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Transplantação hepática

O TH hepático (TH) é um tratamento para a doença hepática crónica (DHC) ou aguda, sempre que não existam outros meios terapêuticos que modifiquem a evolução para a morte desses doentes. Assim, constituem indicações de TH, a DHC avançada, de diferentes causas, a falência hepática aguda (FHA) e algumas doenças metabólicas hepáticas hereditárias.

Na DHC, sempre que a presença de alguma complicação represente um risco de mortalidade superior ao da transplantação, cuja sobrevivência esperada para o doente é de 85% e de 70%, no primeiro e quinto ano, respectivamente, ou exista um compromisso com a qualidade de vida significativo, deve ser referenciado a uma consulta de TH.

As diferentes manifestações de DHC avançada (icterícia progressiva, ascite refractária, peritonite bacteriana espontânea, síndrome hepato-renal, encefalopatia porto-sistémica, hemorragia digestiva, prurido intratável) devem alertar para um prognóstico reservado e justificam a orientação do doente para um centro de TH.

Existem contra-indicações para o TH (doença maligna para além do carcinoma hepatocelular, infecção activa, doença cardíaca ou pulmonar grave e adição com drogas de abuso ou álcool), que devem ser apreciadas pela equipa e por quem seguiu o doente, devendo-se ter presente, que a aceitação de um doente depende da sua capacidade de participar activamente no seguimento, corrigindo comportamentos (alimentares, exercício físico, tabagismo, alcoolismo, etc.), bem como aderindo correctamente ao tratamento farmacológico.

Falência hepática aguda

A FHA é uma síndrome complexa e de evolução rápida, caracterizada pelo início abrupto de icterícia, alterações da coagulação e encefalopatia hepática na ausência de doença hepática prévia, sendo o TH o único tratamento nos doentes em que não existe capacidade de regeneração hepática suficiente para manter a vida. A melhoria notável da sobrevivência global dos doentes com FHF verificada nos últimos anos coincidiu com a possibilidade da transplantar muitos destes doentes, além da maior proporção de doentes com intoxicação pelo paracetamol, que apresentam melhor prognóstico.

Porém, a capacidade real de transplantar os doentes com FHF em prioridade, continua a ser muito inferior à desejada. Torna-se assim fundamental conhecer factores que nos ajudem a predizer a evolução destes doentes, de modo a identificar os que necessitam de TH por não sobreviverem se não for realizado, assim como identificar as condições que não aconselham o TH, por se preverem resultados não aceitáveis que não justificam a utilização de um enxerto. A prioridade dada a estes doentes implica uma avaliação rápida e a mais exacta possível.

A polineuropatia amiloidótica familiar (PAF) tipo I (tipo português) é uma forma de amiloidose sistémica hereditária. A proteína anormal, produzida quase exclusivamente pelo fígado destes doentes, deposita-se como substância amilóide nos tecidos principalmente nos nervos periféricos e nervos vegetativos que regulam o funcionamento de diferentes órgãos e sistemas, provocando diferentes sintomas dependentes da neuropatia autonómica; a deposição atinge também o rim, o coração e o vítreo. A neuropatia motora tem um início habitualmente mais tardio, levando a uma tetraparesia, inicialmente de predomínio distal. Com a remoção dos precursores da substância amilóide, será de esperar uma melhoria quando do TH.

Como para a doença hepática é fundamental uma selecção rigorosa destes doente, de modo a incluir doentes sintomáticos, que venham a beneficiar do efeito da transplantação.

Partindo do conhecimento da história natural da PAF, existe evidência que as manifestações clínicas surgem após a terceira e quarta décadas de vida. Este facto, associado à normalidade morfológica e funcional do fígado destes doentes servem de argumento para a sua utilização em doentes candidatos a transplante por DHC com idades superiores a 50 anos, em risco de morte quando em lista de espera. A utilização destes enxertos (transplante sequencial ou “dominó”) permite diminuir substancialmente o tempo de espera e a mortalidade, e é realizado de modo regular pelos três centros de transplantação portugueses e alguns estrangeiros que transplantam doentes com PAF.

Jornal do Centro de Saúde

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