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Dr. Lucindo Ormonde » O medo das anestesias

Os doentes que terão de ser submetidos a intervenções cirúrgicas continuam a exprimir receios em relação à anestesia que precede a cirurgia propriamente dita.

É necessário, portanto, descrever o que é a anestesia, qual o papel do anestesista nas suas diversas áreas de intervenção e aconselhar o utente para que, quando confrontado com necessidade de ser anestesiado, esteja minimamente informado.

O Dr. Lucindo Ormonde, presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia (SPA) responde a algumas questões para desmistificar as preocupações que envolvem este tema.

O que é uma anestesia e em que consiste?

Uma anestesia consiste na insensibilização de uma determinada parte do corpo ou do corpo em geral para que se possa proceder a uma intervenção cirúrgica ou outro tipo de intervenção que necessite que o doente esteja inconsciente, insensível ou imóvel.

Há várias formas e técnicas de anestesia, todas elas são válidas e têm a sua indicação e quando são utilizadas, os fármacos e os instrumentos indicados, têm regras a seguir. Se as regras forem cumpridas, a anestesia é bem efectuada, caso contrário, independentemente de serem usadas as mesmas técnicas ou os mesmos instrumentos, a anestesia pode ter resultados danosos.

Quando se deve administrar uma anestesia geral e uma loco-regional? Quais são as indicações?

Uma anestesia geral pode ser usada para quase todos os procedimentos. No entanto, esta tem determinados efeitos secundários e, por isso, é indicado efectuar-se uma anestesia, à qual se dá o nome de loco-regional.

Esta consiste na injecção de determinados fármacos num local específico, deixando o indivíduo sem sensibilidade nessa zona. Exemplo deste tipo de anestesia é a epidural ou a anestesia do braço ou até na perna, entre outros.

As indicações e as consignações são muitas e são tema de discussão entre os anestesistas, mas existe uma ideia à volta das anestesias de que, comparando uma com a outra, a anestesia loco-regional tem vantagens sobre a anestesia geral por ser, primeiro que tudo, mais segura e mais barata.

Mais segura porque, e temos um exemplo que é paradigmático que é o das cesarianas, em que nós sabemos a grande causa de morte da mãe cesariada era a difícil entoação, e com a introdução das anestesias loco-regionais a mortalidade desceu drasticamente.

Não se quer com isto dizer que esta situação não aconteça, mas com a utilização desta anestesia surgiu outro tipo de problemas que, comparativamente com a morte, são muito menores.

Há efeitos secundários aquando a administração de anestesias? Quais são?

Os efeitos secundários das anestesias dependem das próprias anestesias e da condição dos doentes (idades, condição física, entre outros factores).

Aquilo que são, geralmente, os efeitos secundários de que as pessoas têm medo são, na anestesia geral o perderem a, vulgarmente impopular, perda da memória, embora na maior parte das vezes não seja isso que possa acontecer.

Este efeito pode ser associado aos métodos e técnicas usadas há 50 anos atrás, devido aos fármacos utilizados na altura, mas a verdade é que não houve estudos que pudessem evidenciar que este facto seria verdade ou não.

Hoje em dia, existem bastantes estudos à volta das alterações de comportamento dos doentes que foram submetidos à anestesia geral e que são hoje uma das linhas de investigação na área da anestesia.

Outro efeito secundário, que normalmente as pessoas associam, é a perda de visão. Qualquer um destes efeitos pode perfeitamente acontecer mas não são muito frequentes.

Existe ainda outro mito, que não da anestesia geral mas sim da loco-regional, que é o de ficar paraplégico. Não é que não possa acontecer mas a possibilidade é muito ínfima.

Quais os cuidados que o anestesiado deve ter? Qual a importância da consulta de anestesia?

Há vários cuidados e precauções que uma pessoa que vai ser anestesiada deve ter. Para tal, é necessário convenientemente falar com o anestesista que a vai anestesiar. Esta é uma situação que em Portugal muitas vezes não acontece.

A consulta de anestesia prévia, sobretudo quando se trata de determinados meios hospitalares, é esquecida, tanto os pacientes como os próprios anestesistas passam por cima dessa consulta.

A anestesia não está só na cirurgia, dirige-se também para os exames complementares de diagnóstico ou quando se faz uma ressonância magnética, ou até para quando crianças ou adultos precisem de estar sedados.

Em situações que podem comprometer nas funções vitais do indivíduo é necessário que este esteja imóvel, sedado ou anestesiado para que a intervenção corra de forma positiva.

A injecção da anestesia pode conduzir à depressão respiratória e, por tanto, tem de estar um anestesista por perto para poder evitar que aconteça algo de negativo à pessoa que está a ser sujeita a esse exame, que pode ser muito simples mas que tem a necessidade de estar imóvel.

Embora as pessoas tenham a imagem do anestesista ligada ao cirurgião, este já não se encontra só no bloco operatório, está muito para além das cirurgias.

Há portanto a necessidade das pessoas estarem informadas, porque muitos desses mitos estão relacionados com essa falta de informação que as pessoas têm e sobretudo também com a falta de confiança com que partem para a anestesia.

As pessoas quando são intervencionadas vão ser devassadas no seu corpo para se poder, de certa forma, proceder a reparação ou alivio da sua doença, e por isso é necessário que esteja sempre um anestesista por perto que proporcione ao cirurgião condições favoráveis para poder actuar e que ao mesmo tempo defenda o doente dessa devassa física a que a pessoa vai ser sujeita.

Normalmente têm-se mais medo da anestesia do que propriamente de quem a vai devassar. Mas esta mentalidade deve-se precisamente a esses mitos.

Não chega só haver textos que expliquem o que é a anestesia, é preciso falar com o anestesista para se ter confiança no processo, se bem que hoje em dia já há muitos hospitais que estão organizados nesse sentido, mas também há outros que ainda sentem a falta da chamada consulta de anestesia.

Primeiro por culpa da própria organização do órgão de anestesistas porque se encontram em pequeno número para tantas chamadas que acabam por passar por cima dessa situação e entregar ao cirurgião essa informação e, por outro lado, por culpa dos utentes que não procuram informarem-se junto dos anestesistas.

Quais os cuidados do anestesista para com a administração da anestesia num paciente?

São muitos os cuidados que o anestesista deve ter quando administra uma anestesia num paciente. Em primeiro lugar, o anestesista tem de estar a par da condição física do doente. Quanto mais doenças houver associadas ao doente, maiores serão os problemas que o anestesista encontrará durante a operação.

Há aquela gíria popular de que “o coração não aguentou” e esta traduz alguma verdade, embora não tanto quanto se pretende, porque sem dúvida que quando o individuo tem um coração insuficiente toda a evasão cirúrgica e a perda de sangue que pode originar, toda a agressividade a que o doente vai ser sujeito, vai suscitar por parte do coração um maior trabalho.

Logicamente que, necessitando desse trabalho, vai esforçar o coração e provocar uma possível falência cardíaca do individuo, e é trabalho do anestesista evitar que isso aconteça.

Desde sempre que o anestesista é aquele que inicia e termina uma intervenção cirúrgica. O anestesista só abandona o doente depois da cirurgia acabada e depois de deixar o doente na unidade de pós anestésicos ou de recuperação.

Os medos e os mitos têm vindo a diminuir com os anos, tal como os riscos na administração da anestesia. Para diminuir os receios relativamente a este tema bastará, portanto, consultar o anestesista que irá intervir, tanto na cirurgia, como em qualquer outro tipo de circunstâncias, como por exemplo os exames que exijam que a pessoa esteja imóvel ou insensível.

Uma simples conversa com o seu anestesista quebrará com qualquer complexo que tenha em relação às anestesias e ficará, assim, elucidado a este respeito.

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