X
    Categories: InformaçõesObesidadeSaúde Pública

Margarida Martins, obesa mórbida » «Quando atingi os 163 kg comecei a sentir-me muito mal e a ter dificuldades em andar»

«Guida Gorda» ou simplesmente «Gorda». Estas duas alcunhas acompanham Margarida Martins desde muito cedo. «Sempre sofri de obesidade. Na escola primária era a criança mais alta e mais forte da classe», diz a presidente da Abraço.

Todavia, não era alvo de risotas entre os colegas. Mas, nas suas palavras, «durante a adolescência já foi diferente. Faço parte de uma geração em que se prezava a magreza e por isso mesmo as pessoas mais gordas começaram a ser mais discriminadas».

«Nunca me afectou ser obesa e quando os amigos e familiares me chamavam de Guida Gorda ou Gorda era de uma forma carinhosa e não me importava. Porém, já mais velha cheguei a ser achincalhada na rua por miúdos, que diziam “olha aquela gorda” de forma depreciativa, ou nomes mais feios. Não dava importância, pois os adolescentes às vezes dizem coisas que lhes sai da boca para fora», comenta esta alfacinha de 52 anos, completados a 11 de Julho de 2005.

E menciona alguns aspectos que conduziram a um aumento repentino de peso: «Aos 27 anos tive uma gravidez ectópica, cuja consequência foi a laqueação das trompas de Falópio. Pesava 75 kg, engordei logo 40 kg. Aquilo que comia, bem como a quantidade não justificou aquele repentino aumento de peso.»

Era um problema hormonal e, aliado ao mesmo, também passou por uma fase complicada a nível psicológico.

«Por vezes, com os desgostos podemos deixar de prestar atenção a outras situa­ções», desabafa Margarida Martins, que não parava de engordar, mesmo quando ultrapassou toda aquela situação.

Se o problema fosse apenas o aspecto físico, Margarida nunca teria feito nada para perder peso. Aliás, está a um passo de concluir o processo moroso que os obesos mórbidos têm de enfrentar sob pena de morrerem.

«Quando atingi os 163 kg, em 2001, comecei a sentir-me muito mal e a ter dificuldades em andar. Além disso, cansava-me imenso. Recorri aos médicos e em Março de 2002 fui operada para colocar uma banda gástrica, que terei até ao resto da vida», conta a responsável pela Abraço.

Combater a obesidade mórbida

Como não poderia deixar de ser, o tratamento à obesidade mórbida não se confinou à colocação da banda gástrica. Entre muitas outras coisas, fez uma dieta, que interrompeu há cerca de 1 ano. Agora, quando se pesa, a balança marca 93 kg.

Perder 70 kg não é como perder a «barriguinha» nem uns meros 5 kg. Após avultada perda, o corpo fica totalmente modificado e há que «trabalhar» a pele que deixou de ter tecido adiposo. É, pois, necessária a intervenção de um cirurgião plástico.

«Além da operação para colocar a banda gástrica, já fiz quatro plásticas em praticamente dois anos, sendo duas delas à zona do queixo (tinha duplo queixo) e às pálpebras», refere Margarida Martins, prosseguindo:

«Ainda me falta fazer mais cirurgias, nomeadamente aos braços porque fica­ram pendentes, ao peito pois ficou partido e ao abdómen para rectificar a pele que ficou sem toda aquela gordura.»

Embora ainda não tenha o peso ideal para que a obesidade mórbida não a atraiçoe, já são notórias as diferenças, em especial na qualidade de vida.

«Hoje em dia, ando, corro, danço, nado. Voltei à minha vida, à vida que não tinha há muitos anos. Entretanto, comecei um programa de ginástica e brevemente vou retomar a dieta, pois tenho de perder mais 15 kg», revela Margarida Martins, sublinhando:

«Há muitos indivíduos que, por sofre­rem de obesidade mórbida, precisam deste tratamento não por uma questão de estética mas de sobrevivência. É impossível viver com peso a mais e, muitas vezes, não tem a ver com a alimentação.»

O obeso mórbido é um doente crónico

Se o excesso de peso não é benéfico para a saúde, sofrer de obesidade resulta ainda pior. Pior ainda é quando se é obeso mórbido. Quando nada é feito, é irreversível e o tratamento não passa unicamente por uma rigorosa dieta. Veja-se o caso de Margarida Martins.

É o índice de massa corporal (IMC) que determina se um indivíduo tem o peso adequado, se tem excesso de peso, é obeso, obeso moderado ou obeso mórbido. Os indicadores estão bem-definidos e o método consiste em dividir o peso pela altura duas vezes. Se o resultado ultrapassar os 35 é sinal que existe obesidade mórbida.

Falando em quilogramas, uma pessoa que meça 1,60 m e pese 78 kg já está no limiar da obesidade mórbida; se tiver 102 kg é conside­rada obesa mórbida. Existem casos em que na balança são marcados 280 kg…

«Um obeso mórbido é considerado um doente crónico, em estado grave e que pode morrer se não for tratado», define o Dr. Biscaia Fraga, cirurgião plástico, director do Serviço de Cirurgia Plástica e Maxilofacial do Hospital Central (Egas Moniz), em Lisboa.

«Em alguns destes doentes as pregas de pele são de tal ordem que caem do abdómen até às pernas (abaixo do joelho). Como tal, não conseguem fazer a higiene adequada de certas zonas do corpo», refere o cirurgião plástico, continuando:

«As coxas caem e fazem pregas tão acentuadas que durante a marcha faz atrito, inflama e infecta. Desta forma, ficam dependentes de outras pessoas.»

Várias especialidades envolvidas no tratamento

A colocação de uma banda gástrica é um dos métodos mais eficazes. A taxa de sucesso é elevada e o doente vê a sua vida alterar-se «da noite para o dia», mas não «de um dia para o outro».

Apesar de todos os meses notar diferenças bastante positivas, somente ao fim de três ou quatro anos é que o paciente recupera de forma consolidada da obesidade mórbida. Isto se a situação evoluir dentro dos parâmetros normais e, claro, se o indivíduo colaborar activamente.

Endocrinologia, Psicologia, Psiquiatria, Cirurgia Geral, Gastrenterologia, Cirurgia Plástica, Anestesia, Cuidados Intensivos, Nutrição e Medicina Interna. São estas as especialidades envolvidas no tratamento de um obeso mórbido, que tem uma abordagem multidisciplinar. Afinal, não passa pela «simples» colocação da banda gástrica.

«É necessário que o doente tenha uma estrutura emocional adequada. Este tratamento exige uma alteração do comportamento. A pessoa tem de ser educada a comer, porque com a banda gástrica não vai conseguir comer um décimo daquilo que comia e psicologicamente é um grande embate. Por exemplo, basta um iogurte para o estômago ficar repleto», menciona Biscaia Fraga.

Se para cada obeso mórbido, o cirurgião geral intervém uma única vez para colocar a banda, o cirurgião plástico efectua entre 5 a 10 intervenções, com intervalos entre cada acto cirúrgico.

Quando o doente começa a perder gordura, o corpo altera-se e as peles ficam extremamente flácidas e em excesso.

De acordo com Biscaia Fraga, «a primeira cirurgia plástica para retirar todo o excesso de tecido adiposo, geralmente, é ao abdómen. Depois passamos às coxas, ao tronco, à região lombar, aos braços, à área mamária, ao pescoço e à face. A cirurgia não é só para a pele que ficou em excesso, também reconstruímos o tecido muscular», diz o director do Serviço de Cirurgia Plástica e Maxilofacial do Hospital Central, ressalvando:

«Não se pode considerar cirurgia estética, porque é uma reconstrução que visa transformar a pessoa, pô-la o mais normal possível.»

Após o moroso tratamento, o doente tem de consultar o endocrinologista e o cirurgião plástico de seis em seis meses.

Quais as causas da obesidade mórbida?

Ninguém está livre de vir a sofrer deste mal, até porque tanto o excesso de peso como a obesidade têm vindo a aumentar.

Na opinião de Biscaia Fraga, «a causa fundamental da obesidade mórbida é a sociedade actual e a forma como tem evoluído. A alimentação não é saudável, o ser humano não faz exercício físico, quer conforto a todos os níveis e acaba por se deslocar sem mexer um único músculo».

Mas, o cirurgião plástico também acredita que haja influências de outra natureza, como climáticas ou hormonais.

«Pode também estar associada a depressões. Nestes casos, a comida funciona como um reflexo condicionado de gratificação daquilo que é uma vida tenebrosa, horrível. Além disso, numa depressão grave, o doente acaba por ter uma vida muito sedentária», indica o especialista.

Discutir a obesidade mórbida no I Congresso Nacional de Cirurgia Estética

Uma obesa mórbida envolvida num processo de operações plásticas para retirar o excesso de pele, uma paciente que foi operada aos joanetes em virtude de uma deformação originada pelo uso de sapatos desadequados e um doente que corrigiu os genitais. A cirurgia estética mudou a vida destes três portugueses, cujos casos foram expostos no I Congresso Nacional de Cirurgia Estética.

«O Congresso decorreu acima das expectativas e houve um excelente feedback por parte dos participantes. Conseguimos juntar 17 especialidades diferentes, desde a Reumatologia à Neurocirurgia, Estomatologia, Endocrinologia, Cirurgia Geral, entre outras», diz Biscaia Fraga, presidente deste evento, que teve lugar entre os dias 10 e 12 de Novembro, em Cascais.

A obesidade mórbida foi um dos temas principais. Mas, houve muitos outros.

«Foi transmitida em directo para o auditório uma cirurgia de rejuvenescimento da face feita por um cirurgião francês. Durante a operação tivemos a possibilidade de discutir a técnica usada, colocar algumas questões e esclarecer algumas dúvidas», sustenta Biscaia Fraga, sublinhando:

«Até mostramos como era possível, através da cirurgia estética, transformar um pé elegante para as senhoras usarem um calçado italiano.»

A cirurgia nasal na perspectiva da Otorrinolaringologia e da Cirurgia Estética, a reconstrução microcirúrgica da base do crânio e a cirurgia de ambulatório foram outros assuntos discutidos neste Congresso, que contou com a participação do Dr. Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados, do Prof. João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, e do Dr. Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos, num debate sobre a responsabilidade e divulgação em cirurgia estética.

Medicina & Saúde

www.jasfarma.pt

admin: