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A mente pode prejudicar ou ajudar muito a vida sexual

Alguns estudos recentes comparam indivíduos sexualmente funcionais com os disfuncionais e analisam eventuais aspectos cognitivos que interferem na sexualidade. Verificou-se que a mente pode prejudicar ou ajudar muito na vida sexual. Ora veja!

É relativamente inegável a influência dos fenómenos de natureza cognitiva e emocional na determinação do funcionamento sexual, tanto nos homens como nas mulheres.

«De facto, sem minimizar o eventual contributo de factores de natureza diversa – onde se podem incluir as variáveis biológicas, socioculturais ou relacionais –, os resultados dos nossos estudos mostraram uma inequívoca contribuição de diversas variáveis de cariz cognitivo e emocional na explicação dos fenómenos de disfuncionalidade sexual feminina e masculina», afirma o Prof. Pedro Nobre, psicólogo e sexólogo.

A grande maioria dos estudos sobre estas matérias foi iniciada na segunda metade da década de 80, mas focou-se sobretudo no sexo masculino. Nos últimos anos começou a haver interesse em estudar os aspectos cognitivos relacionados com a sexualidade também nas mulheres.

«Os estudos que me pareceram mais interessantes são aqueles que se referem às crenças sexuais e às atribuições causais para o insucesso sexual, ou seja, quando um indivíduo tem um insucesso sexual atribui–o a causas internas pessoais ou a causas externas?», interroga-se o especialista.

Os sujeitos disfuncionais, em situação de insucesso sexual, têm tendência para activar esquemas pessoais negativos que os levam a atribuir a causas internas os fenómenos de eventual fracasso esporádico.

«Mais especificamente, tanto os homens como as mulheres disfuncionais tendem a interpretar as situações de insucesso como um sinal de fracasso e incompetência pessoal e pensam: “Sou incompetente”, “Sou fraco (a)”, “Sou falhado (a)”», refere o psicólogo.
Estes resultados, apesar de indicarem um interessante factor distintivo dos sujeitos disfuncionais relativamente à população considerada «normal», não explicam as razões subjacentes a esta activação de auto-esquemas negativos face a situações de insucesso ocasional.

«A nossa hipótese é a de que os sujeitos disfuncionais possuem um conjunto de crenças sexuais (desenvolvidas por processos de aprendizagem sociocultural e por experiências de vida pessoal) responsáveis pela interpretação dos fenómenos de cariz sexual, que os tornam vulneráveis ao desenvolvimento de disfunções sexuais», explica o sexólogo.

Os resultados dos estudos efectuados indicaram uma tendência por parte dos sujeitos disfuncionais para apresentar maior frequência de crenças sexuais que interferem na sexualidade.

«Especificamente, os homens do nosso grupo clínico mostraram possuir mais crenças relativas ao mito do “macho latino”. E pensam, muitas vezes, coisas do género: “Um verdadeiro homem tem relações sexuais com grande frequência”; “No sexo o que conta é chegar ao fim”;

“O sexo sem orgasmo nunca pode ser bom”; e crenças relacionadas com a satisfação sexual da mulher ou a sua reacção ao insucesso masculino: “O que mais satisfaz a mulher é a potência do pénis”; “A mulher pode duvidar da virilidade do homem sempre que este não consegue a erecção durante o acto sexual”; “Um homem que não satisfaça a mulher é um fracassado”», enumera Pedro Nobre.

Assim, parece ser compreensível que, perante situações de insucesso ocasional, os homens com este tipo de crenças tendam a activar significativamente mais esquemas de incompetência pessoal, o que era totalmente desnecessário.

Desempenho condicionado As crenças sexuais, entendidas como ideias preconcebidas que se tem em relação à sexualidade, condicionam muito o desempenho. Relativamente às mulheres, os resultados indicaram que estas apresentam mais crenças relacionadas com o papel da idade no funcionamento sexual e pensam coisas como: «Após a menopausa a mulher deixa de sentir desejo sexual»; «Com a idade a mulher perde o prazer pelo sexo».

A importância da imagem corporal e da beleza física também geram um conjunto de crenças sexuais: «Mulheres fisicamente pouco atraentes não conseguem ser sexualmente felizes.»

E, ainda que em menor grau, surgem crenças sexuais conservadoras: «A masturbação é errada e pecaminosa»; «O sexo oral é uma das maiores perversões»; e crenças na actividade sexual como pecado: «O sexo é sujo e pecaminoso», «Ter prazer numa relação sexual não é próprio de uma mulher de bem», etc.

«No mesmo sentido dos resultados masculinos, estes dados explicam a maior vulnerabilidade das mulheres com este tipo de crenças para o desenvolvimento de dificuldades de funcionamento sexual», analisa o especialista.

Uma outra questão relevante refere-se aos factores que promovem a manutenção das dificuldades sexuais. «A nossa hipótese é a de que, uma vez activados esquemas negativos de cariz pessoal face a uma situação de insucesso sexual, os homens e as mulheres tendem a enfrentar futuras situações de cariz sexual de uma forma mais negativa», prevê o psicólogo.

Por outras palavras, perante futuras situações sexuais, os sujeitos disfuncionais apresentam significativamente mais pensamentos automáticos e emoções negativas e menos pensamentos eróticos e emoções positivas, imagine-se…

As mulheres sexualmente disfuncionais apresentam também mais pensamentos de fracasso e desistência como os seguintes: «Não estou a satisfazer o meu parceiro»; «Não estou a conseguir»; «Quando é que isto acaba?»

Ou apresentam, ainda, pensamentos de abuso sexual: «Isto é nojento e repugnante»; «A única coisa que ele quer é satisfazer-se» e escassez de pensamentos eróticos no decorrer da actividade sexual. «Estes pensamentos automáticos estão, por sua vez, associados a respostas emocionais de tristeza, desilusão, culpa e irritação, bem como a escassez de emoções de prazer ou satisfação», justifica o sexólogo.

No mesmo sentido, os homens disfuncionais apresentam mais pensamentos relacionados com a erecção e a penetração sexual do que os homens considerados normais.

Não raramente pensam em coisas como: «Tenho de conseguir a penetração»; «Não posso falhar a erecção»; «Porque é que isto não está a funcionar?», bem como pensamentos de antecipação de fracasso e as suas consequências: «Isto já não vai a lado nenhum»; «Estou condenado ao fracasso»; «Ela ainda me troca por outro», associando uma escassez de pensamentos eróticos.

«Mais uma vez, as respostas emocionais características deste grupo clínico são a tristeza, a desilusão e a escassez de prazer e satisfação», admite Pedro Nobre.

É importante realçar que, no género masculino e feminino, as emoções relacionadas com o afecto deprimido superam a influência de emoções associadas à ansiedade na determinação da resposta sexual disfuncional.

Mulher feia não satisfaz?

Quanto às disfunções sexuais femininas, parece existir alguma continuidade entre as perturbações do desejo e da excitação sexual, essencialmente caracterizadas por crenças no pólo do conservadorismo e ideia de pecado, facto que as distingue das restantes disfunções.

Por seu turno, «as perturbações do orgasmo parecem estar associadas a um conjunto de crenças relacionadas com a centralidade da imagem corporal na actividade sexual».

Algumas mulheres pensam que se são fisicamente pouco atraentes não conseguem ser sexualmente felizes – «Uma mulher feia não consegue satisfazer sexualmente o companheiro» –; facto que é complementado por uma frequência elevada de pensamentos de baixa auto-imagem corporal no decorrer da actividade sexual.

Já o vaginismo «mostra-se fortemente associado a respostas emocionais de medo perante situações de cariz sexual, fenómeno que parece explicar a forte resposta comportamental de evitamento que distingue esta patologia», explicita o psicólogo.

No que se refere às disfunções sexuais masculinas, parece existir alguma continuidade entre a disfunção eréctil e a perturbação do orgasmo, ambas caracterizadas pela prevalência do esquema de incompetência pessoal e pelo foco da atenção na resposta eréctil e escassez de pensamentos eróticos no decorrer da actividade sexual.

«A ejaculação prematura, por sua vez, distingue-se destas pela predominância de pensamentos de antecipação de fracasso e de respostas emocionais de medo durante a actividade sexual», diz Pedro Nobre.

Sabe-se já que a falta de afectos positivos produz um efeito inibidor sobre a resposta sexual, diminuindo o desejo e dificultando a resposta de excitação no homem (erecção) e na mulher (lubrificação), mostrando a influência da mente e de algumas emoções na sexualidade.

A análise e estudo destas temáticas relacionadas com aspectos cognitivos que interagem nos processos sexuais «devem contribuir para um reconhecimento crescente da importância de variáveis psicológicas na determinação do funcionamento sexual e para o consequente recrudescimento de intervenções terapêuticas orientadas para a identificação, compreensão e modificação das dimensões cognitivo-emocionais implicadas nas disfunções sexuais», salienta Pedro Nobre.

Conclui-se, então, que é importante trabalhar as crenças sexuais individuais como factor de prevenção, dar a devida importância à integração mais consistente de estratégias de reestruturação cognitiva nos protocolos de terapia sexual; inclusive valorizando devidamente as estratégias de refocagem da atenção e também a importância das emoções.

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