Os meios de comunicação alertam e retratam regularmente o actual aumento de peso descontrolado das crianças portuguesas, um grave problema de Saúde Pública. Estamos a caminhar a passos largos para uma população portuguesa maioritariamente obesa e com reduzida esperança de vida.
Por vezes não nos damos conta de um outro problema de maior gravidade que aparece intimamente ligado a uma obesidade infantil, a diabetes. Por norma podemos distinguir as doenças que se diagnosticam e são devidamente tratadas e eliminadas (uma delas é a obesidade), e as doenças que após diagnóstico somos informados que teremos de viver com elas sob controlo médico para o resto da nossa vida; a diabetes é uma delas.
Estatísticas
A nova epidemia europeia, como muitos já a retratam, apanhou de surpresa a maioria dos profissionais de saúde e tem íntima relação com a obesidade. Segundo dados estatísticos existem aproximadamente 48 milhões de diabéticos na Europa. Em Portugal a diabetes foi uma das causas de morte que mais rapidamente aumentou nos últimos 20 anos.
A probabilidade de um bebé, filho de pai ou mãe diabética, vir a ser também diabético é de 1 para 100; se os dois progenitores forem diabéticos, a probabilidade aumenta, é de 1 para 20.
Calcula-se que perto de 6% da população portuguesa sofre de diabetes e que esse número ultrapassará os 10% em 2025.
Cerca de 14 milhões de crianças europeias apresentam excesso de peso, sendo que os níveis de obesidade em crianças entre os 11 e os 15 anos aumentaram 75% na última década.
Devido a estes números o termo recente diabesidade (epidemia dupla derivada da combinação da diabetes tipo II e obesidade) tem feito cada vez mais sentido.
Conceito
A diabetes pode ser definida como uma doença endócrina na qual existe uma produção insuficiente ou nula de uma hormona, a insulina, por parte do pâncreas. A insulina é responsável no nosso organismo pela utilização da glucose, um açúcar sintetizado através da nossa alimentação, pelas células que transformam este açúcar em energia.
Quando a produção de insulina é deficiente o nível de glucose no sangue aumenta acima dos limites normais, provocando dois sintomas típicos da diabetes: poliúria (aumento da quantidade de urina) e polidipsía (aumento da sede). Outros sintomas passíveis de ocorrer numa diabetes não diagnosticada incluem visão enevoada, tonturas, suores, fraqueza muscular, aumento do apetite, formigueiro e perda temporária de sensibilidade nas mãos e pés.
Um dos principais problemas que levam a criança diabética a ser seguida criteriosamente é a maior probabilidade desta vir a sofrer de tensão arterial elevada, cataratas, excesso de peso e outros problemas cardiovasculares. Isto porque a diabetes causa uma desregulação no metabolismo das gorduras e degenerescência acelerada dos pequenos vasos sanguíneos.
Existem dois tipos de diabetes:
A forma mais grave da doença, a Diabetes mellitus tipo I (Insulino-dependente) é a que atinge com maior frequência as crianças e adolescentes de idade compreendida entre os 10 – 20 anos, com evolução rápida. O diabético tipo I é obrigado a injecções regulares de insulina, para não entrar em coma. A sua alimentação sofre um controlo muito rigoroso. A Diabetes mellitus tipo II (não Insulino-dependente) é de evolução lenta e ocorria, até há uns anos atrás, normalmente em pessoas com mais de 35 anos de idade, sendo diagnosticada muitas vezes a partir de uma simples análise médica de rotina. Neste momento, também afecta crianças e adolescentes e é neste ponto que recai a preocupação da comunidade científica actual.
Como aparece esta diabetes tão cedo?
As explicações para este facto são claras: Obesidade ou Pré-Obesidade derivada de uma dieta alimentar desequilibrada, consumismo compulsivo de produtos açucarados, sedentarismo instalado e falta de uma educação para a alimentação em meio familiar e escolar.
Neste tipo de diabetes é produzida insulina mas não a suficiente, especialmente se o doente tiver excesso de peso. Neste doente não há necessidade de injecções de insulina de compensação pois consegue, a partir de uma dieta adequada, manter a doença sob controlo.
Factores De Risco
Para prevenir o início e evolução de possíveis complicações a actuação através de um correcto diagnóstico precoce, uma vigilância periódica e uma boa compensação metabólica são essenciais.
Alguns dos factores de risco associados mais comuns são:
. Obesidade;
. Má circulação (risco de amputação);
. Retinopatia (leva a possível cegueira);
. Nefropatia (casos de hemodiálise ou transplante renal);
. Doença coronária;
. Hipertensão arterial;
. Pé diabético;
. Infecções;
. Disfunção sexual.
Tratamento
O tratamento para controlo da diabetes apenas é bem sucedido quando existe uma educação da criança e dos pais, para isso a ligação com o médico assistente ou nutricionista clínico e a adopção de um método pró-activo são a chave para o controlo e redução dos factores de risco.
Responsabilidade médica e nutricional
. Manutenção da tensão arterial em níveis baixo, não deixando ultrapassar valores limite de 125/ 80;
. Revisão da dosagem de insulina, nos casos de diabetes tipo I;
. Inclusão de um protector renal, quando necessário e sob prescrição do medico assistente;
. Educação podológica para evitar risco de lesões nos pés;
. Alimentação controlada.
Responsabilidade do doente diabético
. Colaborar na auto-vigilância da diabetes através de testes ao sangue e em certos casos de urina de forma diária para permitir o ajuste da dose de insulina e da alimentação;
. Realizar uma alimentação saudável;
. Praticar exercício físico;
. Ter conhecimentos gerais sobre a doença e sua terapêutica.
Tratamento Nutricional
O tratamento visa o prolongamento da vida, o alívio dos sintomas e prevenção de futuras complicações. O seu êxito depende da manutenção dos níveis de glucose no sangue tão próximo do normal quanto possível, principalmente através do controlo de peso e gestão cuidadosa da dieta alimentar. O doente terá que abdicar de alguns alimentos ricos em hidratos de carbono simples e evitar horas a fio sem comer, provocando desta forma indesejadas hipoglicemias, que irão resultar em tonturas, fraqueza muscular, etc.
São exemplo de alimentos a evitar os que apresentam um elevado teor de açúcares simples ou Índice Glicémico alto: bebidas refrigerantes com ou sem gás, bebidas destinadas aos desportistas, pão branco, cereais açucarados, bolos secos ou com creme, mel, chocolate, marmelada; todos representam perigos reais de habituação.
A comida para bebé é também uma preocupação. As farinhas contêm uma quantidade apreciável de açúcar adicionado. A situação é tão mais alarmante porque as crianças estão a formar o paladar, se forem habituadas desde cedo ao sabor doce, dificilmente conseguirão adaptar-se a uma dieta alimentar saudável, com menos açúcares. É fundamental que os fabricantes comecem a prestar mais atenção a este aspecto.
Também alertar sobre a publicidade aos produtos alimentares na programação dirigida às crianças, que utiliza estratégias eficazes na sua promoção (aparece associada à oferta de brindes), que na maioria são doces, logo só por essa razão, apetecíveis para o consumo. Nas mensagens enganosas veiculam que os alimentos são enriquecidos e frequentemente utilizam a palavra leite (mesmo que a quantidade de cálcio que forneçam seja reduzida) ou utilizam a imagem da mãe ou professora para aprovar o consumo do alimento.
Esta realidade é comum a todos os países da Europa e alguns já avançaram para a proibição (Suécia e Noruega) ou para restrições (Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Espanha) na publicidade dirigida a crianças.
Em resumo, quase todos nós ingerimos açúcares em excesso, muitas vezes, sem darmos por isso. Se efectuarmos ligeiras alterações na dieta alimentar diária, conseguimos reduzir estes açúcares para mais de metade. Com a medicina actual, um controlo alimentar e uma auto-vigilância possibilitam que a criança diabética possa levar uma vida normal.
A criança diabética deve verificar regularmente os níveis de glucose no sangue e na urina por meio de testes simples e rápidos que o próprio pode realizar na farmácia, evitando assim os já mencionados sintomas indesejáveis. Voltamos a realçar que os pais têm um papel preponderante no aspecto educativo e de saúde. Hábitos saudáveis de beber leite sem açúcar, comer fruta fresca em vez de sobremesas com fruta ou fazer da água a bebida de eleição são medidas simples de implementar.
Dr. João Sampaio,
Nutricionista no Hospital de Saint Louis, Bairro Alto
Por vezes não nos damos conta de um outro problema de maior gravidade que aparece intimamente ligado a uma obesidade infantil, a diabetes. Por norma podemos distinguir as doenças que se diagnosticam e são devidamente tratadas e eliminadas (uma delas é a obesidade), e as doenças que após diagnóstico somos informados que teremos de viver com elas sob controlo médico para o resto da nossa vida; a diabetes é uma delas.
Estatísticas
A nova epidemia europeia, como muitos já a retratam, apanhou de surpresa a maioria dos profissionais de saúde e tem íntima relação com a obesidade. Segundo dados estatísticos existem aproximadamente 48 milhões de diabéticos na Europa. Em Portugal a diabetes foi uma das causas de morte que mais rapidamente aumentou nos últimos 20 anos.
A probabilidade de um bebé, filho de pai ou mãe diabética, vir a ser também diabético é de 1 para 100; se os dois progenitores forem diabéticos, a probabilidade aumenta, é de 1 para 20.
Calcula-se que perto de 6% da população portuguesa sofre de diabetes e que esse número ultrapassará os 10% em 2025.
Cerca de 14 milhões de crianças europeias apresentam excesso de peso, sendo que os níveis de obesidade em crianças entre os 11 e os 15 anos aumentaram 75% na última década.
Devido a estes números o termo recente diabesidade (epidemia dupla derivada da combinação da diabetes tipo II e obesidade) tem feito cada vez mais sentido.
Conceito
A diabetes pode ser definida como uma doença endócrina na qual existe uma produção insuficiente ou nula de uma hormona, a insulina, por parte do pâncreas. A insulina é responsável no nosso organismo pela utilização da glucose, um açúcar sintetizado através da nossa alimentação, pelas células que transformam este açúcar em energia.
Quando a produção de insulina é deficiente o nível de glucose no sangue aumenta acima dos limites normais, provocando dois sintomas típicos da diabetes: poliúria (aumento da quantidade de urina) e polidipsía (aumento da sede). Outros sintomas passíveis de ocorrer numa diabetes não diagnosticada incluem visão enevoada, tonturas, suores, fraqueza muscular, aumento do apetite, formigueiro e perda temporária de sensibilidade nas mãos e pés.
Um dos principais problemas que levam a criança diabética a ser seguida criteriosamente é a maior probabilidade desta vir a sofrer de tensão arterial elevada, cataratas, excesso de peso e outros problemas cardiovasculares. Isto porque a diabetes causa uma desregulação no metabolismo das gorduras e degenerescência acelerada dos pequenos vasos sanguíneos.
Existem dois tipos de diabetes:
A forma mais grave da doença, a Diabetes mellitus tipo I (Insulino-dependente) é a que atinge com maior frequência as crianças e adolescentes de idade compreendida entre os 10 – 20 anos, com evolução rápida. O diabético tipo I é obrigado a injecções regulares de insulina, para não entrar em coma. A sua alimentação sofre um controlo muito rigoroso. A Diabetes mellitus tipo II (não Insulino-dependente) é de evolução lenta e ocorria, até há uns anos atrás, normalmente em pessoas com mais de 35 anos de idade, sendo diagnosticada muitas vezes a partir de uma simples análise médica de rotina. Neste momento, também afecta crianças e adolescentes e é neste ponto que recai a preocupação da comunidade científica actual.
Como aparece esta diabetes tão cedo?
As explicações para este facto são claras: Obesidade ou Pré-Obesidade derivada de uma dieta alimentar desequilibrada, consumismo compulsivo de produtos açucarados, sedentarismo instalado e falta de uma educação para a alimentação em meio familiar e escolar.
Neste tipo de diabetes é produzida insulina mas não a suficiente, especialmente se o doente tiver excesso de peso. Neste doente não há necessidade de injecções de insulina de compensação pois consegue, a partir de uma dieta adequada, manter a doença sob controlo.
Factores De Risco
Para prevenir o início e evolução de possíveis complicações a actuação através de um correcto diagnóstico precoce, uma vigilância periódica e uma boa compensação metabólica são essenciais.
Alguns dos factores de risco associados mais comuns são:
. Obesidade;
. Má circulação (risco de amputação);
. Retinopatia (leva a possível cegueira);
. Nefropatia (casos de hemodiálise ou transplante renal);
. Doença coronária;
. Hipertensão arterial;
. Pé diabético;
. Infecções;
. Disfunção sexual.
Tratamento
O tratamento para controlo da diabetes apenas é bem sucedido quando existe uma educação da criança e dos pais, para isso a ligação com o médico assistente ou nutricionista clínico e a adopção de um método pró-activo são a chave para o controlo e redução dos factores de risco.
Responsabilidade médica e nutricional
. Manutenção da tensão arterial em níveis baixo, não deixando ultrapassar valores limite de 125/ 80;
. Revisão da dosagem de insulina, nos casos de diabetes tipo I;
. Inclusão de um protector renal, quando necessário e sob prescrição do medico assistente;
. Educação podológica para evitar risco de lesões nos pés;
. Alimentação controlada.
Responsabilidade do doente diabético
. Colaborar na auto-vigilância da diabetes através de testes ao sangue e em certos casos de urina de forma diária para permitir o ajuste da dose de insulina e da alimentação;
. Realizar uma alimentação saudável;
. Praticar exercício físico;
. Ter conhecimentos gerais sobre a doença e sua terapêutica.
Tratamento Nutricional
O tratamento visa o prolongamento da vida, o alívio dos sintomas e prevenção de futuras complicações. O seu êxito depende da manutenção dos níveis de glucose no sangue tão próximo do normal quanto possível, principalmente através do controlo de peso e gestão cuidadosa da dieta alimentar. O doente terá que abdicar de alguns alimentos ricos em hidratos de carbono simples e evitar horas a fio sem comer, provocando desta forma indesejadas hipoglicemias, que irão resultar em tonturas, fraqueza muscular, etc.
São exemplo de alimentos a evitar os que apresentam um elevado teor de açúcares simples ou Índice Glicémico alto: bebidas refrigerantes com ou sem gás, bebidas destinadas aos desportistas, pão branco, cereais açucarados, bolos secos ou com creme, mel, chocolate, marmelada; todos representam perigos reais de habituação.
A comida para bebé é também uma preocupação. As farinhas contêm uma quantidade apreciável de açúcar adicionado. A situação é tão mais alarmante porque as crianças estão a formar o paladar, se forem habituadas desde cedo ao sabor doce, dificilmente conseguirão adaptar-se a uma dieta alimentar saudável, com menos açúcares. É fundamental que os fabricantes comecem a prestar mais atenção a este aspecto.
Também alertar sobre a publicidade aos produtos alimentares na programação dirigida às crianças, que utiliza estratégias eficazes na sua promoção (aparece associada à oferta de brindes), que na maioria são doces, logo só por essa razão, apetecíveis para o consumo. Nas mensagens enganosas veiculam que os alimentos são enriquecidos e frequentemente utilizam a palavra leite (mesmo que a quantidade de cálcio que forneçam seja reduzida) ou utilizam a imagem da mãe ou professora para aprovar o consumo do alimento.
Esta realidade é comum a todos os países da Europa e alguns já avançaram para a proibição (Suécia e Noruega) ou para restrições (Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Espanha) na publicidade dirigida a crianças.
Em resumo, quase todos nós ingerimos açúcares em excesso, muitas vezes, sem darmos por isso. Se efectuarmos ligeiras alterações na dieta alimentar diária, conseguimos reduzir estes açúcares para mais de metade. Com a medicina actual, um controlo alimentar e uma auto-vigilância possibilitam que a criança diabética possa levar uma vida normal.
A criança diabética deve verificar regularmente os níveis de glucose no sangue e na urina por meio de testes simples e rápidos que o próprio pode realizar na farmácia, evitando assim os já mencionados sintomas indesejáveis. Voltamos a realçar que os pais têm um papel preponderante no aspecto educativo e de saúde. Hábitos saudáveis de beber leite sem açúcar, comer fruta fresca em vez de sobremesas com fruta ou fazer da água a bebida de eleição são medidas simples de implementar.
Dr. João Sampaio,
Nutricionista no Hospital de Saint Louis, Bairro Alto