As mudanças climatéricas exercem influência sobre a pele e, consoante as estações do ano, surgem diferentes problemas dermatológicos. Em dias mais frios e ventosos, poucas pessoas conseguem manter os dedos das mãos e pés ilesos das torturantes frieiras e menos serão aquelas cujos lábios permanecem imunes ao incomodativo cieiro.
Os lábios são o alvo preferido do cieiro, mas este problema pode, também, manifestar-se nas regiões malares da face (maçãs do rosto), no nariz e no dorso das mãos (as zonas do corpo mais expostas às agressões climatéricas).
O cieiro mais incidente – o dos lábios – pode aparecer em qualquer altura do ano, mas é no Inverno que se torna mais frequente e incómodo. Os lábios começam por ficar secos, depois gretados e com películas de pele ressequidas que, a maior parte das pessoas, tende a querer cortar com os dentes. Por fim, e porque a impaciência impede que estas peles gretadas desapareçam naturalmente, os lábios ficam sem pele em algumas zonas, sangrando e formando feridas.
Para os mais pacientes, que se aguentam sem morder os lábios ou molhá-los constantemente com a saliva, o cieiro pode ser passageiro e não acarreta consequências tão extremas quanto o sangramento e as feridas.
Tudo tem uma razão de ser e o cieiro também tem a sua. «Deve-se a alterações da camada superficial da pele – o estrato córneo», diz o Dr. Vasco Sousa Coutinho, dermatologista do Hospital de Santa Maria. E por que se altera esta camada mais superficial? São vários os agentes que podem desencadear este processo ao removerem e secarem a gordura natural da pele. Entre eles, destacam-se o álcool, o tabaco, ou a ingestão insuficiente de água. No entanto, a principal causa do cieiro é a exposição ao frio seco.
Como explica o dermatologista, «no Inverno, devido ao frio, há uma contracção das veias e artérias superficiais para diminuir as perdas de calor do nosso corpo. Em consequência, as glândulas sudoríparas (produzem o suor) e sebáceas (produzem a gordura), irrigadas por estes vasos, passam a funcionar mal, fornecendo menos líquidos e gordura ao estrato córneo (camada mais superficial da pele ou epiderme), que seca e abre fissuras».
A baixa humidade ambiente do Inverno (provocada, por exemplo, pelos ares condicionados) e o vento são factores que agravam o cieiro, pois secam ainda mais a pele, atingindo, principalmente, os lábios e as mãos. As pessoas que habitualmente já têm pele seca ou as crianças antes da puberdade são as mais susceptíveis a sofrer de cieiro, pois a sua pele é mais fina e a secreção sebácea é menor.
Prevenir o cieiro é uma tarefa complicada, pelo menos a avaliar pelas palavras de Sousa Coutinho: «Não podemos alterar grandemente os nossos hábitos para combater o cieiro, excepto tentar humidificar o ambiente quando se têm caloríferos ou aparelhos de ar condicionado que secam muito o ar.»
Controlar a humidificação dos lábios com saliva é, sem dúvida, difícil, mas deve ser um hábito a adoptar, pois este acto retarda o processo de reabilitação da pele dos lábios afectada pelo cieiro.
Depois do prurido e das fissuras na pele, o cieiro tem como consequências mais graves as infecções superficiais (impetigo) e outras mais profundas como a erisipela e a celulite, podendo, também, evoluir para eczema. Por isso, o controlo e tratamento desta irritação da pele é essencial.
O tratamento consiste em restabelecer a função de barreira da epiderme e, assim, travar a perda excessiva de água na superfície cutânea. Para este efeito, podem usar-se produtos de aplicação tópica de que são exemplo os emolientes e substâncias hidratantes (como o ácido lácteo ou a ureia), cuja aplicação repetida restaura mais eficazmente a elasticidade da pele.
Batons, pomadas, cremes, bálsamos, de várias marcas, cores e sabores abundam no mercado e dizem-se eficazes contra o cieiro. Este elevado número de produtos «apenas traduz a grande procura que existe, pois o cieiro é uma situação comum e recorrente», diz este especialista.
Serão todos estes produtos eficazes? Basta estar atento à sua composição, pois se entre os seus componentes constar, por exemplo, a ureia ou o ácido láctico serão, segundo a opinião deste dermatologista, «produtos eficazes no tratamento do cieiro».
Frieiras: a inflamação do frio húmido
Muito frequentes nos dedos dos pés e das mãos, as frieiras são uma inflamação bem típica do Inverno. Primeiro, sente-se uma ardência acompanhada de comichão, depois começam a aparecer uns pontinhos vermelhos que inflamam até se transformarem em bolhas. Como resultado, os dedos incham e cobrem-se de um vermelho intenso e a pele estica tanto que parece querer rebentar. Até que, em casos mais extremos, rebenta mesmo e as feridas serão a consequência mais grave. Por tudo isto, «as lesões das frieiras nas mãos podem até ser incapacitantes», alerta Sousa Coutinho.
As frieiras são, também, uma causa do frio, mas do frio húmido. «O seu mecanismo não é ainda muito bem entendido. Sabe-se que há contracção vascular que desencadeia fenómenos inflamatórios complexos», diz o dermatologista, que classifica assim os sinais clínicos: «manchas violáceas e edema com prurido (ardor) ou dor, podendo surgir bolhas e feridas nos casos mais graves».
Quando as mãos ou pés estão frios e depois aquecem, os sintomas das frieiras agravam-se. A sensação é a de que o sangue ferve nas zonas afectadas pelas bolhas das frieiras e a ardência (picadelas) intensifica-se de tal modo que a pessoa só se sentirá aliviada quando embeber as mãos (no caso de serem a zona afectada) em água fria. Esta é, aliás, uma reacção bastante comum de quem padece de frieiras e que denota o desespero despoletado pelo intenso ardor.
Embora sejam mais frequentes nos dedos das mãos e dos pés, «as frieiras localizam-se, em geral, de forma simétrica, nas zonas mais frias do corpo: dedos das mãos e pés, orelhas e nariz, nádegas e coxas», afiança Sousa Coutinho.
Quem habitualmente desenvolve frieiras tem maior probabilidade de ser afectado em Invernos posteriores, mas evitar esta inflamação da pele é possível. «O uso de roupa adequada à estação, evitando o frio e a humidade é uma medida preventiva por excelência», aconselha o especialista.
Quanto à terapêutica, eventualmente, podem usar-se os vasodilatadores orais nos casos mais graves. A nível do tratamento sintomático, existem tópicos de aplicação local que só podem ser utilizados pelas pessoas que ainda não tenham desenvolvido feridas. Estes tópicos podem aliviar consideravelmente o ardor e, depois de alguns dias de aplicação, as bolhas vão diminuindo tal como o inchaço.
Mas, em pleno Inverno, o tratamento das frieiras revela-se, em alguns casos, ineficaz. É o que comprovam as palavras de Sousa Coutinho: «O povo diz que as frieiras se tratam com “pós de Maio”, ou seja, com o fim do Inverno.»
Perante o cieiro
Certo…
– Manter os lábios o mais secos possível;
– Aplicar substâncias emolientes (que atenuam a inflamação) ou hidratantes várias vezes ao dia, sempre que se sentir os lábios a arder ou a repuxar;
– Principalmente em casos de historial de cieiro, precaver-se com produtos que o combatem antes do Inverno.
… e errado
– Aplicar batons de cor quando se está com a pele ressequida;
– Arrancar as películas de pele ressequidas com os dentes;
– Humidificar os lábios constantemente.
Os lábios são o alvo preferido do cieiro, mas este problema pode, também, manifestar-se nas regiões malares da face (maçãs do rosto), no nariz e no dorso das mãos (as zonas do corpo mais expostas às agressões climatéricas).
O cieiro mais incidente – o dos lábios – pode aparecer em qualquer altura do ano, mas é no Inverno que se torna mais frequente e incómodo. Os lábios começam por ficar secos, depois gretados e com películas de pele ressequidas que, a maior parte das pessoas, tende a querer cortar com os dentes. Por fim, e porque a impaciência impede que estas peles gretadas desapareçam naturalmente, os lábios ficam sem pele em algumas zonas, sangrando e formando feridas.
Para os mais pacientes, que se aguentam sem morder os lábios ou molhá-los constantemente com a saliva, o cieiro pode ser passageiro e não acarreta consequências tão extremas quanto o sangramento e as feridas.
Tudo tem uma razão de ser e o cieiro também tem a sua. «Deve-se a alterações da camada superficial da pele – o estrato córneo», diz o Dr. Vasco Sousa Coutinho, dermatologista do Hospital de Santa Maria. E por que se altera esta camada mais superficial? São vários os agentes que podem desencadear este processo ao removerem e secarem a gordura natural da pele. Entre eles, destacam-se o álcool, o tabaco, ou a ingestão insuficiente de água. No entanto, a principal causa do cieiro é a exposição ao frio seco.
Como explica o dermatologista, «no Inverno, devido ao frio, há uma contracção das veias e artérias superficiais para diminuir as perdas de calor do nosso corpo. Em consequência, as glândulas sudoríparas (produzem o suor) e sebáceas (produzem a gordura), irrigadas por estes vasos, passam a funcionar mal, fornecendo menos líquidos e gordura ao estrato córneo (camada mais superficial da pele ou epiderme), que seca e abre fissuras».
A baixa humidade ambiente do Inverno (provocada, por exemplo, pelos ares condicionados) e o vento são factores que agravam o cieiro, pois secam ainda mais a pele, atingindo, principalmente, os lábios e as mãos. As pessoas que habitualmente já têm pele seca ou as crianças antes da puberdade são as mais susceptíveis a sofrer de cieiro, pois a sua pele é mais fina e a secreção sebácea é menor.
Prevenir o cieiro é uma tarefa complicada, pelo menos a avaliar pelas palavras de Sousa Coutinho: «Não podemos alterar grandemente os nossos hábitos para combater o cieiro, excepto tentar humidificar o ambiente quando se têm caloríferos ou aparelhos de ar condicionado que secam muito o ar.»
Controlar a humidificação dos lábios com saliva é, sem dúvida, difícil, mas deve ser um hábito a adoptar, pois este acto retarda o processo de reabilitação da pele dos lábios afectada pelo cieiro.
Depois do prurido e das fissuras na pele, o cieiro tem como consequências mais graves as infecções superficiais (impetigo) e outras mais profundas como a erisipela e a celulite, podendo, também, evoluir para eczema. Por isso, o controlo e tratamento desta irritação da pele é essencial.
O tratamento consiste em restabelecer a função de barreira da epiderme e, assim, travar a perda excessiva de água na superfície cutânea. Para este efeito, podem usar-se produtos de aplicação tópica de que são exemplo os emolientes e substâncias hidratantes (como o ácido lácteo ou a ureia), cuja aplicação repetida restaura mais eficazmente a elasticidade da pele.
Batons, pomadas, cremes, bálsamos, de várias marcas, cores e sabores abundam no mercado e dizem-se eficazes contra o cieiro. Este elevado número de produtos «apenas traduz a grande procura que existe, pois o cieiro é uma situação comum e recorrente», diz este especialista.
Serão todos estes produtos eficazes? Basta estar atento à sua composição, pois se entre os seus componentes constar, por exemplo, a ureia ou o ácido láctico serão, segundo a opinião deste dermatologista, «produtos eficazes no tratamento do cieiro».
Frieiras: a inflamação do frio húmido
Muito frequentes nos dedos dos pés e das mãos, as frieiras são uma inflamação bem típica do Inverno. Primeiro, sente-se uma ardência acompanhada de comichão, depois começam a aparecer uns pontinhos vermelhos que inflamam até se transformarem em bolhas. Como resultado, os dedos incham e cobrem-se de um vermelho intenso e a pele estica tanto que parece querer rebentar. Até que, em casos mais extremos, rebenta mesmo e as feridas serão a consequência mais grave. Por tudo isto, «as lesões das frieiras nas mãos podem até ser incapacitantes», alerta Sousa Coutinho.
As frieiras são, também, uma causa do frio, mas do frio húmido. «O seu mecanismo não é ainda muito bem entendido. Sabe-se que há contracção vascular que desencadeia fenómenos inflamatórios complexos», diz o dermatologista, que classifica assim os sinais clínicos: «manchas violáceas e edema com prurido (ardor) ou dor, podendo surgir bolhas e feridas nos casos mais graves».
Quando as mãos ou pés estão frios e depois aquecem, os sintomas das frieiras agravam-se. A sensação é a de que o sangue ferve nas zonas afectadas pelas bolhas das frieiras e a ardência (picadelas) intensifica-se de tal modo que a pessoa só se sentirá aliviada quando embeber as mãos (no caso de serem a zona afectada) em água fria. Esta é, aliás, uma reacção bastante comum de quem padece de frieiras e que denota o desespero despoletado pelo intenso ardor.
Embora sejam mais frequentes nos dedos das mãos e dos pés, «as frieiras localizam-se, em geral, de forma simétrica, nas zonas mais frias do corpo: dedos das mãos e pés, orelhas e nariz, nádegas e coxas», afiança Sousa Coutinho.
Quem habitualmente desenvolve frieiras tem maior probabilidade de ser afectado em Invernos posteriores, mas evitar esta inflamação da pele é possível. «O uso de roupa adequada à estação, evitando o frio e a humidade é uma medida preventiva por excelência», aconselha o especialista.
Quanto à terapêutica, eventualmente, podem usar-se os vasodilatadores orais nos casos mais graves. A nível do tratamento sintomático, existem tópicos de aplicação local que só podem ser utilizados pelas pessoas que ainda não tenham desenvolvido feridas. Estes tópicos podem aliviar consideravelmente o ardor e, depois de alguns dias de aplicação, as bolhas vão diminuindo tal como o inchaço.
Mas, em pleno Inverno, o tratamento das frieiras revela-se, em alguns casos, ineficaz. É o que comprovam as palavras de Sousa Coutinho: «O povo diz que as frieiras se tratam com “pós de Maio”, ou seja, com o fim do Inverno.»
Perante o cieiro
Certo…
– Manter os lábios o mais secos possível;
– Aplicar substâncias emolientes (que atenuam a inflamação) ou hidratantes várias vezes ao dia, sempre que se sentir os lábios a arder ou a repuxar;
– Principalmente em casos de historial de cieiro, precaver-se com produtos que o combatem antes do Inverno.
… e errado
– Aplicar batons de cor quando se está com a pele ressequida;
– Arrancar as películas de pele ressequidas com os dentes;
– Humidificar os lábios constantemente.