Os programas televisivos com cenas de violência favorecem formas de desequilíbrio emocional e agressividade nas crianças.
Múltiplos estudos de comunicação em saúde sugerem que a vulgarização das cenas de violência gera crianças menos sensíveis à dor e ao sofrimento dos outros. Gera crianças com medo do mundo que as rodeia e mais propensas a agredir outras crianças. O aumento do contacto com cenas violentas faz com que a criança reaja mais tardiamente a pedir ajuda ou a intervir para apaziguar uma luta entre outras crianças. Torna-as mais propensas a agredir os seus companheiros, a discutir e a desobedecer aos pais e aos professores, a deixar tarefas incompletas e a interpretar o mundo como um lugar perigoso e povoado por pessoas más. Para complementar estes dados, os ainda actuais trabalhos de Gerbner demonstraram a surpreendente incidência estatística de mais de vinte actos violentos por hora de emissão em amostras de 10 canais televisivos.
Um outro investigador destes fenómenos de comunicação em saúde, Rowell Huesmann, constatou que as mulheres que se tornaram fãs, enquanto crianças, de séries televisivas como os Anjos de Charlie ou a Supermulher, adquiriram uma propensão para assumirem comportamentos agressivos e até violentos superior às jovens que não se envolveram, emocionalmente, com estas «heroínas».
Apesar de toda a evidência empírica e científica, os operadores dos canais de televisão e os seus investidores continuam a tentar negar a relação entre o televisionamento de cenas de violência e o comportamento agressivo das crianças. Nesta negação são contrariados por muitos investigadores, a que me associo, modestamente, que afirmam que há uma relação inequívoca entre os dois fenómenos!
Michael Medved, um apresentador de televisão que tem apoiado campanhas contra a violência no ecrã da TV, escamoteou, em 1996, as grandes mentiras disseminadas pelos interesses televisivos no sentido de nos fazerem crer que não há perigo para as crianças. De entre várias mistificações denunciadas, chamo a atenção para três.
Uma primeira refere-se ao argumento de que «não há provas de que a violência na televisão tenha efeitos negativos nas crianças». É falso. Há muitas provas, como refiro nos parágrafos anteriores e posso enviar aos interessados por correio electrónico.
Uma segunda consiste na sugestão de que «a televisão reflecte a realidade». Ora, um outro estudo recente indica que, diariamente, entre as 18.00 h e as 22.00 h, das cerca de 350 personagens que aparecem nas séries televisionadas por cada canal, sete são assassinadas. Os autores estimam que, se a taxa de assassinatos na realidade fosse a televisionada, a população dos EUA seria reduzida em um terço da actual, em três anos.
Um terceiro argumento falacioso, utilizado pelos industriais da televisão, diz que «milhões de crianças cresceram a ver televisão e não se tornaram criminosos». Esta contestação à evidência que comprova os efeitos sob as crianças é tão falaciosa como a contestação utilizada, durante algum tempo, pelos produtores de tabaco acusados de promoverem doenças mortais. Diziam eles que «nem toda a gente que consome tabaco é afectada por cancro». Hoje, graças ao desenvolvimento de eficazes programas de marketing social, é evidente que estes estavam, na altura, a brincar com a inteligência das pessoas…
Entretanto, e até alcançarmos resultados contra este problema social, o que podem fazer os pais e as mães que entendem a gravidade deste fenómeno?
Faz alguns anos que movimentos de cidadania, iniciados na Europa e nos EUA, propõem algumas medidas de intervenção. Uma seria a inclusão, em todos os momentos da programação televisiva, de uma faixa preta no topo do ecrã com o seguinte aviso: «Ver televisão pode afectar a saúde mental das crianças!» Sendo que esta opção levará algum tempo a verificar-se, e banir a televisão não é a melhor solução, tudo dependerá do acompanhamento dos pais.
Uma medida ao nosso alcance será sentarmo-nos com os nossos filhos a ver os programas dirigidos a eles e fazermos, no fim, uma interpretação da história que vimos no sentido de clarificar na mente da criança a diferença entre ficção e realidade, assim como, quando for o caso, discutir com eles as cenas de violência no sentido de lhes demonstrar que havia outras alternativas, pacíficas, para a resolução do problema apresentado na história.
Em época natalícia, porque não oferecer este presente aos nossos filhos?
Um sinal de esperança. O que se alcançou na luta contra o tabaco era considerado impossível de atingir, faz agora 30 anos. Há que começar por algum lado.
Doutor em Marketing Social e Promoção da Saúde
pela Universidade de Manchester
kuteev@sapo.pt
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