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Manter a vida de um coração fraco

Este é um projecto pioneiro em Portugal: a Unidade de Tratamento de Insuficiência Cardíaca Avançada já funciona há mais de um ano no Serviço de Cardiologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Além de procurar recuperar doentes com insuficiência cardíaca grave, esta unidade também serve de suporte aos programa de transplantes dos HUC.

José Miguel trabalhou na indústria de cristais de Alcobaça, mas diz que está reformado aos 54 anos porque o coração não dá para mais. Para pagar as despesas, vende cautelas de lotaria.

Há cerca de uma década, começou por sentir um cansaço inusitado e reparou que o coração batia desordenado.

«Fui ao médico em Alcobaça. Na altura, receitou-me um tratamento à base de comprimidos, mas numa recaída emagreci dez quilos», conta.

Do peso normal, 62 quilos, José Miguel vê agora a balança marcar 51. Confessa que andou «anos à deriva». Vícios antigos como beber ou fumar ajudaram a tornar mais grave esta doença.

Agora, com insuficiência cardíaca, tenta largar «hábitos difíceis de curar, pois, a vida de cauteleiro tem muito destas coisas. Entra-se muito nas tascas. Na parte da tarde como um petisco e atrás vêm uns copitos», diz.

A relação de José Miguel com a UTICA – a sigla que designa a Unidade de Tratamento de Insuficiência Cardíaca Avançada dos HUC de Coimbra – ultrapassa largamente os sete dias que este homem esteve internado, momentos em que diz ter sido «bem tratado».

Estava melhor no momento em que conversámos, frequenta as consultas de rotina, cumpre a terapêutica, submete-se a electrocardiogramas, ecocardiogramas, enfim, o que for preciso. No entanto, admite que mudar práticas altamente prejudiciais como fumar é tarefa árdua. Para tal, é fundamental todo o ensino e apoio dispensados pela consulta de insuficiência cardíaca. Para ele e para qualquer outro doente deste género.

«Que hei-de fazer? Mas pelo menos já não entro em noitadas, até altas horas. Retirei-me dessas noites de fim-de-semana em que frequentava discotecas. Isso acabou», ri-se.

UTICA já funciona
há quase dois anos

Exemplos de insuficiência cardíaca como a de José Miguel não faltam. São eles que chegam, um pouco de todo o país, aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), são encaminhados para a Cardiologia e, quando é grave, para a UTICA.

Trata-se de um projecto pioneiro no País, que engloba uma Unidade Médica Intensiva para doentes com insuficiência cardíaca grave, Hospital de Dia e Consulta Externa Diferenciada. Insere-se numa lógica de interacção com outros serviços hospitalares e tem como objectivo último apoiar e disponibilizar os melhores recursos terapêuticos para estes doentes em diferentes níveis de intervenção como ambulatório e internamento. O mês de Dezembro marcou o segundo ano de funcionamento.

«Aqui são tratados doentes em fase de agudização cardíaca ou que estejam em períodos de agravamento da doença. Os objectivos são vários: optimizar o tratamento médico, permitir uma avaliação mais concreta dos doentes em fase de pré-transplante cardíaco ou ainda para dar o melhor tratamento possível àqueles que já não têm condições para receber um coração novo», refere o director do Serviço de Cardiologia dos HUC, Prof. Luís Providência, acerca da Unidade Médica Intensiva.

Atravessa-se uma porta, entra-se num corredor longo, andam-se uns metros e à esquerda há uma entre várias salas que concentra atenções especiais. Essa circunstância é notória pelo burburinho gerado. Entram uns, saem outros. Médicos, enfermeiros, auxiliares, todos com uma tarefa definida. Lá dentro, os equipamentos de monitorização concentram-se em torno de cinco camas. São poucas, mas o suficiente, numa sala que também não é um exemplo de espaço amplo.

Esta unidade está equipada com o mais moderno material para monitorização invasiva e não invasiva, permitindo oferecer cuidados altamente diferenciados aos doentes com insuficiência cardíaca grave descompensada ou insuficiência cardíaca aguda. Estão constantemente disponíveis um intensificador de imagem, um ecocardiógrafo portátil, um ventilador e um doseador de gases no sangue.

O mecenato desempenhou um papel fundamental na montagem desta unidade. «Tudo o que aqui está foi conseguido através da apoio de patrocinadores privados, de vários quadrantes, quer regionais, quer nacionais», lembra Luís Providência.

Espaço gerido quase ao centímetro

Ali a disposição de pessoas e materiais a cada centímetro parece ter uma gestão meticulosa.

É possível circular entre as camas, de doente em doente, como é tão necessário, porque «não podemos correr o risco haver distracções», afirma Luís Providência. Afinal, são pessoas com insuficiência cardíaca grave, umas melhor, outras pior.

A vigilância é por isso apertada e, entre uma e outra cama, consultando gráficos nos ecrãs, observando doente a doente, a Dr.ª Fátima Franco, responsável clínica, desvenda as preocupações com que se debate no dia-a-dia. No limite,«manter vivos os doentes», nem mais, nem menos.

De outro modo, «sem este tipo de assistência, doentes com grave compromisso cardíaco não têm grandes probabilidades de sobrevivência. Acolhemos aqui, entre outros casos, doentes que estão na lista de espera por um transplante cardíaco, até ao surgimento de um dador compatível, que nem sempre existe».

5 a 10% dos doentes
são transplantados

«Preparamos os doentes para transplante, ou seja, numa expressão simples, são efectuados todos os exames necessários para avaliar se o doente tem condições para receber um novo coração. Cerca de 5 a 10% dos doentes que recebemos na UTICA destinam-se a esse tipo de intervenção», anota Luís Providência.

Normalmente, grande parte deste tipo de intervenção cirúrgica é realizada em pessoas entre os 40 e os 50 anos. «Isto porque um doente acima dos 70 anos já não é elegível. No entanto, a terapêutica médica da insuficiência cardíaca evoluiu bastante nos últimos anos e com a utilização optimizada dos fármacos actualmente disponíveis é possível melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes com esta patologia, bem como aumentar a sua sobrevida», diz o director do Serviço de Cardiologia dos HUC, acrescentando:

«Paralelamente, surgiram também pacemakers que permitem melhorar e optimizar a função cardíaca através da ressincronização ventricular (pacemaker biventricular), bem como cardiodesfibrilhadores implantáveis (CDI) que evitam a morte súbita devido a disritmias malignas. Com os notáveis avanços realizados quer na terapêutica médica, quer nos “devices”, Pacemaker Biventricular e CDI, o transplante cardíaco tem vindo a desempenhar progressivamente um papel menos preponderante no tratamento da insuficiência cardíaca avançada.»

Apesar disso, o programa de transplante cardíaco, desde o início, há onze meses, já fez 25 intervenções desse género.

Educar consciências e modificar
atitudes em hospital de dia

O seguimento destes doentes estende-se para além das quatro paredes da sala da UTICA, onde estão as cinco camas. Depois da recuperação, e uma vez obtida a alta, as pessoas que por ali passaram tornam-se visitas regulares, tal qual José Miguel. Mesmo que nem todas as instruções dos médicos e enfermeiros sejam cumpridas à risca, o trabalho de educação é permanente. Cada um deve ter consciência do seu estado de saúde e zelar por isso. Uma abordagem, que marca, de resto, outras patologias.

A poucos passos ao lado, noutra sala, há elementos da enfermagem que se encarregam dos tratamentos que podem ser ali administrados, entre as outras facilidades que os utentes podem encontrar num regime de hospital de dia, como é o caso. Desde a aplicação de um simples soro, até medicamentos por via endovenosa, comparação do peso desde a última visita, faz-se um pouco de tudo para estabilizar a doença e evitar internamentos desnecessários.

Enquanto cumpre a terapêutica, quem ali se dirige pode assistir a um filme com todas as instruções sobre a forma de como lidar com a insuficiência cardíaca e evitar dissabores. Falta de informação não é desculpa.

O doente recebe também um pequeno livro, onde vão sendo registados todos os dados pessoais e relativos à evolução clínica, que podem ser apresentados de forma útil em qualquer unidade hospitalar do País, permitindo uma leitura clara, em caso de emergência.

«É o segundo bilhete de identidade do doente, pelo que deve andar sempre com ele», refere a enfermeira Lina Melo.

Ambiente familiar

Com maior ou menor grau de dependência, certo é que o relacionamento diário entretanto estabelecido cria um ambiente familiar. Lina Melo conta que «as caras que aqui encontramos já são todas conhecidas».

Este comprometimento emocional é patente no quotidiano de muitos serviços de saúde. Na UTICA, os profissionais também partilham os dramas alheios. Uma regra a que é difícil escapar.

A insuficiência cardíaca é reconhecidamente uma patologia com alta taxa de mortalidade, não escolhendo homens ou mulheres, sobretudo a partir dos 65 anos. Mas neste dia em que visitámos esta unidade havia uma das tais excepções. Uma mulher de 39 anos.

«No último ano, passaram pelo internamento da UTICA mais de 230 doentes, o que corresponde a 5% dos internamentos no Serviço de Cardiologia dos HUC», sublinha Luís Providência.

No entanto, diz este médico, «é de notar que estes são doentes particularmente graves e com múltiplas co-morbilidades associadas, o que leva a um considerável consumo de recursos».

A UTICA, acredita Fátima Franco, «veio introduzir uma melhoria de qualidade na assistência aos doentes com insuficiência cardíaca grave. Tal como tem vindo a ser implementado noutros países, nomeadamente nos EUA, há uma equipa diferenciada e multidisciplinar a cuidar destes doentes. Além do tratamento agressivo aquando dos episódios de descompensação ou instabilização numa unidade específica, o facto de existir uma consulta de “porta aberta” a que o doente recorre sempre que sente necessidade permite intensificar e ajustar terapêuticas e assim reduzir os internamentos por insuficiência cardíaca descompensada e diminuir o tempo de internamento quando tal é necessário».

O grupo de enfermagem de oito elementos trabalha por turnos. Ao enfermeiro–chefe Jorge Canais cabe gerir este pessoal consoante «as necessidades e o nível de dependência das pessoas que aqui estão internadas. É claro que precisamos sempre de mais enfermeiros. A nossa taxa de ocupação é de 93%, o que equivale a dizer que as nossas camas estão quase sempre ocupadas na totalidade».

Lá dentro, na sala da UTICA, ninguém pára. Além dos médicos, vão passando também clínicos de outras especialidades que frequentemente dão apoio aos doentes com insuficiência cardíaca avançada, como a nefrologia e a endocrinologia. O mesmo acontece com a equipa de enfermagem, com múltiplas tarefas a desempenhar. Neste vai e vem, ainda sobra disponibilidade para tentar resgatar expressões alegres aos doentes que o podem fazer. Levantar o moral das tropas, poderia dizer-se.
À D. Fernanda, que chegou de Portalegre, restam forças para estar sentada numa cadeira, bem lá no canto junto à cama, rodeada pelo frenesim da aparelhagem e tomada pelo soro.

«Mas o combate a esta doença não depende só da tecnologia. A humanização dos cuidados é também determinante para um final feliz», sustenta Fátima Franco.

E eis que um dos médicos promete a esta mulher: «A D. Fernanda vai fazer um cateterismo e vai para casa, não é assim? Venha de lá esse sorriso!»

A senhora, já com alguma idade, parece ter ouvido uma palavra mágica: casa.
E olhou, com essa esperança de regressar.

David Carvalho

José Miguel trabalhou na indústria de cristais de Alcobaça, mas diz que está reformado aos 54 anos porque o coração não dá para mais. Para pagar as despesas, vende cautelas de lotaria.

Há cerca de uma década, começou por sentir um cansaço inusitado e reparou que o coração batia desordenado.

«Fui ao médico em Alcobaça. Na altura, receitou-me um tratamento à base de comprimidos, mas numa recaída emagreci dez quilos», conta.

Do peso normal, 62 quilos, José Miguel vê agora a balança marcar 51. Confessa que andou «anos à deriva». Vícios antigos como beber ou fumar ajudaram a tornar mais grave esta doença.

Agora, com insuficiência cardíaca, tenta largar «hábitos difíceis de curar, pois, a vida de cauteleiro tem muito destas coisas. Entra-se muito nas tascas. Na parte da tarde como um petisco e atrás vêm uns copitos», diz.

A relação de José Miguel com a UTICA – a sigla que designa a Unidade de Tratamento de Insuficiência Cardíaca Avançada dos HUC de Coimbra – ultrapassa largamente os sete dias que este homem esteve internado, momentos em que diz ter sido «bem tratado».

Estava melhor no momento em que conversámos, frequenta as consultas de rotina, cumpre a terapêutica, submete-se a electrocardiogramas, ecocardiogramas, enfim, o que for preciso. No entanto, admite que mudar práticas altamente prejudiciais como fumar é tarefa árdua. Para tal, é fundamental todo o ensino e apoio dispensados pela consulta de insuficiência cardíaca. Para ele e para qualquer outro doente deste género.

«Que hei-de fazer? Mas pelo menos já não entro em noitadas, até altas horas. Retirei-me dessas noites de fim-de-semana em que frequentava discotecas. Isso acabou», ri-se.

UTICA já funciona

há quase dois anos

Exemplos de insuficiência cardíaca como a de José Miguel não faltam. São eles que chegam, um pouco de todo o país, aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), são encaminhados para a Cardiologia e, quando é grave, para a UTICA.

Trata-se de um projecto pioneiro no País, que engloba uma Unidade Médica Intensiva para doentes com insuficiência cardíaca grave, Hospital de Dia e Consulta Externa Diferenciada. Insere-se numa lógica de interacção com outros serviços hospitalares e tem como objectivo último apoiar e disponibilizar os melhores recursos terapêuticos para estes doentes em diferentes níveis de intervenção como ambulatório e internamento. O mês de Dezembro marcou o segundo ano de funcionamento.

«Aqui são tratados doentes em fase de agudização cardíaca ou que estejam em períodos de agravamento da doença. Os objectivos são vários: optimizar o tratamento médico, permitir uma avaliação mais concreta dos doentes em fase de pré-transplante cardíaco ou ainda para dar o melhor tratamento possível àqueles que já não têm condições para receber um coração novo», refere o director do Serviço de Cardiologia dos HUC, Prof. Luís Providência, acerca da Unidade Médica Intensiva.

Atravessa-se uma porta, entra-se num corredor longo, andam-se uns metros e à esquerda há uma entre várias salas que concentra atenções especiais. Essa circunstância é notória pelo burburinho gerado. Entram uns, saem outros. Médicos, enfermeiros, auxiliares, todos com uma tarefa definida. Lá dentro, os equipamentos de monitorização concentram-se em torno de cinco camas. São poucas, mas o suficiente, numa sala que também não é um exemplo de espaço amplo.

Esta unidade está equipada com o mais moderno material para monitorização invasiva e não invasiva, permitindo oferecer cuidados altamente diferenciados aos doentes com insuficiência cardíaca grave descompensada ou insuficiência cardíaca aguda. Estão constantemente disponíveis um intensificador de imagem, um ecocardiógrafo portátil, um ventilador e um doseador de gases no sangue.

O mecenato desempenhou um papel fundamental na montagem desta unidade. «Tudo o que aqui está foi conseguido através da apoio de patrocinadores privados, de vários quadrantes, quer regionais, quer nacionais», lembra Luís Providência.

Espaço gerido quase ao centímetro

Ali a disposição de pessoas e materiais a cada centímetro parece ter uma gestão meticulosa.

É possível circular entre as camas, de doente em doente, como é tão necessário, porque «não podemos correr o risco haver distracções», afirma Luís Providência. Afinal, são pessoas com insuficiência cardíaca grave, umas melhor, outras pior.

A vigilância é por isso apertada e, entre uma e outra cama, consultando gráficos nos ecrãs, observando doente a doente, a Dr.ª Fátima Franco, responsável clínica, desvenda as preocupações com que se debate no dia-a-dia. No limite,«manter vivos os doentes», nem mais, nem menos.

De outro modo, «sem este tipo de assistência, doentes com grave compromisso cardíaco não têm grandes probabilidades de sobrevivência. Acolhemos aqui, entre outros casos, doentes que estão na lista de espera por um transplante cardíaco, até ao surgimento de um dador compatível, que nem sempre existe».

5 a 10% dos doentes

são transplantados

«Preparamos os doentes para transplante, ou seja, numa expressão simples, são efectuados todos os exames necessários para avaliar se o doente tem condições para receber um novo coração. Cerca de 5 a 10% dos doentes que recebemos na UTICA destinam-se a esse tipo de intervenção», anota Luís Providência.

Normalmente, grande parte deste tipo de intervenção cirúrgica é realizada em pessoas entre os 40 e os 50 anos. «Isto porque um doente acima dos 70 anos já não é elegível. No entanto, a terapêutica médica da insuficiência cardíaca evoluiu bastante nos últimos anos e com a utilização optimizada dos fármacos actualmente disponíveis é possível melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes com esta patologia, bem como aumentar a sua sobrevida», diz o director do Serviço de Cardiologia dos HUC, acrescentando:

«Paralelamente, surgiram também pacemakers que permitem melhorar e optimizar a função cardíaca através da ressincronização ventricular (pacemaker biventricular), bem como cardiodesfibrilhadores implantáveis (CDI) que evitam a morte súbita devido a disritmias malignas. Com os notáveis avanços realizados quer na terapêutica médica, quer nos “devices”, Pacemaker Biventricular e CDI, o transplante cardíaco tem vindo a desempenhar progressivamente um papel menos preponderante no tratamento da insuficiência cardíaca avançada.»

Apesar disso, o programa de transplante cardíaco, desde o início, há onze meses, já fez 25 intervenções desse género.

Educar consciências e modificar

atitudes em hospital de dia

O seguimento destes doentes estende-se para além das quatro paredes da sala da UTICA, onde estão as cinco camas. Depois da recuperação, e uma vez obtida a alta, as pessoas que por ali passaram tornam-se visitas regulares, tal qual José Miguel. Mesmo que nem todas as instruções dos médicos e enfermeiros sejam cumpridas à risca, o trabalho de educação é permanente. Cada um deve ter consciência do seu estado de saúde e zelar por isso. Uma abordagem, que marca, de resto, outras patologias.

A poucos passos ao lado, noutra sala, há elementos da enfermagem que se encarregam dos tratamentos que podem ser ali administrados, entre as outras facilidades que os utentes podem encontrar num regime de hospital de dia, como é o caso. Desde a aplicação de um simples soro, até medicamentos por via endovenosa, comparação do peso desde a última visita, faz-se um pouco de tudo para estabilizar a doença e evitar internamentos desnecessários.

Enquanto cumpre a terapêutica, quem ali se dirige pode assistir a um filme com todas as instruções sobre a forma de como lidar com a insuficiência cardíaca e evitar dissabores. Falta de informação não é desculpa.

O doente recebe também um pequeno livro, onde vão sendo registados todos os dados pessoais e relativos à evolução clínica, que podem ser apresentados de forma útil em qualquer unidade hospitalar do País, permitindo uma leitura clara, em caso de emergência.

«É o segundo bilhete de identidade do doente, pelo que deve andar sempre com ele», refere a enfermeira Lina Melo.

Ambiente familiar

Com maior ou menor grau de dependência, certo é que o relacionamento diário entretanto estabelecido cria um ambiente familiar. Lina Melo conta que «as caras que aqui encontramos já são todas conhecidas».

Este comprometimento emocional é patente no quotidiano de muitos serviços de saúde. Na UTICA, os profissionais também partilham os dramas alheios. Uma regra a que é difícil escapar.

A insuficiência cardíaca é reconhecidamente uma patologia com alta taxa de mortalidade, não escolhendo homens ou mulheres, sobretudo a partir dos 65 anos. Mas neste dia em que visitámos esta unidade havia uma das tais excepções. Uma mulher de 39 anos.

«No último ano, passaram pelo internamento da UTICA mais de 230 doentes, o que corresponde a 5% dos internamentos no Serviço de Cardiologia dos HUC», sublinha Luís Providência.

No entanto, diz este médico, «é de notar que estes são doentes particularmente graves e com múltiplas co-morbilidades associadas, o que leva a um considerável consumo de recursos».

A UTICA, acredita Fátima Franco, «veio introduzir uma melhoria de qualidade na assistência aos doentes com insuficiência cardíaca grave. Tal como tem vindo a ser implementado noutros países, nomeadamente nos EUA, há uma equipa diferenciada e multidisciplinar a cuidar destes doentes. Além do tratamento agressivo aquando dos episódios de descompensação ou instabilização numa unidade específica, o facto de existir uma consulta de “porta aberta” a que o doente recorre sempre que sente necessidade permite intensificar e ajustar terapêuticas e assim reduzir os internamentos por insuficiência cardíaca descompensada e diminuir o tempo de internamento quando tal é necessário».

O grupo de enfermagem de oito elementos trabalha por turnos. Ao enfermeiro–chefe Jorge Canais cabe gerir este pessoal consoante «as necessidades e o nível de dependência das pessoas que aqui estão internadas. É claro que precisamos sempre de mais enfermeiros. A nossa taxa de ocupação é de 93%, o que equivale a dizer que as nossas camas estão quase sempre ocupadas na totalidade».

Lá dentro, na sala da UTICA, ninguém pára. Além dos médicos, vão passando também clínicos de outras especialidades que frequentemente dão apoio aos doentes com insuficiência cardíaca avançada, como a nefrologia e a endocrinologia. O mesmo acontece com a equipa de enfermagem, com múltiplas tarefas a desempenhar. Neste vai e vem, ainda sobra disponibilidade para tentar resgatar expressões alegres aos doentes que o podem fazer. Levantar o moral das tropas, poderia dizer-se.

À D. Fernanda, que chegou de Portalegre, restam forças para estar sentada numa cadeira, bem lá no canto junto à cama, rodeada pelo frenesim da aparelhagem e tomada pelo soro.

«Mas o combate a esta doença não depende só da tecnologia. A humanização dos cuidados é também determinante para um final feliz», sustenta Fátima Franco.

E eis que um dos médicos promete a esta mulher: «A D. Fernanda vai fazer um cateterismo e vai para casa, não é assim? Venha de lá esse sorriso!»

A senhora, já com alguma idade, parece ter ouvido uma palavra mágica: casa.

E olhou, com essa esperança de regressar.

David Carvalho

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