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Doença de Hansen: Ignorância a quanto obrigas…

Os doentes que sofrem de lepra continuam prisioneiros de um estigma. Isolados de uma sociedade que, por ignorância, teme o contágio. O último domingo de Janeiro é Dia Mundial dos Leprosos. Para nos dizer que, quando tratada, a doença não contagia. Nos últimos vinte anos, em Portugal a lepra estabilizou. Anualmente, o registo de novos casos não supera sequer a dezena…

Estima-se que em Portugal o número de casos da doença de Hansen (nome do médico que identificou a lepra) se mantém estável nas últimas duas décadas, rondando o milhar e envolvendo não mais de uma dezena de novos casos registados a cada ano. Mas, em pleno século XXI, os doentes que sofrem de lepra continuam prisioneiros de um estigma, isolados de uma sociedade que, por ignorância, teme o contágio.

Têm mais de três mil anos as referências mais antigas a esta doença que, ao longo dos tempos, tem sido sinónimo de segregação. Dela começaram por falar os hieróglifos do Antigo Egipto, mas foi na Idade Média que tomou mais visibilidade, com os doentes a serem obrigados a usar um sino para anunciar a sua presença. Uma presença de que todos se afastavam, fomentando a descriminação e o isolamento.

Foi também nessa altura que surgiram as leprosarias, unidades a que eram confinados e que ainda subsistem em muitos países.

Na origem de tamanha segregação estava, decerto, a desfiguração dos doentes. Porque as manifestações mais visíveis da lepra são a nível cutâneo, com zonas descoloradas, erupções e lesões.

Causada por uma bactéria, a lepra é uma doença infecciosa que afecta sobretudo os nervos periféricos, ou seja, os nervos que estão localizados fora do cérebro e da espinal medula. São aqueles que conduzem os impulsos nervosos aos músculos e que são responsáveis pela sensibilidade, nomeadamente o tacto. Além dos nervos e da pele, também a membrana mucosa do nariz, os olhos e os testículos sofrem a acção desta bactéria de acção lenta.

As lesões cutâneas típicas da lepra podem espalhar-se por todo o corpo, mas tornam-se muito evidentes no rosto.

É através do contacto directo entre uma pessoa infectada e outra saudável que se dá a transmissão da bactéria, ainda que a esmagadora maioria das pessoas expostas não venham a contrair a doença, pois o seu sistema imunitário intervém a tempo e com eficácia. Nas restantes, a lepra pode assumir duas formas – uma mais ligeira, designada por lepra tuberculóide, e outra mais grave, a lepra lepromatosa, sendo que a primeira não é contagiosa.

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Entre o contacto com o agente infeccioso e o aparecimento dos sintomas podem passar-se anos, pois esta bactéria multiplica-se muito lentamente. Na lepra tuberculóide, surge uma erupção cutânea formada por zonas esbranquiçadas e achatadas, insensíveis ao tacto na medida em que os nervos foram lesionados. Já na forma lepromatosa, a pele fica pontuada por pequenos nódulos, sobretudo no rosto, ao mesmo tempo que os pêlos do corpo, incluindo sobrancelhas e pestanas, desaparecem.

Devido à acção da bactéria sobre os nervos periféricos, estes doentes perdem a capacidade de sentir o tacto, a dor, o frio e o calor, o que os deixa em risco de se queimarem, cortarem ou ferirem sem se aperceberem.

Outra das consequências é a debilidade muscular, patente na forma que os dedos assumem – a de garra – e no chamado pé pendente (dificuldade em levantar a parte anterior do pé).

As lesões cutâneas típicas da lepra podem espalhar-se por todo o corpo, mas tornam-se muito evidentes no rosto, nomeadamente com a formação de nódulos que deformam o nariz. As lesões nos canais nasais fazem com que o nariz esteja constantemente congestionado. Nalguns casos, as lesões oculares podem conduzir à cegueira.

Os homens são afectados especificamente a nível da fertilidade, uma vez que a infecção reduz a quantidade de testosterona e de esperma produzido pelos testículos. Aliás, a lepra lepromatosa é mais frequente no sexo masculino: dois em cada três doentes são homens. Já a outra forma da doença incide igualmente sobre ambos os sexos.

É à base de antibióticos que se processa o tratamento da lepra. O isolamento é desnecessário, dado que o contágio só existe quando não há tratamento, além de que, mesmo assim, não ocorre facilmente.

Daí que o direito ao tratamento e à integração social sejam o mote de cada Dia Mundial dos Leprosos.

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

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