Sabia que as pessoas magras também têm problemas de coração? E que tanto os homens como as mulheres podem ter doenças cardíacas? É verdade que os jovens desportistas e atletas de alta competição também sofrem destas doenças e que os obesos não são os únicos a desenvolver problemas cardiovasculares?
Coração só há um e nós queremos que o trate bem! Pedimos ajuda ao Professor Carlos Perdigão, cardiologista e Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa para alinhar uma série de verdades e mitos sobre o coração. Em jeito de conclusão antecipada, podemos dizer-lhe que os mitos ganharam esta pequena “competição”, o que significa que muitos portugueses ainda estão mal informados. Tire todas as dúvidas!
O cigarro é o maior responsável pelas doenças do coração – Verdade
Na verdade, podemos dizer que o tabaco é o factor de risco que, isoladamente, mais contribui para as doenças cardiovasculares. Na União Europeia, 20% do total das mortes por doenças cardiovasculares são atribuídas ao tabaco. E não são apenas os fumadores activos que sofrem estas consequências.
Os estudos mostram que viver com um fumador aumenta o risco de doença cardiovascular, entre os não fumadores, em cerca de 25 a 30 por cento. Além de que, em presença de outros factores de risco, como a hipertensão arterial ou o colesterol elevado, a exposição ao fumo do tabaco aumenta o risco cardiovascular de forma exponencial.
Só os obesos têm problemas de coração – Mito
Não é verdade. O excesso de peso é um factor de risco importante, especialmente porque facilita o aparecimento de outros factores de risco de doença cardiovascular, como a hipertensão arterial e a diabetes. Mas os magros também têm doenças do coração.
É importante difundir a ideia de que o risco cardiovascular é dado pelo conjunto de todos os factores de risco em presença: hipertensão arterial, colesterol elevado, consumo de tabaco, excesso de peso, diabetes, inactividade física, para além da idade e do sexo.
O café faz mal ao coração – Mito
Não se pode fazer essa afirmação. O excesso de café, como em regra todos os excessos, é que pode fazer mal. Claro que há pessoas que não toleram o café, por ser excitante, por estimular o sistema nervoso simpático. Pode provocar-lhes taquicardia (aumento da frequência cardíaca) ou insónias. A reacção ao consumo de café é individual, pelo que tem que ser vista caso a caso.
As doenças cardíacas afectam mais os homens do que as mulheres – Mito
Também não é verdade. Tem sido uma ideia que durante muitos anos se estabeleceu entre a população e que influenciou a própria actuação médica. As doenças cardiovasculares são pelo menos tão frequentes nas mulheres como nos homens, só que nas mulheres surgem oito a dez anos mais tarde.
Este conhecimento é muito importante porque implica que a correcção dos factores de risco e a implementação de estilos de vida saudáveis ao longo da vida é tão importante na mulher como nos homens.
As pessoas magras e sedentárias não têm problemas de coração – Falso
Essa é uma ideia completamente errada. As pessoas magras têm apenas menos um factor de risco que é o excesso de peso. Mas se tiverem os outros factores de risco e, portanto, um risco global elevado, têm a mesma prevalência de doenças cardiovasculares. O sedentarismo é um factor de risco de doenças cardiovasculares, quer em magros, quer em obesos.
Claro que os obesos beneficiam particularmente de exercício físico porque os ajuda a reduzir o peso e facilita o controlo de situações, como a pressão arterial elevada ou a diabetes.
A alimentação saudável é a melhor forma de prevenir as doenças do coração – Verdade
A alimentação saudável, integrada no conjunto de estilos de vida saudável, é sem dúvida uma excelente forma de prevenir as doenças do coração. Muitos dos factores de risco de doença cardiovascular surgem associados a uma má alimentação: o excesso de calorias, o elevado consumo de sal, o abuso dos açucares e das gorduras saturadas, a alimentação pobre em frutos e vegetais frescos, tem uma influência negativa na saúde cardiovascular.
Jovens desportistas ou atletas de alta competição não têm problemas cardíacos – Mito
Completamente errado. O desporto de competição não tem qualquer efeito benéfico ou preventivo nas doenças cardiovasculares. Pode até agravar doenças cardiovasculares pré-existentes. Temos aqui que distinguir duas situações. Por um lado, quando falamos no benefício do exercício físico, estamos a considerar o exercício físico moderado e adaptado às capacidades, à idade e até aos interesses e gosto de cada indivíduo.
A marcha, a natação, a frequência de um ginásio em exercícios aeróbicos são actividades saudáveis que se enquadram nos estilos de vida saudável que hoje recomendamos. A actividade desportiva mais intensa, ou mesmo de competição, pode ser praticada por quem nisso faça gosto e para isso tenha preparação, desde que um exame médico rigoroso exclua quaisquer contra-indicações para a actividade pretendida.
As crianças não têm problemas de coração – Mito
Embora as manifestações das doenças do coração de natureza ateroscrerótica surjam em regra na idade adulta, é hoje aceite que estas doenças se podem iniciar muito precocemente, sendo recomendado que desde o nascimento (ou mesmo desde a vida fetal) se tenham em conta medidas de prevenção em relação à obesidade, à hipertensão arterial e à hipercolesterolemia, o que passa essencialmente por medidas de carcter alimentar (aleitamento materno, redução de sal, da ingestão calórica). Por isso se recomenda que as crianças a partir dos dois, três anos, sejam habituadas ao consumo diário de frutos, vegetais, cereais, leguminosas, produtos lácteos de reduzido teor em gordura saturada, bem como peixe e carnes magras, redução de açúcar e sal. Também é reconhecido que as crianças em que as mães tiveram problemas de diabetes, dislipidemia ou hipertensão arterial durante a gravidez, têm maior probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares quando adultos.
Algumas situações genéticas, como as hipercolesterolemias familiares, embora raras, podem fazer com que a doença cardiovascular aterosclerótica seja muito precoce. Hoje em dia, os médicos já estão muito alertados para o despiste e tratamento destas situações.
Um caso de sucesso
Cirurgia correctiva resolve problema de coração da Beatriz
Há pouco mais de um ano, Tatiana Rodrigues e Sérgio Silva estavam radiantes com o nascimento da Beatriz. Vinte e quatro horas depois do parto chegava uma notícia inesperada: a bebé sofria de cardiopatia congénita. Isto significa que tinha uma má formação no coração com uma dupla saída do ventrículo direito. “O pulmão recebia muito mais sangue do que o necessário, provocando mais esforço, mais cansaço e ela poderia ficar roxa à volta dos lábios”, explicam.
Após o nascimento, a pediatra do Hospital de São Francisco Xavier alertou os pais para o facto de a bebé ter “um sopro mais elevado do que o normal”. Ficaram em pânico pois o “médico avisou-nos que ela poderia ficar roxa e com falta de ar. No entanto, o tempo foi passando e o caso clinico foi sempre estável e a Beatriz mantinha as saturações de oxigénio nos valores normais”, afirmam.
Primeiros dois meses de vida passados em casa
Por precaução, nos primeiros dois meses, os pais não saíram de casa com a Beatriz com medo que ela se constipasse. Um pouco mais tarde, verificou-se que “a situação era estável e conseguimos começar a ter uma vida relativamente normal, mas tínhamos de evitar frequentar centros comerciais, ambientes com fumo e o contacto com crianças que estivessem constipadas”.
O último ano foi vivido “em desespero pois a Beatriz tinha de aumentar de peso para poder ser operada”. No passado mês de Abril, chegou a altura de realizar a operação. “A cirurgia correctiva de peito aberto durou perto de cinco horas, não havia possibilidade de ser feito cateterismo, e era a única maneira de corrigir o problema”. O pós-operatório foi mais demorado pois a Beatriz desenvolveu um derrame na pleura que aumentou sem explicação e passado três dias “já tinha enchido todo o pulmão direito. No quarto dia, foi drenada, a partir daí começou a recuperar e cinco dias depois teve alta”.
Passado o susto, a Beatriz já pode ter uma vida praticamente normal. No entanto, “temos de ter cuidado ao pegar ao colo e não se pode constipar. Temos de ir regularmente a consultas de cardiolgia e este ano também não é aconselhável que a cicatriz apanhe sol”. Os pais sentem finalmente que o problema foi ultrapassado. “Apesar de ser uma angústia constante, a medicina está muito evoluída e os médicos traquilizam-nos com a experiência que têm neste tipo de cirurgias”, concluem.
Jornal do Centro de Saúde
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