A retinopatia da prematuridade (ROP) é uma doença vasoproliferativa que afecta a retina dos recém-nascidos prematuros (RNP), mais pequenos e mais frágeis. Esta doença apresenta um espectro de gravidade que inclui desde formas de apresentação que se resolvem espontaneamente até casos que podem evoluir para a cegueira.
Após meses de luta pela vida, uma das últimas duras provas que os prematuros e suas famílias têm de enfrentar é a retinopatia da prematuridade e a luta contra a cegueira. Dado que é uma doença que ocorre no interior do olho, não há sinais externos que a denunciem, assumindo o rastreio um papel fundamental na detecção dos casos que podem evoluir desfavoravelmente.
Este rastreio envolve um trabalho de equipa, onde os neonatologistas, os enfermeiros e os oftalmologistas confluem esforços. Os bebés em risco são semanalmente sinalizados pelos neonatologistas e observados pelo oftalmologista que se desloca à unidade de Cuidados Intensivos. Existem recomendações internacionais que balizam o rastreio e ajudam a que este seja o mais eficaz possível. Com o aparecimento da telemedicina existe ainda a possibilidade de rastreio e consultadoria à distância, o que deverá permitir um rastreio nacional cada vez mais eficaz.
Quando são detectados casos com gravidade, tal que a probabilidade de evolução para a cegueira é muito elevada (doença limiar), existem vários tratamentos que devem ser aplicados. Estudos internacionais realizados desde os anos 80 (Cryo-ROP Study e ETROP) demonstraram a eficácia da crioterapia da retina avascular periférica e, mais tarde, da laserterapia na prevenção da cegueira. Actualmente, com o aparecimento de novos medicamentos antiangiogénicos, de manipulação de factores de risco e maior conhecimento sobre a fisiopatologia da ROP iremos assistir a uma cada vez maior eficácia no seu tratamento.
Por uma boa saúde visual
A taxa de mortalidade infantil diminuiu muito nos últimos 15 anos em Portugal, fruto de melhores cuidados de saúde materno-infantis, das inovações técnicas ao nível da neonatologia e da criação de novas e especializadas Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Assim, emerge uma população de RNP que necessitam em absoluto de rastreio e tratamento da ROP. A tomada de consciência deste facto é o primeiro passo no longo caminho da prevenção e tratamento da cegueira.
Mas o papel do oftalmologista não termina com o rastreio e tratamento da ROP. Continua ao longo da vida destes prematuros, já que a incidência de doenças oftalmológicas como a miopia o astigmatismo ou o estrabismo é maior neste grupo. A saúde visual das nossas crianças é um bem precioso e uma mais-valia social e económica. Todos os gastos que sejam feitos para a melhorar são um investimento no futuro.
É um direito do RNP e um dever nosso, de oftalmologistas, proporcionar a melhor saúde visual possível a estes bebés, enquadrada pelo melhor estado da arte actual.
Jornal do Centro de Saúde
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