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Olhos sensíveis aos anos

Com o passar dos anos, é natural que a visão seja afectada. Os olhos são sensíveis à idade e há doenças que são mais frequentes à medida que se envelhece.

A deterioração da visão não é uma consequência inevitável do envelhecimento, mas é uma consequência natural. É certo que todos nos cruzamos na rua com pessoas idosas que não necessitam de usar óculos, mas dificilmente terão olhos de lince: é provável que tenham dificuldade em ler, ver televisão ou executar outras tarefas de pormenor ou até que já se tenham habituado a algum défice de visão.

 

DMRI – Sem detalhes

Os olhos, tal como os demais sentidos, ressentem-se com o passar dos anos. E tal como a audição, o paladar e o olfacto vão pregando partidas, também eles dão sinais de cansaço. E há mesmo doenças que estão claramente associadas à idade: é o caso da degenerescência macular relacionada com a idade (DMRI), que se declara com mais frequência a partir dos 50. Calcula-se que, no nosso país, afecte cerca de 300 mil pessoas, mas este número tenderá a crescer ao ritmo a que a esperança de vida vai aumentando e a população envelhecendo.

O que está em causa é a mácula, um tecido sensível à luz que reveste o fundo do olho e se localiza no centro da retina. É sua função assegurar a visão central e a percepção dos detalhes que nos permitem, por exemplo, reconhecer um rosto, ler ou ver televisão. Quando a mácula não funciona correctamente, ocorre perda da visão central, pelo que o doente consegue ver o contorno de um relógio, por exemplo, mas é incapaz de ver as horas. Isto acontece porque a visão periférica (ou lateral) é poupada.

Em geral, é só quando os danos já são significativos que o doente percebe que algo grave está a acontecer, pois a DMRI desenvolve-se de uma forma gradual e sem dor, conduzindo à perda progressiva da visão central devido ao envelhecimento da mácula. Na sua fase inicial, afecta apenas um dos olhos, levando o olho saudável a compensar a perda de visão, o que faz com que a doença passe despercebida. Só quando a mácula do segundo olho sofre lesões é que surge o alerta.

São dois os tipos de degenerescência macular: a atrófica ou seca e a exsudativa ou húmida. A mais comum é a atrófica, responsável por 80 a 90 por cento de todos os casos, mas apenas 10 a 20 por cento dos casos de perda acentuada de visão ou cegueira.

Desenvolve-se lentamente, acompanhando o envelhecimento dos tecidos da mácula. Já a forma húmida é mais rara mas também mais grave: corresponde a 10 a 20 por cento de todos os casos de DMRI, mas pode conduzir à cegueira em apenas algumas semanas. Resulta da formação de novos vasos sanguíneos no fundo da retina, os quais derramam fluidos ou sangue que embaciam a visão central, causando rapidamente a perda de visão.

A DMRI atrófica é a que se desenvolve mais lentamente, podendo permanecer imperceptível por muito tempo ou até nem desencadear sintomas. Em contrapartida, a forma exsudativa é muito agressiva, podendo todo o processo desenrolar-se em poucas semanas, passando rapidamente das imagens distorcidas à perda de visão num dos olhos. É quando os dois olhos são afectados que a perda de visão central é mais notória.

Há, no entanto, alguns sinais que funcionam como alerta: se no centro da visão surge uma mancha escura ou uma área vazia, se as palavras numa página parecem pouco nítidas ou distorcidas, se as linhas rectas parecem tortas. Isto porque entre os sintomas da DMRI se encontram a perda acentuada da acuidade visual, a diminuição da sensibilidade ao contraste, a formação de imagens disformes ou enevoadas, a presença de uma mancha escura ou esbranquiçada no centro do campo visual, alteração das cores e aumento da sensibilidade à luz. Em síntese, os olhos ficam como que embaciados.

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Sendo degenerativa, a DMRI é também irreversível. Mas o diagnóstico precoce pode ajudar a retardar o seu avanço. Para isso, é fundamental consultar o oftalmologista, que fará os testes necessários para avaliar o grau de prejuízo da visão. E decidirá qual o melhor tratamento, sendo que existem actualmente duas alternativas: a cirurgia por laser e a terapia fotodinâmica, ambas utilizadas para a DMRI exsudativa, já que para a atrófica não se conhece ainda uma cura. Podem igualmente ser recomendados dispositivos ópticos que facilitam o quotidiano e permitem aos doentes continuar a praticar as suas actividades: é o caso das lentes de aumento para ler ou fazer trabalhos manuais como a costura. São dispositivos que permitem “recuperar” alguma da visão central, já que a visão periférica não costuma ser afectada pela DMRI.

A par do diagnóstico atempado, é fundamental a prevenção. O que passa por consultas regulares com o oftalmologista, de modo a detectar precocemente qualquer alteração na visão. A partir dos 50 anos, este é um cuidado essencial.

Passa também por evitar a exposição excessiva aos raios solares. E por introduzir algumas mudanças no estilo de vida, nomeadamente ao nível da alimentação. Há estudos que apontam para os benefícios de uma dieta rica em frutas e legumes, sobretudo os de folha verde, fornecedores de vitaminas e minerais antioxidantes.

É o caso da luteína, que parece proteger a mácula dos danos causados pela luz ultravioleta. Deixar de fumar também ajuda, dado que o tabaco é considerado, a par da idade e dos antecedentes familiares, um factor de risco para a DMRI. Com estes cuidados, é possível viver mais anos sem a visão embaciada.

 

Cataratas – lentes pouco transparentes

Embaciada fica também a visão de quem sofre de cataratas, caracterizadas pela diminuição da transparência do cristalino, uma estrutura dos olhos que funciona como lente. Semelhante à objectiva de uma máquina fotográfica, tem nove milímetros de diâmetro e quatro de espessura, sendo constituído por duas partes de água e uma de proteínas.

São três as suas camadas: a cápsula, o córtex e o núcleo. O córtex é formado por fibras proteicas transparentes, dispostas de forma a que a luz passe e cheque à retina, À medida que se envelhece algumas destas proteínas sofrem um processo de degenerescência, agregando-se ou sobrepondo-se, causando opacidade à passagem da luz. Ou seja, cataratas.

Pensa-se que estas proteínas sejam lesadas por radicais livres. De facto, as cataratas andam associadas ao envelhecimento, embora este não seja a sua causa única. Também a toma de determinados medicamentos, nomeadamente corticóides, pode afectar o cristalino, o mesmo acontecendo com algumas doenças, como a diabetes. Neste caso, as cataratas avançam rapidamente no espaço de alguns meses, conduzindo a uma deterioração da visão. Porém, na maior parte das vezes, progridem gradualmente ao longo dos anos, manifestando-se normalmente por volta dos 50.

A pouco e pouco, o cristalino vai-se tornando opaco e endurecendo, com reflexos na qualidade da visão, dado que a luz tem mais dificuldades em atravessar a lente ocular. Uma menor percepção das cores, intolerância à luz, nomeadamente durante a condução nocturna, e por vezes visão dupla num dos olhos são os sinais que denunciam a presença da catarata.

Perante isso, não há muitas alternativas, dado não existir qualquer medicamento, suplemento ou dispositivo óptico capaz de prevenir ou curar as cataratas. Quando os sintomas são ligeiros, a visão pode melhorar apenas com a mudança de óculos, adaptando a graduação. Mas quando as actividades quotidianas estão a ser prejudicadas a única solução radica numa cirurgia, procedimento que permite retirar a catarata e restaurar a visão. Esta pode ser a melhor solução se o doente não conseguir, por exemplo, cozinhar, fazer compras, trabalhar no jardim e tomar os remédios sem dificuldade, se tiver dificuldade em ler ou ver televisão e se não se sentir seguro para conduzir.

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Durante a cirurgia, retira-se a lente danificada, substituindo-a por um implante intra-ocular. E em mais de 90% dos casos o resultado é uma visão melhorada, a não ser que haja algum problema com a córnea, a retina ou o nervo óptico. Resultado: o doente volta a poder dedicar-se a todas as suas actividades, à excepção das mais cansativas. O progresso do olho vai sendo aferido ao longo de várias consultas pós-operatórias. Até que a transparência regressa como nos tempos em que o cristalino estava em plena forma. 

 

Glaucoma – olhos sob pressão

A idade está também associada ao glaucoma, uma das principais causas de perda visual. No centro do problema está a pressão intra-ocular: é ela que permite que o olho mantenha a sua forma e funcione adequadamente. A responsabilidade pertence aos fluidos que circulam no interior do olho, nomeadamente ao humor aquoso, que é continuamente produzido e está em constante circulação.

A sua presença alimenta a córnea e o cristalino (lente) do olho, além de que contribui para remover eventuais impurezas. A produção permanente é compensada por um contínuo sistema de drenagem, funcionando ambos ao mesmo ritmo de modo a manter a pressão exacta.

Esta drenagem ocorre num ângulo do olho formado pela íris e a córnea, com o humor aquoso a passar por uma espécie de peneira que desemboca num canal, a partir do qual é libertado na corrente sanguínea. É quando este sistema não funciona adequadamente que surge o glaucoma. Um bloqueio do canal, por exemplo, faz com que os fluidos se acumulem, aumentando a pressão ocular dado que continua a haver produção de humor aquoso mas a sua expulsão não é proporcional.

Não se sabe exactamente porquê, mas o aumento da pressão intra-ocular está associado a danos graduais no nervo óptico e, em consequência, à perda de visão.

O glaucoma apresenta-se sob diversas formas, sendo as principais a de ângulo aberto e a de ângulo fechado. O mais comum, crónico, chama-se de ângulo aberto porque a passagem entre a córnea e a íris permanece aberta ainda que a drenagem se dê muito lentamente. Em consequência, há uma acumulação progressiva de humor aquoso e um acréscimo também gradual da pressão ocular.

Os danos no nervo óptico são tão discretos que uma boa parte da visão pode já estar perdida quando se descobre a doença. Não se conhece a causa precisa deste tipo de glaucoma, com uma das explicações a apontar para menor eficiência da drenagem em função da idade.

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Mais raro é o glaucoma de ângulo fechado, que normalmente configura uma emergência médica na medida em que a perda de visão pode ocorrer no curto espaço de um dia: é que o ângulo entre a córnea e a íris fecha-se ou fica bloqueado, o que faz disparar a pressão no interior do olho. O que tanto se pode dever a uma deficiência congénita – ângulo demasiado estreito – como a um aumento do cristalino e consequente pressão sobre a íris, deixando pouco espaço para a drenagem do humor aquoso. De uma forma ou de outra, este fluido acaba por ficar aprisionado no olho.

Um terceiro tipo é o chamado glaucoma de baixa pressão, ainda pouco conhecido mas não invulgar. A pressão intra-ocular mantém-se em níveis aceitáveis, mas o nervoóptico sofre igualmente danos. Os cientistas defendem que pode estarse perante um nervo óptico demasiado sensível ou que receba pouco sangue devido a uma doença como a aterosclerose.

Uma outra classificação de glaucomas divide-os entre primários e secundários: dos primeiros não se conhece a causa, enquanto os segundos têm uma condição subjacente – doenças, medicamentos, lesões e deformidades oculares.

O glaucoma está relacionado com um aumento da pressão interna do olho, mas também ocorre sem que esta condição se verifique. O que torna difícil saber quem corre mais riscos de desenvolver a doença.

Ainda assim há alguns factores que influenciam essa probabilidade: a idade (ter mais de 60 anos, ainda que haja doentes mais jovens), antecedentes familiares da doença, a raça (a negra mais do que a branca), algumas doenças (como as cardíacas, diabetes e hipertensão), lesões oculares (feridas, inflamações e tumores), miopia (ver mal ao longe), uso prolongado de corticoesteróides e deformidades do olho.

Outra dificuldade aliada ao glaucoma é o facto de evoluir quase sempre sem sintomas. À excepção do glaucoma de ângulo fechado que, na sua forma aguda, se pode anunciar através de fortes dores de cabeça, nos olhos ou nas sobrancelhas, náuseas e visão nublada.

Normalmente, o diagnóstico surge quando já há perda de visão. Perante as suspeitas – diminuição da visão periférica, por exemplo – o médico oftalmologista procede a um conjunto de testes que permitem verificar a extensão dos danos.

Confirmado o glaucoma, o tratamento visa reduzir a pressão intraocular, melhorando a drenagem do humor aquoso ou reduzindo a sua produção. Entre gotas, medicamentos sistémicos (de toma oral), intervenção com laser ou cirurgia convencional são diversas as opções, a definir em cada caso.

Com o tratamento é possível evitar a progressão dos danos, mas não recuperar a visão. Prevenir também não é fácil, por na maior parte das vezes não se saber o que causa o glaucoma. Contudo, consultas oftalmológicas de rotina permitem detectar a doença na sua fase inicial e impedir que haja danos irreversíveis.

As consultas regulares ao oftalmologista são, aliás, a melhor forma de prevenir ou travar o avanço dos problemas de visão associados à idade.

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

www.anf.pt

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