A grande sinistralidade rodoviá-ria em Portugal é conhecida por todos. As imagens, nos jornais ou na televisão, são constantes. As vítimas são, na sua maioria, jovens e as consequências graves, como lesões vertebromedulares que, entre outros problemas, afectam a vida sexual.
De acordo com o Dr. Rui Sousa, urologista no Hospital Militar Principal em Lisboa, as lesões vertebromedulares são muito frequentes neste contexto, sendo maioritariamente de origem traumática.
«Estes traumatismos, através do esmagamento ou deslocação dos corpos vertebrais, provocam compressão na medula espinal ou originam compromisso vascular. Deste modo, as lesões vertebromedulares afectam a transmissão normal dos impulsos nervosos através da medula espinal», refere o urologista, acrescentando:
«Por exemplo, para que se possa movimentar um membro inferior é necessário que os centros cerebrais superiores enviem estímulos pelas vias motoras que se destinam aos músculos necessários a determinado movimento. Por outro lado, o próprio membro envia informação ascendente para o sistema nervoso central sobre o estado dos músculos, a sua posição, sensibilidade, etc., que vai possibilitar a coordenação do movimento. Todo o processo que interrompe esta via de comunicação resulta em perda de função ou de regulação, através do Sistema Nervoso Central.»
Neste sentido, as lesões vertebromedulares, quando são irreversíveis, provocam «déficites motores e sensitivos no normal funcionamento dos territórios, dependentes da enervação dos nervos afectados. Em situações de traumatismo da coluna dorsal, este condiciona invariavelmente uma paraplegia dos membros inferiores».
O apetite sexual
e o desejo mantêm-se
A disfunção eréctil nestes casos, de doentes vertebromedulares jovens, compromete a vida sexual, uma vez que a transmissão de vários estímulos aos órgãos genitais fica afectada, e a excitação, erecção e orgasmo não ocorrem normalmente.
Porém, o apetite sexual e o desejo mantêm-se. «Estes doentes podem e conseguem manter a sexualidade porque os afectos, o desejo e o apetite se mantêm.
A erecção, quando o nível da lesão se situa acima da medula sagrada, é possível mediante estimulação directa dos órgãos genitais, possibilitando um coito penetrante, com a necessária ajuda da parceira», salienta o urologista.
Além disso, e quando a erecção não é possível ou é insuficiente, dispomos, hoje em dia, de fármacos, como o vardenafil, que «permitem aumentar a disponibilidade de um dos mediadores químicos fundamentais à dilatação das artérias dos corpos cavernosos do pénis, permitindo a entrada de sangue. Os resultados são excelentes, desde que não exista compromisso das artérias responsáveis pela irrigação do pénis».
Quanto à ejaculação, o problema é mais difícil de superar porque fica invariavelmente afectada, tornando impossível a concepção.
«Quando o casal pretende conceber um filho, é necessário recorrer a métodos de estimulação eléctrica, recolha de esperma da urina ou colheita directa de espermatozóides nos testículos, epidídimos ou canais deferentes, para inseminação ou microinjecção.»
Mas, no fim, a mensagem a reter é a de que «a sexualidade deve e pode ser mantida de forma normal, como em qualquer outra pessoa. O carinho, a ternura, o afecto e o desejo mantêm–se. A medicina pode ajudar não só na obtenção de erecções, como no equilíbrio do casal, ajudando a compreender e a contornar os pequenos problemas que esta nova situação de incapacidade acarreta. Mais ainda, o equilíbrio global do indivíduo, mantendo as suas capacidades cognitivas, o seu gosto de viver, força de vontade e os cuidados gerais de saúde, sem recurso a medicação ansiolítica ou psicotrópica, sem refúgios em drogas de adição ou álcool, é fundamental para que se restabeleça tão breve quanto possível a sua reabilitação sexual», conclui Rui Sousa.
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