emitem. Além disso, temos de entender o funcionamento familiar, o que nem sempre é fácil, pois é normal haver alguma relutância por parte das famílias em se exporem perante os profissionais de saúde», adverte Fátima Trindade.
A capacidade da família e dos elementos próximos à criança em lidar com o diagnóstico vai ter um papel determinante na habilidade de superação da perturbação, mesmo com o apoio da vertente farmacológica.
A especialista admite que, «por vezes, é importante recorrer-se a fármacos. Pode haver alguns efeitos secundários, mas estes tendem a passar ao fim de alguns dias. Além disso, esses efeitos não vão muito além de uma certa dificuldade em adormecer e alguma perda de apetite que, no final de poucas semanas, desaparecem».
Não obstante a vertente farmacológica, deve ser estruturado um programa de intervenção comportamental a implementar nos diferentes contextos em que a criança se desloca. As crianças com esta perturbação tendem a ter atitudes de forma a se sentirem em controlo, quer como sendo o «bobo da corte», agressor ou «bode expiatório».
Segundo Fátima Trindade, «lidar com estas situações implica sempre um stress acrescido. É fundamental que todos os intervenientes na vida da criança, ou adolescente, comuniquem entre si e não se esqueçam de dialogar com eles, sobre o problema em causa. Os pais devem, além de apoiar o(a) filho(a), conseguir apoiar-se mutuamente».
Mesmo depois de controlada a questão da PHDA na criança, convém não esquecer que, mesmo em adulto, este continuará a sofrer da mesma perturbação. A grande maioria continuará a manifestar os mesmos sintomas, quer na adolescência, quer na idade adulta. Essa sintomatologia tende a diminuir com a idade, mas também com o conhecimento do próprio em relação a algumas estratégias eficazes para lidar com a situação.
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