X
    Categories: InformaçõesInvestigaçãoSaúde Pública

Investigação em Neurociências

Desde que o Homem povoou a terra que procura compreender a origem da sua existência. No ano 2000 assinalou-se um marco notável na história da biologia, mas também da humanidade: foi apresentada a primeira versão do código da vida humana – a sequência de DNA que constitui o genoma humano.

As cerca de 3×109 (3 mil milhões) de bases de DNA que constituem o genoma humano formam os cerca de 25 mil genes que ditam se somos altos ou baixos, de cabelo claro ou escuro, ou se temos algu-ma doença hereditária. Mas aquilo que também nos torna únicos é a nossa mente ou, de forma mais científica, o nosso sistema nervoso, e em particular o cérebro. As neurociências dedicam-se precisamente ao estudo do sistema nervoso, procurando perceber como funcionam e comunicam os neurónios.

O cérebro humano é formado por um número impressionante de células, que podemos dividir em duas categorias: os neurónios e as células da glia. Estima-se que o nosso cérebro seja formado por 1011 (100 mil milhões) de neurónios e 10 a 50 vezes mais células da glia. Torna-se assim evidente que o número de células no nosso sistema nervoso ultrapassa largamente o número de bases de DNA em cada uma das nossas células. Se colocássemos todos os neurónios do cérebro “em fila”, estes cobririam a distância entre Lisboa e Barcelona!

Os neurónios são células extremamente especializadas, mas que partilham uma arquitectura semelhante. A complexidade do comportamento humano advém, em grande parte, do facto de que um número elevado de neurónios formam circuitos anatómicos precisos que controlam tudo aquilo que somos, quer a nível físico quer a nível psicológico. Por outro lado, as células da glia desempenham um papel vital ao envolverem os neurónios e assegurarem que a comunicação entre eles se faz de forma eficiente.

Uma das formas utilizadas pelos investigadores para perceberem o funcionamento dos circuitos neuronais e das suas funções passa pelo estudo das muitas patologias que podem afectar o sistema nervoso. Na Europa, estima-se que doenças cerebrais afectem 35% da população, o que ajuda a perceber a necessidade da intensificação da investigação nesta área, já que há ainda muito a descobrir.

Actualmente conhecem-se diversas substâncias chamadas neurotransmissores, moléculas que permitem a comunicação entre diferentes sistemas neuronais no cérebro. Várias doenças neurodegenerativas, isto é, em que há degeneração e morte de tecidos nervosos, estão associadas com distúrbios ao nível da produção de neurotransmissores e entre a comunicação entre diferentes circuitos cerebrais. Entre este tipo de doenças encontra-se a mais comum destas doenças: a doença de Alzheimer, descrita pela primeira vez há mais de 100 anos, que afecta cerca de 2% da população mundial com mais de 65 anos de idade.

A doença de Alzheimer está associada à perda de neurónios que secretam o neurotransmissor acetilcolina, e resulta na perda progressiva da capacidade cognitiva. A segunda doença neurodegenerativa mais comum é a doença de Parkinson, descrita ainda no século XIX. Esta doença afecta cerca de 1% dos indivíduos com mais de 65 anos, e está associada com a perda de neurónios que produzem o neurotransmissor dopamina, tendo como consequências principais a rigidez muscular, lentidão de movimentos, e tremores. Apesar da disponibilidade de algumas terapêuticas, que ajudam a controlar alguns dos sintomas neste tipo de patologias, não existem ainda tratamentos capazes de interromper a progressão, ou reverter os sintomas.

Técnicas modernas de microscopia e imagiologia aplicadas às neurociências têm permitido avanços significativos no que respeita à compreensão dos mecanismos envolvidos no aparecimento e progressão destas doenças. No estudo do cérebro, como em muitas outras áreas da ciência, é essencial que se façam esforços multidisciplinares para que, em última instância, se possam compreender os mecanismos moleculares responsáveis pelo desenvolvimento de emoções e consciência que são, no fundo, aquilo que nos distingue de outros seres vivos.

Foi só no final do século XIX que se começou a perceber como funciona o sistema nervoso, mas ainda hoje subsistem inúmeras dúvidas quanto ao seu funcionamento. A investigação em neurociências assume assim um papel fundamental, e atrai a atenção de dezenas de milhares de investigadores por todo o mundo.

Dr. Tiago Fleming Outeiro,
Instituto de Medicina Molecular, Lisboa, Portugal
e Massachusetts General Hospital, Harvard Medical School, EUA

Saúde em Revista

admin: