Quando deve ser feita a primeira consulta ao ginecologista? Não existe uma norma absoluta sendo que o critério mais comum é o da necessidade ou da conveniência. Ou seja, hoje ou por problemas relacionados com o ciclo genital e o período menstrual ou para a recolha de orientação contraceptiva há uma decisão de recurso ao Médico, seja especialista, seja de Medicina Familiar.
Curiosamente algumas populações e etnias procuram apenas o Médico quando grávidas, por a considerarem situação particular de alto investimento. Ficam então por realizar muitas medidas preventivas…
Quais os métodos contraceptivos mais adequados às diferentes fases da vida de uma mulher?
O melhor método é aquele que mais se adequa às necessidades do casal. Não devem existir preconceitos, pois tudo vai depender da filosofia de vida das pessoas, das suas convicções e das condicionantes existentes.
Existem porém orientações consensualisadas e pressões de mercado e diferenças de acessibilidade que fazem prever o que mais será de esperar. Assim, por razões ligadas aos distúrbios menstruais e a necessidade de elevada eficácia são os contraceptivos hormonais os mais orientados para as jovens e mulheres sem filhos, os dispositivos intra-uterinos adequam-se melhor à mulher com descendência, a esterilização destina-se a quem tem “garantia” de uma reprodução concluída, enquanto que os métodos de longa duração (implante e dispositivo) são particularmente úteis para situações de gravidez de risco a curto/médio prazo.
As DST’s continuam a ser assunto tabu entre a população portuguesa?
Estou certo de não poder ser afirmativo. Julgo que o que sucede é que não sendo tabu é tema quase esquecido. A assimetria causada pela alta importância e relevância dada às infecções pelo HIV acabou por fazer esquecer as outras, mesmo as clássicas, à cerca das quais persistimos em nada querer saber e até mesmo ignorar. É uma pena…
O cancro do colo do útero é o 2º cancro mais frequente no sexo feminino. A que se deve esta grande incidência?
Os problemas prendem-se com dois níveis de actuação:
1- A prevenção primária, hoje possível em grande parte através dos programas de vacinação contra o HPV;
2- A detecção das alterações pré-malignas através dos programas de rastreio, que existe apenas organizado na região centro de Portugal e mesmo aí com algumas limitações.
A primeira apenas evidenciará os seus efeitos dentro de alguns anos, poder-se-á dizer que a alta incidência resulta da ineficácia da detecção das alterações que vão levar ao cancro e respectivo tratamento atempado.
Recentemente foram lançadas no mercado duas vacinas contra o HPV, mas ainda não totalmente comparticipadas…
Espera-se de facto a implementação da vacinação sistemática das jovens aos 13 anos (e durante alguns anos também aos 16 anos). Ficarão assim fora do plano muitas (as de idade superior a 16) que não vão poder beneficiar desta “oferta”. Entendem-se as razões desta orientação parcial pelas dificuldades financeiras que estariam associadas a uma maior cobertura e considero-a socialmente equilibrada. Aguardemos…
Quais os riscos de uma menopausa mal acompanhada?
Sendo a menopausa um fenómeno fisiológico não se lhe podem atribuir propriamente riscos. Porém, como tudo na vida cada passo dado tem as suas consequências. E são essas que importa considerar.
Em primeiro lugar dever-se-á salientar que existem aspectos positivos ligados à menopausa, os quais são valorizados em muitas culturas. Por exemplo, após estabelecida deixa de existir capacidade reprodutiva. E num contexto de evolução e de envelhecimento saudáveis isto é uma vantagem: é a idade de se sentir avó e não mãe.
Mas a verdade é que existem alterações de impacto negativo na saúde entendida como “bem-estar”. As mais conhecidas são os “afrontamentos” ou ondas de calor e de suores, fenómeno que evidencia a instabilidade da regulação vascular e térmica mas que é em si mesmo de pouco significado orgânico. São, todavia, altamente perturbadoras e significativas em meio social.
Outras perturbações como a percepção de irritabilidade e as interferências no sono e no repouso têm já repercussões relacionais. E também numa evolução em que a esperança de vida vai aumentando o atrasar de modificações do envelhecimento como a perda de massa óssea acabam por ser importantes seja em termos individuais seja populacionais.
Quando é que a mulher deve começar e por quanto tempo continuar o THS?
Existem várias modalidades de terapêutica hormonal no climatério e na prática o seu uso é corrente antes da menopausa para corrigir as alterações do ciclo menstrual. A substituição da função endócrina ovárica de forma mais intensa utiliza–se quando ela estiver estabelecida e desde que considerada necessária isto é quando justificada pela existência de sinto-mas ou pelo desejo de evitá-los.
A duração do tratamento é muito variável e tem decisão individualizada já que na verdade existem formas para emprego diria sequencial ou seja adaptáveis à finalidade e à idade. Para ser mais concreto: muitas das senhoras que mantêm uma actividade sexual moderada ou pouco frequente têm necessidade dum suporte ao tofismo vaginal.
Existem potenciais riscos e efeitos acessórios da sua utilização, ou pelo contrário, é uma terapêutica de 1ª linha na prevenção de certas doenças?
De facto, ambas as afirmações são verdadeiras. A terapêutica hormonal é sem sombra de dúvida a mais eficaz e mais adequada dos fenómenos vasomotores do climatério e da atrofia vaginal, tendo secundariamente benefícios cardiovasculares, neuropsíquicos e ósseos.
Naturalmente que existem casos em que não deverá ser prescrita e implica alguns riscos, em geral de pequena dimensão em termos individuais, mas com significado na população, como por exemplo em relação ao cancro da mama.
Como presidente da SPG como vê o apoio dado às cidadãs na IVG?
Em termos técnicos o sistema vigente, para o qual contribuiram e deram o aval múltiplas entidades científicas, está bem estruturado, adequadamente protocolado e funciona. A melhor evidência prática desta última afirmação é a falta de comentários públicos a seu respeito.
Qual o papel da SPG no apoio à mulher portuguesa?
A SPG orienta-se em primeira linha para a actualização científica e cultural de todos os interessados técnicos na Ginecologia, prioritariamente Médicos ligados à especialidade. Contudo, esteve e está aberta a todas as iniciativas que visem promover a qualidade de vida e a saúde reprodutiva das mulheres e dos casais.
Cada mulher portuguesa tem, em média, 1,3 bebés. Acha que a nossa descendência começa a estar seriamente ameaçada?
Este problema é muito interessante mas de abordagem muito complexa, por multifactorial e fundamentalmente social. Ela tem que ser encarada como resultante duma opção que o planeamento familiar contempla mas em relação à qual a ponderação política tem sido desequilibrada entre os incentivos (limitados e pouco interessantes) e as condições financeiras e profissionais das pessoas (cada vez mais carentes de tempo dedicado à família).
Em termos globais há ainda que considerar que numa determinada área geográfica, se desenvolvida e atractiva, a mobilidade individual permite a reposição/substituição populacional e que hoje a globalização é muito mais favorável ao conceito de nacionalidade por prática do que por nascimento. São disso exemplo os Estados Unidos da América e entre nós a atribuição da naturalidade independente do local do nascimento.
Assim, em Portugal o que haverá que definir é o que se quer dizer com o “nosso”.
Dr. José Martinez de Oliveira,
Presidente Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG)
Saúde em Revista