Definida pela Organização Mundial de Saúde como uma doença crónica, a obesidade é cada vez mais prevalecente nas sociedades modernas.
Acarreta um leque alargado de patologias associadas, nomeadamente, as do foro cardiovascular, diabetes, doenças osteoarticulares, neoplasias, doenças respiratórias, entre outras, podendo originar uma morte precoce. Por isso, emagrecer não é apenas uma necessidade estética, é, sobretudo, uma questão de saúde.
A Dr.ª Teresa Gomes Mota é cardiologista e directora clínica da Clínica Transform, um espaço que abriu recentemente as portas em Lisboa e que apresenta uma abordagem muito própria de fazer face ao problema do excesso de peso e da obesidade.
As dietas para emagrecer rapidamente e em pouco tempo podem dar alguns resultados temporários, mas a cardiologista garante que «se as pessoas não modificarem o estilo de vida nem os maus hábitos alimentares, e se não praticarem actividade física, vão voltar a ganhar peso e, por vezes, mais do que o que tinham inicialmente, com desvantagem em termos de saúde.
É preferível ter um peso mais estável do que emagrecer e engordar constantemente, em consequência das chamadas “dietas ioió”».
O conceito que está na base do trabalho desenvolvido pela Clínica Transform, segundo Teresa Gomes Mota, «assenta na noção de obesidade como uma doença crónica, cuja evolução natural tende a ser de agravamento progressivo.
Como tal, necessita de uma abordagem terapêutica continuada e que vise as causas do problema, que em 95% dos casos estão relacionadas com o estilo de vida».
«A Transform actua numa perspectiva de saúde», continua, «não somos uma clínica de estética. É claro que uma pessoa que perde peso tem sempre um ganho estético, o que serve de motivação para continuar a cuidar da sua saúde.
Nesse sentido, não desvalorizamos a parte estética, porque a melhoria no aspecto da pessoa é importante enquanto indicador de um estilo de vida mais saudável, mas não promovemos técnicas de emagrecimento que não constituam um benefício para a saúde, como é o caso da lipoaspiração».
Uma abordagem terapêutica pluridisciplinar
Coerente com a permanente perspectiva médica com que cada caso é abordado, é na primeira consulta que é colhida a história clínica. São detectadas as doenças associadas ou resultantes do excesso de peso e são medidos diversos parâmetros que permitem estruturar um plano adequado a cada pessoa.
A metodologia de emagrecimento desta clínica é baseada na conjugação equilibrada das valências de Medicina, Nutrição, Psicologia e Fisiologia do Exercício. Um grupo de profissionais especializados nestas quatro áreas, bem como uma enfermeira responsável pela avaliação da composição corporal, elaboram para cada doente uma abordagem terapêutica adaptada à sua condição actual.
Ao seu próprio ritmo, o doente pode marcar consultas em qualquer uma destas especialidades, ou optar por entrar num programa de emagrecimento já estruturado.
«Aquilo que encontramos na maioria dos programas de emagrecimento é a preponderância de uma destas áreas. Aqui procuramos que haja equilíbrio entre todas as vertentes», salienta Teresa Gomes Mota.
No campo da Medicina, a cardiologista diz-nos que as prioridades incidem no «controlo do risco cardiovascular e metabólico e no rastreio de doenças associadas ao excesso de peso e à obesidade, tais como a hipertensão, diabetes, colesterol, apneia do sono e certos tipos de cancro que estas pessoas tendem a desenvolver».
Os profissionais privilegiam «a troca de informação clínica com o médico assistente de cada um dos doentes. Na perspectiva moderna e multidisciplinar da Medicina, nós situamo-nos nesta área como uma “especialidade” complementar indispensável às outras valências como Cardiologia, Ortopedia, Endocrinologia, Ginecologia, Otorrinolaringologia, Medicina Interna, Clínica Geral e outras que, mercê das particularidades deste tipo de doentes, necessitam desta colaboração para o sucesso das suas próprias intervenções. É por isso que a grande maioria dos doentes que nos chega é enviada por colegas destas especialidades», sublinha Teresa Gomes Mota, prosseguindo:
«Relativamente à área nutricional, temos conceitos inovadores, baseados em recentes evidências científicas. Promovemos a associação da alimentação mediterrânica, comprovadamente uma das formas de alimentação mais saudáveis, com uma dieta de baixa carga glicémica e com restrições calóricas adaptadas a cada caso individual».
No que diz respeito à vertente psicológica, «é feito o despiste e a avaliação das alterações psicológicas mais frequentemente associadas ao excesso de peso e à obesidade, como são a depressão e a baixa auto-estima. Em termos de intervenção, temos uma equipa de psicoterapeutas que promovem o desenvolvimento pessoal e a mudança dos comportamentos. A pessoa pode ter um acompanhamento individual e ainda optar pela inclusão num grupo terapêutico. Esta é uma modalidade muito interessante, porque as pessoas em grupo reforçam-se mutuamente e motivam-se mais», observa a directora clínica da Transform.
O sedentarismo, característico do estilo de vida moderno, é um dos principais factores que contribuem para o aumento da obesidade. Para fazer frente a esse problema, os fisiologistas do exercício «avaliam a aptidão física da pessoa e, conforme os resultados obtidos, fazem o aconselhamento de uma actividade adequada», explica Teresa Gomes Mota.
Um programa completo de gestão da doença
Destinado a adultos obesos ou com excesso de peso, a Clínica Transform tem «um programa completo de gestão da doença, que é um conceito novo em Portugal. É claro que esse programa é tanto mais intensivo quanto maior for o problema. Existem várias opções, que dependem das necessidades individuais de cada indivíduo», refere Teresa Gomes Mota.
No sentido de dotar o doente de instrumentos que lhe permitam fazer face ao problema, a Transform promove também a educação para a saúde, através de cursos.
«Queremos promover a autonomia das pessoas, para que sejam nossas parceiras na abordagem à doença. É muito importante que compreendam o que está por detrás das nossas orientações, para que mais tarde possam elas mesmas cuidar de si. Esse é, para a Transform, um objectivo central. Ou seja, que no fim da sua passagem pela clínica a pessoa se sinta saudável, com energia e que não precise mais de nós, tornando-se um elemento divulgador na família, nos amigos e na sociedade, das mudanças de comportamentos essenciais à criação de uma consciência colectiva pela saúde», menciona a cardiologista.
O programa completo de emagrecimento para adultos, cuja duração é de um ano, prevê três momentos de avaliação muito rigorosa, nomeadamente, no início, aos cinco meses e perto do fim.
De acordo com Teresa Gomes Mota, «temos casos de grande sucesso em termos de peso e outros não tão notórios em quilos perdidos, mas com muitos ganhos em termos de saúde, na diminuição da pressão arterial, da diabetes, do colesterol e noutros indicadores da melhoria da qualidade de vida dos nossos pacientes».
«Estamos agora a iniciar uma nova fase do projecto Transform, que visa difundir para outros segmentos da população os conceitos de estilo de vida saudável e de autogestão da saúde. Para isso desenvolvemos programas educacionais com um formato de curta duração e vamos também começar a intervir em escolas e em empresas», conclui a cardiologista.
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