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O “cérebro” que comanda as acções humanas

O conceito de cérebro executivo é recente. Refere-se à noção de que o cérebro humano, sendo uma estrutura complexa e multifuncional, deve ter um comando que permita coordenar as diferentes partes para se conseguir o controlo, a eficiência e a eficácia que caracterizam as acções humanas intencionais.

A zona de comando no cérebro implica uma articulação das diferentes capacidades funcionais, de modo a responderem a um desejo ou uma necessidade humana. Vejamos um exemplo.

A partir dos doze meses de idade, a criança está capaz de andar; é uma capacidade neuromuscular e anda ao acaso ou para atingir objectos que deseja apalpar ou meter na boca. Mas, para conseguir equilibrar-se numa trave olímpica e dar um salto à retaguarda sem cair, precisa de uma coordenação muito complexa de várias áreas funcionais do cérebro. É isto que define a função do cérebro executivo.

A descoberta desta função cerebral e da estrutura que a executa deve-se ao neurofisiologista e clínico Elkhonon Goldberg, um investigador judeu que viveu na Rússia e depois “fugiu” para os EstadosUnidos. É professor de Neurologia em Nova Iorque e, na Universidade onde lecciona, dirige um grande Centro de Investigação em Neuropsicologia.

Segundo conta este investigador, o conceito de “cérebro executivo” foi amadurecido e testado em inúmeros ensaios científicos durante mais de vinte anos. A caracterização desta zona cerebral aparece retratada no seu Livro “The Executive Brain. Frontal Lobes and the Civilized Brain” publicado em 200. Foi, mais tarde, em 2005, usado num segundo livro publicado com este saboroso título: “The Wisdom Paradox, how your mind can grow stronger as your brain grows older”.

Os estudos de Anatomia funcional do cérebro, feitos graças às técnicas modernas de estudo do cérebro, como a Ressonância Magnética Nuclear Funcional (RMNF) e a Tomografia com Emissão de Positrões (PET) levaram Goldberg a identificar o “cérebro executivo” com a parte mais frontal do córtex frontal, que é também designada por córtex préfrontalou córtex fronto- orbitário. A contra-prova desta localização foi obtida com o estudo exaustivo das alterações comportamentais em doentes com lesões exclusivas desta área.

 

Cérebro executivo: mito ou realidade?

No seu livro, Elkhonon Goldberg cita como argumento o uso por cirurgiões portugueses e americanos da técnica proposta por Egas Moniz, por meio da qual os lobos frontais são desconectados do cérebro restante. Desta forma era criada artificialmente uma forma de tirar à pessoa as funções do agora chamado “cérebro executivo”. O estudo do comportamento destas pessoas revela, pela negativa, as funções desta zona do córtex frontal. Os doentes operados de leucotomia pré-frontal deixavam de ter comportamentos agressivos ou anti-sociais.

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Goldberg caracteriza esta “síndrome do lobo frontal” da seguinte forma: um doente com lesão dos lobos frontais mantém, em certo grau, a capacidade de executar muitas funções cognitivas, mas, apenas, de forma isolada. As capacidades básicas como a leitura, a escrita, a computação simples, a expressão verbal e os movimentos permanecem inalteráveis. O que é decepcionante é o facto de o doente passar nos testes psicológicos, que medem estas funções isoladamente, sem, contudo, realizar uma actividade sintéticaque exija a coordenação de muitas competências cognitivas para um processo coerente e orientado para os objectivos previstos.

A lesão do lobo pré-frontal terá efeitos diferentes consoante a sua localização. Se for atingida a porção dorso-lateral, por exemplo, o doente apresentará um quadro clínico de depressão. Mas, ao contrário do verdadeiro depressivo, mostra-se indiferente ao seu estado de não comer, não beber, não sair da cama e não ligar ao que outras pessoas lhe dizem.
Portanto a síndrome das lesões do lobo frontal explica a principal função do córtex pré-frontal que é a função coordenadora de todas as capacidades cerebrais.

A metáfora mais apropriada é a do chefe de orquestra: todos os instrumentistas estão já na sala e cada um repassa, uma última vez, as partes mais difíceis. O espectador ouve os sons confusos, produzidos por todos os instrumentos, mas, por conseguinte, não ouve a sinfonia anunciada no programa. A entrada do maestro, que não toca nenhum instrumento, impõe a ordem e cada instrumento faz o seu trabalho e a sinfonia surge em toda a sua beleza.

Cada parte do nosso cérebro executa bem uma tarefa singular. Mas é o lobo pré-frontal que, articulando e coordenando, no tempo, cada uma destas tarefas singulares faz com que a pessoa apresente um comportamento humano. Só o Homem dispõe desta parte do cérebro com esta função de gerir o que é novo e de orientar os comportamentos para objectivos presentes e futuros. E só o Homem tem esta parte do lobo frontal desenvolvida.

 

A metáfora do CEO

Imagine-se o Chief Executive Officer (CEO) de uma empresa. Este é, de certa forma, um cérebro executivo.

Não realiza nenhuma tarefa ele próprio, mas conhece a fundo as capacidades específicas de todos os centros activos da empresa. A sua principal função é conseguir articular e coordenar todas as capacidades que estão à sua disposição para obter um resultado desejado no presente e consolidado no futuro. Usando a metáfora do maestro de uma orquestra, o CEO tem de saber, ainda, ensaiar bem os naipes, puxando mais por uns e elogiando outros, para que no dia do concerto tudo saia perfeito.

Há estudos que demonstram que o exercício das capacidades perceptivas faz aumentar as zonas cerebrais relacionadas com esta actividade perceptiva, como é o caso dos bilingues e dos instrumentistas.

Mas não há nenhum estudo que relacione o exercício das decisões humanas com melhoria numérica das células do cérebro executivo.

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O uso precoce e sustentado da actividade perceptiva melhora as áreas cerebrais correspondentes às percepções e coloca à disposição do córtex pré-frontal um cérebro com maior capacidade de resposta, em tempo e em qualidade. As ligações das células deste córtex a todos os restantes centros executantes, nos dois sentidos, dão ao cérebro executivo um “conhecimento” das capacidades que o restante cérebro tem à sua disposição para comandar. O CEO de uma empresa tem de ter este tipo de ligações com os diferentes sectores da sua empresa para saber o que pode exigir, em cada momento, de cada um deles.

O cérebro executivo envelhece mais lentamente, razão pela qual assiste ao envelhecimento do restante tecido cerebral. O cérebro executivo apercebe-se de que a percepção auditiva e/ou visual está a piorar pela perda de células nervosas na retina ou no órgão de Corti. Deste modo, não vai dar ordem de uma tarefa que, obviamente, ele sabe que o cérebro específico para a função visual e auditiva não vai poder executar. Também reconhece que a capacidade de executar um complexo raciocínio lógico e quantificado para tomar uma decisão vai diminuindo em consequência da perda de células sub-corticais.

Então vai privilegiar as decisões por pattern recognition em vez de decisões de tipo problem solving.

Dito de outra forma, vai orientar o idoso para decidir emocionalmente em vez de estar a fazer as análises racionais complexas que executava quando era mais novo. Será assim de esperar que um CEO idoso dê preferência a decisões intuitivas e emocionais no lugar de decisões muito apoiadas em complexos estudos matemáticos, estatísticos, modelizados, que quase impõem, já formatada, uma decisão racional e muito reflectida.
O que não significa que tais decisões, por emocionais, sejam menos capazes de garantir o sucesso esperado.

Daniel Serrão | Professor Jubilado e docente no curso de Doutoramento em Bioética do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa

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