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Músculos cansados

Cansados é como ficam os músculos de quem sofre de miastenia gravis, uma doença que afecta sobretudo as mulheres. Em Portugal, são 400 a 500 os doentes.

À letra, miastenia gravis significa “grave fraqueza muscular” e é isso mesmo que a caracteriza: os músculos voluntários – aqueles que controlamos – ficam facilmente cansados e muito fracos, não se contraindo quando devem e, portanto, dificultando ou inviabilizando os movimentos a eles associados.

Tudo se passa ao nível da comunicação entre os nervos e os músculos.

Por razões ainda não claramente identificadas, há interferências nessa comunicação – as mensagens não passam dos nervos para os músculos, pelo que estes não obedecem aos estímulos enviados pelo cérebro.

A fraqueza muscular pode afectar qualquer um dos chamados músculos voluntários, mas é mais comum nalguns grupos. Os primeiros a denunciar a doença são os músculos dos olhos: é que são usados constantemente, daí que se cansem mais facilmente. Daqui resulta desdobramento das imagens (dupla visão) e o descair de uma ou de ambas as pálpebras. Pode acontecer que a doença fique confinada a estes músculos, caso em que se fala de miastenia ocular.

Mas, com frequência, há outros músculos envolvidos, nomeadamente os da cara e garganta. As consequências abrangem a deglutição – comer, beber ou tomar comprimidos são gestos dificultados pela facilidade com que a pessoa se engasga – e a mastigação – os músculos podem ficar cansados a meio da mastigação, sobretudo de alimentos que exigem mais esforço, como a carne.

Também a fala é afectada, com os sons a saírem nasalados. E as expressões faciais também se ressentem – o sorriso pode desaparecer devido à fraqueza dos músculos envolvidos nesse reflexo.

Cansados ficam igualmente os músculos dos membros superiores e inferiores – gestos como pentear-se, barbear-se ou escrever ficam comprometidos, o mesmo podendo acontecer com subir ou descer escadas.

Por vezes, o pescoço também se ressente, pendendo para a frente.

A dificuldade de comunicação entre nervos e músculos pode estender-se ao peito, com impacto na capacidade respiratória – uma das consequências mais graves desta doença auto-imune.

 

A influência do timo

A miastenia gravis faz precisamente parte de um grupo de doenças infligidas pelo próprio organismo: é que o sistema imunitário, ao invés de defender o corpo dos agentes agressores ataca-se a si mesmo. Não se sabe exactamente porquê, ainda que, em relação à miastenia, haja evidência do envolvimento do timo, uma glândula localizada atrás do esterno (o osso do peito) e que parece desencadear a produção dos anticorpos que impedem a contracção dos músculos. Em adultos saudáveis, o timo é pequeno, mas nestes doentes assume uma dimensão excessiva, desenvolvendo-se, por vezes, tumores não cancerígenos. O facto de a remoção desta glândula fazer desaparecer a doença nalgumas pessoas confirma a tese da sua responsabilidade na miastenia.

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Os tumores no timo constituem, aliás, uma das complicações da doença, estando presentes em cerca de 15 por cento dos doentes. Mas há outras complicações possíveis e mais severas: é o caso da chamada crise miasténica, uma condição que pode colocar a vida em perigo e que ocorre quando os músculos que controlam a respiração ficam demasiado fracos para cumprir a sua função.

A capacidade respiratória fica comprometida, impondo a entrada no hospital, onde o doente é ventilado artificialmente por algum tempo, até que, por via da administração de medicamentos, os músculos recuperem a força suficiente para a respiração.

Os doentes miasténicos são mais susceptíveis a um conjunto de outras doenças auto-imunes como o lúpus e a artrite reumatóide. São igualmente vulneráveis a disfunções da tiróide, a glândula que regula o metabolismo (a velocidade a que o corpo utiliza a energia).

 

Mulheres “preferidas”

Apesar das complicações, a miastenia é uma doença controlável. O tratamento está disponível sob a forma de medicamentos, sendo os principais os anticolinesterásticos, que potenciam a comunicação neuromuscular.

Não eliminam a deficiência que está na base da doença, mas permitem que a maioria dos doentes leve uma vida normalmente activa.

Para os doentes mais graves, pode ser necessário recorrer a tratamento com esteróides, medicamentos particularmente indicados quando são afectadas a deglutição e a respiração. Em complemento, podem ser administrados imunossupressores, que, como o nome indica, actuam sobre o sistema imunitário, interferindo na produção dos anticorpos que bloqueiam a comunicação.

A cirurgia é também uma opção para remoção do timo, a glândula envolvida na miastenia, nomeadamente quando já se desenvolveram tumores. Já nas situações de crise, é usada a plasmaférese, que consiste na substituição do plasma do doente, uma espécie de lavagem do sangue para remoção dos anticorpos nocivos.

O tratamento é, geralmente, eficaz, o que permite aos doentes uma vida razoavelmente activa. Em Portugal, são cerca de 400 a 500, surgindo por ano 30 a 40 novos casos de uma doença que é, maioritariamente, feminina: nas mulheres declara-se, quase sempre, antes dos 40, mas nos homens só depois dos 60. São particularidades de uma patologia que ainda tem muitos contornos desconhecidos.

 

Falhas na comunicação

O que está em causa na miastenia gravis é um corte na comunicação entre os nervos e os músculos, o que os impede de obedecerem às ordens emitidas pelo cérebro.

Compreender os músculos pode ajudar a compreender melhor este mecanismo. Assim, cada músculo é servido por um nervo que se ramifica em nervos mais pequenos que se espalham pelo interior fibroso. Entre cada uma das extremidades nervosas e a superfície muscular há um intervalo: é nele que se processa a comunicação.

Quando o cérebro envia mensagens ao músculo, para que ele se contraia, as extremidades nervosas libertam um químico – trata-se da acetilcolina, um neurotransmissor, que se agarra aos receptores existentes no músculo, fazendo-o contrair-se.

Ora, é este mecanismo que falha numa pessoa com miastenia gravis: a mensagem não passa dos nervos para o músculo porque o sistema imunitário produz anticorpos que bloqueiam ou destroem os receptores de acetilcolina. Como este neurotransmissor não chega ao músculo, este não se contrai ou contrai-se com uma força insuficiente para que o movimento desejado se concretize.

Os músculos mais usados são os mais afectados: daí que a doença comece por manifestar-se nos olhos – as pálpebras sobem a descem repetidamente, embora de uma forma quase automática que passa despercebida.

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