Dr. Luís Pisco começou por fazer o internato geral no hospital de Caldas da Rainha, onde ainda reside. Recentemente foi reeleito presidente da Associação de Médicos de Clínica Geral, bem como para director do Instituto da Qualidade em Saúde.
Interrompe estes cargos para coordenar a Unidade de Missão para os Cuidados de Saúde Primários. A primeira medida a tomar é alterar o sistema remuneratório dos profissionais de saúde.
Esperava ser escolhido para presidir a esta Unidade de Missão?
Estava um pouco fora dos meus horizontes. Mas compreendo a opção do Ministério, uma vez que estou ligado a um grupo técnico-científico que, ao longo dos anos, fez propostas concretas sobre a reforma dos cuidados de saúde primários.
Posso perceber a lógica, embora me seja difícil deixar duas instituições onde estive muito envolvido e com as quais me identifico muito. Mas há alturas na vida em que não podemos dizer: agora não me apetece ou não me dá jeito porque perturba a minha vida. Mas é, obviamente, um desafio que implica algum risco.
Vou continuar o meu trabalho, embora num contexto e com uma missão institucional diferente. Mas os princípios e valores que defendo são rigorosamente os mesmos.
Vai estar muita gente com os olhos naquilo que se vai fazer e que queremos ir monotorizando. Por isso espero ter um grupo de acompanhamento nesta reforma, nacional e internacional. A decisão será sempre nossa mas teremos grande preocupação em ouvir as diferentes organizações, de cidadãos e profissionais.
Está ligado a algum partido político?
Não sou filiado em nenhum partido nem nunca tive qualquer intervenção política, seja a nível local (não porque não tivesse sido convidado) ou nacional. Não é uma área que me atraia. Mas respeito muito essa opção difícil, porque alguém tem de o fazer.
Os médicos de família são pessoas bem inseridas na comunidade, respeitadas, que conhecem muita gente e é verdade que acabam por se envolver na solução dos problemas. Respeito isso mas toda a minha orientação foi para questões tecnico-científicas e para a área associativa.
Terá nas mãos a reforma estratégica dos cuidados primários. Por onde vai começar?
Bem, só no final deste mês surgirá a minha nomeação. Depois, a primeira coisa é constituir uma equipa de até 15 pessoas credíveis, que mereça a confiança das profissões envolvidas: médicos, enfermeiros, administrativos, psicólogos e outras que trabalham nos cuidados primários. Pessoas que levem esta missão muito a peito e a desempenhem de alma e coração.
Teremos de conseguir transmitir exactamente o que queremos e fazer propostas boas para se modificar comportamentos. Outras já têm um bom desempenho. Os profissionais são inteligentes e capazes de discernir se o que lhe estamos a pedir é ou não razoável. E os cidadãos a mesma coisa.
Há um guião mas haverá, com certeza, problemas concretos, para os quais só no dia a dia podermos encontrar solução. Temos identificado o que funciona bem e portanto há que generalizar esse funcionamento ao que está mal.
Esperamos ter a funcionar bem, até final do ano que vem, cerca de 200 unidades, que serão dez vezes mais que o número actual. Há extensões que, pelo seu tamanho poderão coincidir com uma unidade familiar. Outras, com apenas um ou dois médicos, terão de se associar.
A consulta ao domicílio é para voltar?
É uma questão de consciência cívica e de educação perceber-se a importância dessa resposta. Os idosos são uma população muito carenciada desses cuidados, embora seja o primeiro a reconhecer a importância dos hospitais e dos serviços de urgência.
Quando se tem um enfarte do miocárdio, uma trombose ou se parte uma perna, obviamente que qualquer um vai esperar que o INEM funcione extraordinariamente e que o hospital tenha capacidade de resposta e com urgências bem organizadas. Mas isso só acontecerá se fizerem aquilo para que estão direccionados.
A generalidade das pessoas, face a cada um deste casos, terá centenas de outras ocasiões em que as suas necessidades passam pelos cuidados primários. Os portugueses valorizam esse apoio, dado de forma contínua, sistemática e perto de si, em que o médico conhece a pessoa e pode responder por um conjunto de problemas médicos, sociais, psicológicos.
Qual é a meta, no tempo, deste projecto?
Os próximos dois anos. O segredo da reestruturação dos actuais centros de saúde passa por uma visão de qualidade e por conciliar os interesses de todas as partes em jogo. Esta reforma não vai ser contra ninguém. Pelo contrário, há grande preocupação em conciliar os diversos pontos de vista que não são contraditórios ou antagonistas.
O pior que pode acontecer é pensar-se que o que é bom para médicos e enfermeiros é mau para os doentes. Isso é absurdo. Vamos mudar porque há pessoas acomodadas, embora insatisfeitas.
É preciso mexer com comportamentos e estruturas e resolver problemas técnicos. Mas é claro que os profissionais de saúde têm de estar motivados para desempenharem uma tarefa que todos percebem ser exigente. Passar os dias, durante anos seguidos, a cuidar de doentes em sofrimento é desgastante.
Essa motivação passa pela exclusividade?
Não. A questão da exclusividade é um factor perturbador, porque encontramos pessoas dedicadas e a trabalharem bem, quer num quer noutro regime.
Tem é de haver um compromisso muito claro que os resultados que querem obter serão recompensados. Quem trabalha mais e melhor tem de ser reconhecido. E não interessa fazer mais consultas ou pensos porque a quantidade é importante mas com qualidade. Aos que não querem colaborar nem fazer, temos de os fazer sentir mal. Temos de ser muito claros.
Como o tempo escasseia, o sistema remuneratório será provavelmente o primeiro a mudar. Não quer dizer que se vá mexer já em todos os centros de saúde.
Existem actualmente mais de 360 e quase duas mil extensões, o que é uma malha finíssima e onde o desempenho é muito diferente. Encontramos sítios onde tudo funciona extraordinariamente bem. E isto nunca é notícia.
Jornal de Leiria
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