A tuberculose vitima, todos os anos, cerca de 1,5 milhões de pessoas por todo o Mundo, segundo as estatísticas da Organização de Saúde (OMS). Em Portugal, os dados provisórios, apurados pela Direcção-Geral de Saúde (DGS), apontam para uma redução de 14% dos casos entre 2006 e 2007.
A tuberculose, também baptizada por “Peste Branca” conheceu o seu auge na época da Industrialização. Mas existem vestígios da sua existência, desde as civilizações egípcias. O bacilo de Koch (conhecido por Mycobacterium tuberculosis) – a bactéria que está por detrás do desenvolvimento da doença – foi descoberto, há 125 anos atrás, por um investigador alemão com o mesmo nome.
Actualmente, e apesar de não ser uma doença mediática, a tuberculose continua a roubar a vida de 4500 pessoas por dia, em todo o Mundo, segundo o último relatório da Organização Mundial de Saúde. Estes são números que não deixam ninguém indiferente, principalmente se pensarmos que se trata de uma doença infecciosa com possibilidade de cura.
“Trata-se de uma patologia infecciosa que se transmite por via respiratória, através de um simples espirro ou tosse”, afirma o Dr. Artur Teles de Araújo, presidente da Associação Nacional de Tuberculose e Doenças Respiratórias (ANTDR).
De uma forma geral, em 90% dos casos, os mecanismos imunológicos do indivíduo consegue pôr cobro à bactéria. Em termos práticos, a bactéria Mycobacterium tuberculosis chega ao pulmão, através das vias respiratórias, local onde vai criar um pequeno núcleo. Esta é a típica situação de primo-infecção, que poderá ser debelada pelo sistema imunitário.
Contudo, nas situações em que o indivíduo se encontra imunologicamente debilitado, a infecção pode-se aproveitar desta “fragilidade” para ganhar terreno, podendo mesmo entrar na corrente sanguínea e atingir outros órgãos do sistema.
Quando a bactéria se instala nos alvéolos do pulmão, um dos primeiros sintomas de doença é a tosse persistente, que “se prolonga por um período superior a três semanas e não cede aos tratamentos habituais”. Numa fase mais avançada, “a expectoração surge, normalmente, acompanhada de sangue”, refere.
O diagnóstico poderá ser confirmado com recurso a uma amostra obtida através da expectoração. Esta é isolada e, ao longo de 16 semanas, aguarda-se que o bacilo – caso exista – se desenvolva. Contudo, adianta o especialista, que a radiografia, “muito embora não dê um diagnóstico assertivo, permite detectar alguns sinais de doença”.
Uma doença “esquecida”
Até ao momento, o único meio de prevenção farmacológica para fazer face a esta patologia é a vacina. A BCG (sigla de bacilo Calmette-Guerin) é uma microbactéria bovina atenuada que ajuda o organismo a criar anticorpos, cujo grau de protecção contra as diferentes formas de tuberculose se situa na ordem dos 50%. Contudo, “ainda está longe de ser um método totalmente eficaz”, defende Artur Teles de Araújo.
Os antibióticos, descobertos e utilizados a partir da década de 50 do século passado, têm uma eficácia que ronda os 90% de cura, “se correctamente utilizados”. O tratamento da tuberculose – com uma duração entre seis a nove meses – consiste na toma diária de dois a três antibióticos. “Por se tratar de um período longo, há uma tendência para o tratamento não ser cumprido. Face a este abandono e a erros terapêuticos, o risco de multirresistências aumenta”, diz Teles de Araújo.
A par da problemática das resistências encontra-se a sua ligação com o vírus da sida. Ao longo de anos, a tuberculose foi considerada “uma doença do passado, em virtude da diminuição do número de casos, razão pela qual foi conduzida ao esquecimento”.
Porém, o flagelo do vírus da imunodeficiência adquirida, em perigosa associação com o bacilo de Koch, reacendeu o debate sobre a tuberculose. “De facto as duas doenças potenciam os efeitos nefastos uma da outra, pelo que o doente seropositivo, com as defesas debilitadas, torna-se mais atreito a contrair tuberculose”, completa o especialista.
À margem de uma visita ao hospital de Pulido Valente, o enviado especial da ONU no programa de luta contra a tuberculose, Jorge Sampaio, alertava para a necessidade de uma “resposta conjugada”, para pôr cobro a uma nova realidade: a co-infecção. Esta medida não obsta, no entanto, “a aplicação de programas dirigidos e individualizados a cada uma das doenças”.
Segundo os dados provisórios, apresentados pela Direcção-Geral de Saúde antes do dia Mundial da Tuberculose, que se assinala a 24 de Março, no último quinquénio, em Portugal, registou-se uma descida de 41% nos casos de co-infecção. Contudo, em 53% dos doentes infectados, a tuberculose foi a patologia indicativa de sida. De acordo com Jorge Sampaio, o paradoxo da co-infecção reside no facto de os portadores de uma doença incurável (a sida) sucumbirem a uma patologia curável: a tuberculose.
Jornal do Centro de Saúde
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