Cancro. É uma palavra que carrega um estigma de sofrimento e de morte. É uma doença que também afecta crianças. O saber como lidar com uma criança, como reagir, como ajudar alguém que muitas vezes não sabe o que se passa com ela é um desafio. Fomos ao IPO falar com quem lida com esta problemática no dia-a-dia, ouvir o que se pode e deve fazer. Raramente é só a criança a precisar de ajuda.
O dia 15 de Fevereiro é, oficialmente, o Dia Internacional da Criança com Cancro. Falámos com a Dr.ª Maria de Jesus Moura, psicóloga clínica do Instituto Português de Oncologia (IPO), que há mais de uma década lida com esta temática das crianças e o cancro.
«A reacção de uma criança à notícia de que sofre de uma leucemia, de um linfoma ou de um tumor no sistema nervoso central, depende da idade, da estrutura da própria criança, da estrutura familiar e da envolvência. É uma questão transversal a vários campos», refere a psicóloga.
Nem sempre a criança tem consciência real do que se passa com ela. Apenas se apercebe das consequências de algo que está diferente através das «alterações das rotinas, as mudanças de comportamento ou o isolamento».
Os pais, que verdadeiramente são os conhecedores do que se passa com os seus filhos, não conseguem, na maioria das vezes, deixar de transparecer para as crianças de que algo está errado.
Normalmente, é através dessa alteração de comportamento que os filhos tomam consciência de que há um problema. Segundo Maria de Jesus Moura, «muitos pais entram em depressão reactiva, o que é normal. Mas as crianças olham para os pais como barómetro do que se passa na vida delas. Se os pais estão preocupados, então é porque o que se passa com elas é grave.
Os pais, que podem ser grande parte da solução, frequentemente, e é perfeitamente compreensível, tornam-se parte do problema. Acontece, muitas vezes, haver mesmo uma paternalização dos filhos em relação aos pais».
«Adaptar a vida não é abdicar dela»
A melhor forma de lidar com esta situação, além das adaptações necessárias, é incentivar o paciente a manter objectivos, dentro da nova realidade. Afinal, «se uma criança ou adolescente conseguia fazer determinadas coisas a 100%, tem de adaptar-se para as fazer a 60 ou 70%. Não pode é cair na tentação de achar que não consegue fazer nada. Adaptar a vida, não abdicar dela», afirma a especialista do IPO.
Nessa lógica, é importante que a envolvência em que as crianças estão inseridas esteja preparada para lidar com uma situação altamente estigmatizada.
O transtorno, além da questão afectiva, supera largamente o campo da saúde. Segundo o decreto-lei 347/98, «os trabalhadores têm direito a faltar ao trabalho, até 30 dias por ano, para prestar assistência inadiável e imprescindível em caso de doença ou acidente, a filhos, adoptados ou a enteados menores de 10 anos.
Em caso de hospitalização, o direito a faltar estende-se ao período em que aquela durar, se se tratar de menores de 10 anos, mas não pode ser exercido simultaneamente pelo pai e mãe ou equiparados».
A lei existe, mas atendendo a que, na melhor das hipóteses, uma situação cancerígena vai estender-se por cerca de dois anos, a estrutura económica da família ficara profundamente abalada, sendo a génese de mais problemas, além dos que já têm de enfrentar.
Os amigos, a escola, todo o mundo da criança podem acarretar questões complexas de serem enfrentadas, pois «as pessoas lidam muito mal com a diferença.
É fundamental o trabalho de integração escolar, pois, os próprios professores muitas vezes não sabem muito bem como lidar com estas situações.
Existem muitos estereótipos em relação a esta doença, apesar das evoluções médicas dos últimos 30 anos, as pessoas ainda associam automaticamente cancro a morte», segundo a psicóloga.
Para destigmatizar a doença, os médicos do IPO, quando comunicam que uma criança tem um cancro, não utilizam essa terminologia, adoptando os nomes de linfoma, tumor ou leucemia, entre outros possíveis.
Apesar de todas as condicionantes de uma luta no que diz respeito a um cancro, quer sejam elas de índole fisiológica, ou da envolvência familiar ou social, há muitos casos de sucesso.
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