Em reservatórios de água doce superficial (por exemplo, nas albufeiras) ocorre, por vezes, um fenómeno natural de proliferação massiva de cianobactérias, designado por florescência ou bloom.
A frequência deste fenómeno tem vindo a aumentar nas últimas décadas a nível mundial o que se deve, provavelmente, às alterações climáticas e à crescente eutrofização dos recursos hídricos, na sequência da não aplicação de adequadas medidas de protecção agro-ambiental.
Dado que algumas espécies de cianobactérias produzem toxinas, este fenómeno representa um risco para a saúde humana. Também em Portugal se tem detectado, com frequência crescente, a ocorrência de florescências tóxicas. De entre as cianobactérias mais comuns entre nós, destaca-se a espécie Microcystis aeruginosa, frequentemente associada à produção de níveis elevados de um tipo de hepatotoxinas, as microcistinas.
As microcistinas são heptapéptidos cíclicos cujo órgão alvo principal é o fígado. Os seus efeitos hepatotóxicos agudos são bem conhecidos e devem-se à sua actividade como inibidores potentes de fosfatases proteicas, conduzindo à hiper-fosforilação das proteínas envolvidas na regulação da dinâmica de formação do citoesqueleto. Esta tem como consequência a perda da própria arquitectura hepática donde poderá resultar, em casos extremos de intoxicação aguda, a morte do indivíduo.
Ao longo dos últimos anos tem-se verificado uma crescente utilização de águas superficiais para o abastecimento público e para actividades de lazer. Saliente-se que a elevada estabilidade química das microcistinas, aliada ao facto de os sistemas convencionais de tratamento de água não estarem, em geral, preparados para remover eficazmente elevadas concentrações de toxinas, contribui para o aumento do risco de exposição humana prolongada a baixos níveis destas toxinas.
Assim, tem vindo a suscitar grande interesse a investigação dos potenciais efeitos adversos na saúde decorrentes de uma exposição crónica a microcistinas. De facto, de acordo com estudos epidemiológicos, a sua persistência em água para consumo humano encontra-se associada ao aumento da inci-ência e a uma elevada prevalência de carcinoma hepático em certas regiões da China.
Verificou-se também, em modelos animais, que a exposição prolongada a doses sub-letais de microcistinas promove o desenvolvimento de tumores hepáticos, previamente iniciados quimicamente, pelo que estas passaram a ser consideradas como agentes promotores tumorais.
Neste sentido, temos vindo a desenvolver estudos, no nosso Instituto, visando a caracterização do potencial genotóxico das microcistinas na indução de alterações cromossómicas e de mutações em células de mamífero, parâmetros determinantes na avaliação da sua actividade cancerigénica.
Os resultados dos nossos estudos, visando então a caracterização do potencial cancerigénico das microcistinas nas águas irão, certamente, contribuir para uma melhor gestão das ocorrências adversas bem como para a prevenção de eventuais situações de risco para a saúde pública, garantindo, assim, uma maior segurança na utilização dos recursos hídricos nacionais.
Para além disso, a hipótese destas toxinas poderem actuar como agentes iniciadores do processo cancerigénico atra-vés da indução de efeitos genotóxicos, isto é, de efeitos adversos ao nível do genoma, tem sido recentemente bas-tante discutida, embora os estudos nesta área sejam ainda limitados e até algo contraditórios.
Dra. Maria João Silva,
Investigadora do Centro de Genética
Humana do Instituto Nacional de
Saúde Dr. Ricardo Jorge, Lisboa
Saúde em Revista