Quando a quantidade de fluidos ingeridos é menor do que a de fluidos eliminados pelo organismo, está aberta a porta à desidratação. Há um défice de água que, em última instância, pode ser fatal. Porque o risco aumenta com o calor, este Verão não se esqueça: beba água em abundância mesmo que não sinta sede.
Todos os seres humanos necessitam de água. Desde logo porque ela constitui dois terços do nosso peso, distribuindo-se entre o interior das células, o espaço que as rodeia e o sangue numa relação essencial para a vida.
A menor quantidade de água está no sangue (cerca de oito por cento do total), mas este é um volume que se deve manter constante para que o corpo funcione adequadamente. A restante água funciona como um reservatório, com uma dupla função: a de absorver a água em excesso no sangue ou a de lhe fornecer água se estiver em falta.
É pelo sistema digestivo que a água entra no organismo, dele saindo através do sistema excretor, sob a forma de urina, mas também pela pele e pelos pulmões, como resultado da transpiração e da respiração. Num dia, perdemse vários litros de água, sendo que a sudação intensa (em consequência do calor ou de um esforço mais intenso) ou perturbações digestivas como a diarreia e os vómitos persistentes podem aumentar este volume.
O importante é que haja equilíbrio. Uma pessoa saudável, em que os rins funcionem normalmente e que não transpire demasiado, pode necessitar apenas de um litro de água diário para compensar as perdas.
Mas o mais adequado é que beba entre litro e meio a dois litros, para assegurar que não há qualquer défice. Intimamente ligados à água estão os sais minerais. Quando se bebe o suficiente, está-se a contribuir para manter o volume sanguíneo e a concentração de sais minerais (quando dissolvidos no sangue são designados electrólitos).
O organismo funciona de modo a estabilizar o volume de água total, incluindo os sais (sobretudo o sódio). Se houver uma subida destes níveis, os rins retêm água de modo a diluir o sódio e o resultado é uma menor produção de urina e a sede. Pelo contrário, se os níveis descerem, os rins libertam mais água para restaurar o equilíbrio.
Equilíbrio ameaçado
É este equilíbrio que é ameaçado na desidratação: a eliminação de água pelo organismo é maior do que a quantidade ingerida, com esta deficiência a provocar um aumento da concentração de sódio no sangue.
Quando isso acontece, o cérebro recebe os primeiros sinais e os centros da sede dão “ordem” para que se bebam líquidos, naturalmente com o objectivo de repor a água perdida. Se o consumo não for suficiente, a desidratação agrava-se: produz-se menos urina e transpira-se menos, assistindo-se a um movimento da água desde o depósito entre as células até ao sangue.
É uma forma natural de compensação, mas insuficiente se não houver aumento do fornecimento de líquidos. Os tecidos começam então a secar, as células encolhem e deixam de funcionar correctamente, sendo as cerebrais as mais vulneráveis à desidratação.
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Digamos que o corpo vai secando, o que explica os principais sintomas da desidratação: boca seca, diminuição da quantidade de urina expelida, menor produção de lágrimas, dores de cabeça, tonturas, fraqueza muscular, cansaço e, naturalmente, sede.
Quando a desidratação é grave estes sintomas acentuamse e outros surgem: a sede torna-se intensa, a boca e as mucosas ficam extremamente secas, a urina é escassa e escura, o suor quase inexistente, a pele parece enrugada e perde elasticidade, os olhos ficam encovados, nas crianças as fontanelas afundam-se, a pressão arterial baixa, os batimentos cardíacos aceleram-se, há febre, a irritabilidade instala-se e, nos casos mais sérios, ocorrem delírios e perda de consciência.
Embora a sede esteja presente, a desidratação pode acontecer sem que haja a sensação de que o organismo necessita de água. Até porque há pessoas que raramente sentem sede. O melhor barómetro é a urina – a quantidade e a cor. Pouca urina é um sinal de alarme, o mesmo acontecendo se apresentar uma tonalidade amarelo-escuro ou acastanhada.
Em matéria de hidratação, quanto mais clara a urina melhor.
Causas há muitas
São muitos os factores que podem contribuir para desequilibrar a relação entre a água e os electrólitos, abrindo caminho à desidratação. A ausência de sede é um deles, fazendo muitas pessoas esquecerem-se de que devem beber água regularmente. Também acontece não se beber o suficiente porque não se tem tempo.
Ou porque não se tem acesso a água potável em abundância. É, aliás, o que acontece quando se viaja para os chamados destinos tropicais: são, normalmente, países onde o saneamento básico é deficiente, pelo que é recomendado não beber água corrente, mas apenas fervida ou engarrafada.
São também países onde a temperatura e a humidade são elevadas, contribuindo para aumentar a necessidade de líquidos ora estes factores podem conjugar-se para aumentar a vulnerabilidade do organismo.
Tanto o calor como a humidade fazem transpirar mais. O mesmo acontece com a prática de exercício físico. Em todas estas circunstâncias se perde um grande volume de água, pelo que é fundamental reforçar a quantidade que se bebe.
A febre tem o mesmo efeito, sobretudo quando associada a diarreia e vómitos prolongados. Além de água, há uma perda excessiva de electrólitos, o que põe em causa o funcionamento dos órgãos.
Todas as pessoas podem sofrer de desidratação, mas há corpos mais vulneráveis: são os das crianças e dos idosos, bem como os de quem sofre de doenças crónicas. Nos mais pequenos, a desidratação é, com frequência, causada pela diarreia, um problema comum na infância.
Quanto aos idosos, as alterações fisiológicas decorrentes da idade fazem com que sintam menos sede, com que tenham menos capacidade para reter a água e que respondam com mais dificuldade às mudanças de temperatura.
Além disso, as alterações hormonais próprias da menopausa, o uso de determinados medicamentos e doenças crónicas como a diabetes (se não controlada ou não tratada) também contribuem para o desequilíbrio da água. Outras patologias com a mesma consequência são as renais, a fibrose quística e o alcoolismo.
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Líquidos precisam-se
Sendo mais vulneráveis, as crianças e os idosos requerem cuidados reforçados se apresentarem sinais de desidratação. Não basta aumentar a ingestão de água, sobretudo se houver sintomas como diarreia persistente, vómitos prolongados, irritabilidade ou desorientação, sonolência ou letargia. Este é um quadro que implica o recurso a um serviço de saúde.
Se a desidratação for ligeira pode ser suficiente beber mais água: a reposição dos fluidos perdidos é, aliás, a primeira abordagem terapêutica, ainda que as medidas concretas dependam da idade, da causa e da gravidade da desidratação.
Mas, porque é necessário repor também os sais minerais, pode ser aconselhada a toma de uma solução oral de rehidratação, particularmente adequada se houver diarreia, vómitos ou febre. São soluções que contêm água e sais nas proporções correctas, além de glucose ou outro hidrato de carbono cuja função é facilitar a absorção intestinal.
Tendo em conta o risco acrescido nos destinos turísticos menos desenvolvidos, estas soluções devem fazer parte da farmácia de férias. As situações mais graves requerem outra abordagem, que pode passar pela administração intravenosa de fluidos: desta forma o organismo recebe os nutrientes essenciais mais rapidamente, o que é fundamental para lidar com um problema que pode ameaçar a própria vida.
É que, na verdade, existe este risco. Edema (inchaço) cerebral, convulsões, choque, falência renal, coma e morte são consequências possíveis da desidratação severa. Este é um extremo raro, que se pode prevenir adoptando comportamentos saudáveis que permitam manter o equilíbrio da água no organismo.
São comportamentos como ingerir líquidos em abundância (água, chá, sumos, sopas, mas não bebidas cafeinadas) e consumir frutos e vegetais diariamente – eles são uma boa fonte de água.
Mas também adaptando a quantidade de líquidos ingeridos ao esforço despendido, bebendo a intervalos regulares e continuando a beber mesmo depois de o exercício terminado.
O volume de água ingerida deve ser igualmente adaptado às condições ambientais: mais calor e humidade requerem mais fluidos, o mesmo acontecendo em altitude e em espaços interiores aquecidos. O mesmo cuidado deve ser tido na doença, sobretudo se houver febre.
É importante não esperar pela sede. Ela é um sinal de alarme do organismo, mas nem sempre funciona correctamente: há pessoas que não a sentem e que, teoricamente, poderiam passar um dia inteiro sem beber água. Mas estariam em risco de desidratação, pelo que é preciso beber mesmo sem sede. Litro e meio a dois litros por dia para um adulto saudável. Para permanecer saudável.
Água a mais
Não é muito frequente, mas é possível: a hiperhidratação corresponde também a um desequilíbrio, mas em sentido contrário – a água ingerida é mais do que a eliminada pelo organismo. O resultado é uma diluição excessiva dos electrólitos existentes no sangue.
Beber quantidades exageradas de água não conduz a hiper-hidratação numa pessoa saudável: seria mesmo preciso beber mais de sete litros e meio por dia, o que é improvável.
O que conduz a este desequilíbrio é a incapacidade dos rins para excretar a água, em consequência, por exemplo, de uma doença renal, cardíaca ou hepática. Daí que as pessoas com estas patologias sejam aconselhadas a limitar a ingestão de água e o consumo de sal.
É no cérebro que a hiper-hidratação se reflecte, dando origem a sintomas como a confusão mental, as convulsões e, eventualmente, o coma.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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