Nascem com a função visual, conhecem o mundo através dos olhos, mas, porque um dia a rota da sua vida se cruzou com a diabetes, correm o risco de deixar de ver o mundo e o que ele ainda terá de novo para lhes mostrar. Caminho inevitável? Não, desde que se actue a tempo. Como? Principalmente com um controlo apertado, eficaz e sistemático dos níveis de glicemia.
A perda parcial ou total da visão é uma das consequências mais graves e conhecidas da diabetes mellitus. Se, atempadamente, nada for feito, à medida que os anos passam, a visão torna-se turva e diminuta.
Estes sintomas podem estar ligados a várias patologias da visão desencadeadas pela diabetes. Entre elas, estão as cataratas ou o glaucoma, mas as mais graves e frequentes são as alterações retinianas – a retinopatia diabética (RD) –, capaz de causar o deslocamento da retina, a hemorragia do vítreo e, em última instância, a cegueira.
E como surge a retinopatia diabética? A circulação sanguínea retiniana sofre transtornos nos doentes diabéticos. Por um lado, o fluxo sanguíneo é reduzido nos capilares retinianos, o que provoca um deficit no transporte de oxigénio e nutrientes para a retina. Por outro lado, a função de barreira desses mesmos vasos capilares é rompida. Assim, surgem hemorragias e acumulação de lípidos na mácula – o ponto central da retina. Surge, então, o edema macular, que é a causa mais frequente de perda severa da visão central nos diabéticos.
A diabetes afecta o globo ocular e as suas diferentes estruturas por diversos mecanismos, que são causados por um controlo inadequado dos níveis de glicemia no sangue.
«Este descontrolo metabólico vai dar origem ao aparecimento da microangiopatia diabética – lesão das estruturas vasculares microscópicas dos olhos que são responsáveis pela circulação retiniana e pelo seu bom funcionamento e desempenho», elucida o Dr. José Roque, oftalmologista responsável pela consulta de Diabetes Ocular do Hospital de Santo António dos Capuchos, em Lisboa.
A retinopatia diabética compromete seriamente a visão dos doentes.
Isto porque, segundo o mesmo oftalmologista, «afecta a retina que funciona no olho como o rolo da máquina fotográfica, ou seja, é nela que se vai estruturar e formar a informação visual que será transmitida ao cérebro através do nervo óptico».
É grave, mas tem solução
«Apesar de todos os esforços de saúde pública, a retinopatia diabética continua a constituir uma das principais, senão mesmo a principal, causa de cegueira nos países desenvolvidos», salienta José Roque.
Cerca de 25% dos diabéticos têm alguma forma de RD, sendo mesmo uma forma grave em 5% dos casos. Esta doença pode surgir tanto na diabetes tipo I como na tipo II.
A perda da visão nos diabéticos não tem de ser uma inevitabilidade. É possível evitar este mal maior, ao travar a evolução da retinopatia diabética para estádios mais avançados, actuando-se precocemente. O tratamento assenta, essencialmente, em dois pilares – a fotocoagulação com laser e a cirurgia.
«A fotocoagulação pelo laser consiste em aplicar um feixe de luz nas zonas da retina afectadas para, através de um efeito térmico, proceder à destruição das suas lesões, evitando assim a progressão da doença e o aparecimento de lesões mais severas», descreve José Roque.
Por seu turno, a cirurgia é, habitualmente, reservada aos casos mais graves. «É uma cirurgia delicada, designada de vitrectomia», diz este oftalmologista, «e destina-se a tratar as complicações da RD não acessíveis ao tratamento por laser, ou então a situações mais graves, como as hemorragias do vítreo e o deslocamento da retina».
No acto cirúrgico é removido o humor vítreo – um gel que preenche o segmento posterior do globo ocular – e todas as estruturas anómalas que resultam da RD.
Outras complicações nos olhos do diabético
A retinopatia diabética, embora seja a mais grave e preocupante, não é a única patologia que afecta os olhos dos diabéticos. Existem outras complicações que podem resultar da microangiopatia diabética, como as designadas complicações neuroftalmológicas. Estas resultam da lesão do nervo óptico, responsável pela transmissão da informação visual ao cérebro, ou dos nervos oculomotores (fazem a enervação dos músculos para mover os olhos).
Mas os problemas não se ficam por aqui… «Para além das complicações resultantes da microangiopatia diabética, há ainda outras que merecem ser referidas», sustenta o especialista, concretizando: «Independentemente da existência ou não de RD, é frequente a existência de flutuações na acuidade visual – há alturas em que os doentes vêem melhor do que noutras».
«Este fenómeno pode ser devido ao que, nós oftalmologistas, designamos por flutuações da refracção, ou seja, a mudanças transitórias e mais ou menos acentuadas da graduação e das dioptrias necessárias à correcção do erro refractivo nos óculos, e surge, habitualmente, na sequência das flutuações dos níveis de glucose no sangue», explica José Roque.
Outra razão possível para estas flutuações da acuidade visual é o aparecimento de catarata, que nos doentes diabéticos é mais recorrente, mais precoce e de evolução mais rápida.
Também o glaucoma ocorre com mais frequência nos diabéticos do que na população em geral. «O glaucoma nos diabéticos é de origem multifactorial e resulta da elevação da pressão intra-ocular e da consequente lesão do nervo óptico que leva à perda do campo visual», sublinha o médico.
Prevenir: a chave do sucesso
«A maioria destas complicações, se não mesmo todas, pode ser prevenida e evitada se houver um controlo apertado, eficaz e sistemático dos níveis de glicemia», garante o especialista.
O controlo da pressão arterial e dos lípidos no sangue constitui-se, também, como fundamental para a prevenção da diabetes ocular.
«De uma forma geral, o doente diabético deve ser observado, pela primeira vez, por um oftalmologista na altura em que é feito o diagnóstico para os diabéticos do tipo II e não depois de cinco anos após o diagnóstico para os doentes diabéticos do tipo I. No caso de não serem detectadas alterações, e na ausência de queixas oftalmológicas, uma avaliação oftalmológica anual é mandatória em todos os doentes diabéticos, aconselha José Roque, que conclui:
«Só através de um bom controlo dos níveis de glucose no sangue, da pressão arterial e do perfil lipídico, com um acompanhamento multidisciplinar eficaz, será possível prevenir a perda da visão nos doentes diabéticos.»
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