O estudo dos efeitos do exercício físico na saúde, é, actualmente, uma das principais preocupações da Medicina do Exercício. Tanto o desporto de lazer como o de alto rendimento, apresentam riscos e eventuais benefícios cuja especificidade importa considerar.
Admite-se que existe uma estreita relação entre os hábitos de actividade física, a condição psico-fisiológica e a saúde. As patologias de causa hipocinética (sedentarismo), frequentes na nossa sociedade, são invariavelmente responsabilizadas pela degradação do estado de saúde, em suma, pela progressiva perda de capacidade de adaptação aos estímulos que nos rodeiam.
Implicações na saúde
Neste contexto, acreditamos ser mais lógico considerar a saúde como estado global, de âmbito não só biológico, mas também psicológico e social, sendo a tolerância ao esforço físico uma das variáveis da qualidade de vida. Dotar o indivíduo dos mecanismos adaptativos necessários à resposta adequada aos agentes que possam pôr em risco ou perigar a saúde, constitui o objectivo principal de um programa de actividade física.
“Massa gorda” – O excesso de peso e obesidade
A importância da componente morfológica da condição física advém da forte relação que evidencia com as condições de morbilidade e taxa de mortalidade.
A relação entre a massa corporal e a altura é expressa pelo índice de massa corporal (quociente entre a massa corporal e o quadrado da altura em metros). Valores elevados ou demasiadamente baixos para este índice relacionam-se significativamente com a taxa de mortalidade. O excesso de peso pode ser estatisticamente associado a perturbações da tolerância oral à glucose, hiperinsulinémia, hipertensão arterial, hipertrigliceridémia e certas formas de dislipoproteinémia. Uma amplitude de variação entre 20 e 25, considera-se satisfatória para uma população de adultos jovens. Estes valores tendem a elevar-se ligeiramente com a idade.
Vários estudos e ensaios científicos apontam para a existência de uma correlação directa e significativa entre a massa gorda, perfil lipídico, sensibilidade à insulina, pressão arterial, doenças cardíacas e risco de aterosclerose, responsavéis por elevadas taxas de mortalidade, mesmo no indivíduo não idoso, na faixa média da vida. A distribuição de gordura subcutânea é um indicador importante de risco acrescido de doenças cardiovasculares e metabólicas no adulto. A distribuição adiposa sub-cutânea regional característica do sexo masculino, localizada na região do tronco, mais particularmente a nível abdominal, exibe uma correlação estatisticamente significativa com uma maior resistência à acção insulínica – hiperinsulinémia e um perfil lipídico e hemodinâmico claramente identificado com uma maior aterogenecidade.
Exercício e massa óssea
Ainda no âmbito da componente morfológica considera-se a massa óssea como indicador do estado de saúde. O funcionamento mecânico do sistema osteo-músculo-articular é um meio de protecção do organismo, nomeadamente na manutenção da mobilidade.
As forças mecânicas que se opõem à gravidade, através da actividade muscular, são os factores que mais contribuem para a manutenção ou recuperação da massa e resistência ósseas. O osso é um tecido vivo, em constante remodelação.
Regra geral, o pico da massa óssea é atingido durante a terceira década de vida, ocorrendo, nas etapas subsequentes, uma progressiva perda. O nível máximo de massa óssea e a sua taxa de perda, depende de vários factores, onde a actividade física desempenha papel importante.
Comparativamente com o sedentário, o praticante regular de actividade física, apresenta, para o mesmo escalão etário, níveis superiores de massa óssea. Inversamente, a imobilização provoca uma perda mais rápida.
No ser humano, a osteoporose sem patologia subjacente, é uma consequência inexorável do envelhecimento, que urge retardar, através de programas preventivos. Neste âmbito, assume particular importância o estilo de vida, não existindo substituto eficaz para os aspectos nutricionais e para a actividade física.
O tecido ósseo sofre modificações e adaptações como resposta a estímulos mecânicos. Neste contexto, é importante a influência de factores genéticos, nutricionais e endócrinos, a par da estimulação mecânica é portadora de elevada especificidade, no que concerne à sua metodologia de aplicação e segmentos corporais em que actua. Admite-se a possibilidade de regionalização dos efeitos sobre o tecido ósseo.
Efeitos do sedentarismo na massa óssea
A análise de estados extremos, como sejam a imobilização e a ausência ou redução da força da gravidade, revelam a importância da sobrecarga mecânica na manutenção da massa óssea. Estudos comparativos entre praticantes regulares de actividade física e sedentários, apontam para a necessidade de uma prática física regular para a prevenção e, em alguns casos, na remissão relativa de estados osteopénicos e noutros, de estados osteoporóticos.
Saúde e massa magra – componente muscular
A perda progressiva de massa magra que acompanha o envelhecimento e que se repercute mais activa e precocemente na ausência de actividade física regular, pode comprometer as actividades da vida diária e reflectir-se na auto-suficiência do indivíduo idoso. A manutenção da massa muscular no decurso da vida, só possível quando se solicita a actividade muscular contra resistências significativas – treino da força, permite uma maior integridade não só músculo-esquelética, mas também metabólica. No plano osteo-articular permite uma menor carga ao nível das superfícies articulares e assegura uma maior estabilidade articular.
Quando convenientemente orientados, os programas de actividade física objectivando a manutenção ou desenvolvimento da massa muscular, acompanham-se de uma maior perfusão (irrigação sanguínea) dos tecidos, criando-se desta forma menores condições de instalação de situações isquémicas, maior resistência à fadiga local e aumentos mais moderados da pressão arterial no decurso da actividade muscular.
Como é óbvio, neste âmbito, a auto-satisfação que resulta de uma maior independência ao longo da vida está, inequivocamente, associada à resolução das tarefas mecânicas que se nos deparam ao longo da nossa “luta por uma sobrevivência digna”. A possibilidade de retardar o processo degenerativo inerente à capacidade para produzir força constitui, deste modo, tarefa prioritária nos programas de actividade física regular.
A manutenção da condição muscular pode ser um “antídoto” para várias patologias, tão frequentes nas sociedades industrializadas, fortemente caracterizadas por elevados índices de sedentarismo.
O exercício nas diferentes idades
O desenvolvimento e adaptação motoras, importantes durante o desenvolvimento, onde a criança explora a sua potencialidade para o movimento e desenvolve habilidades motoras básicas, constitui o primeiro passo neste processo.
Em idades avançadas, o equilíbrio e a coordenação assumem importância pelo seu determinismo no controlo postural.
As alterações do equilíbrio e coordenação associados a uma menor resistência muscular, são a causa mais frequente de quedas em indivíduos idosos que, como é sabido, apresentam maior susceptibilidade a fracturas. A sua frequência pode ser reduzida através de programas regulares de actividade física convenientemente orientados.
Componente metabólica
É determinada por vários factores, assumindo particular importância a regulação hormonal, com destaque para as acções metabólicas da insulina e utilização dos substratos energéticos lipídicos (gorduras) e glucídicos (açúcares).
Os programas de actividade física regular reduzem os níveis plasmáticos de insulina. Os mais adaptados, são os de marcha e de estimulação sub-máxima. O aumento da sensibilidade à insulina provocado pelo exercício, é mais evidente no músculo e no fígado. Esta actuação sinérgica explica o benefício do exercício na prevenção de hiperinsulinémias e alterações na tolerância à glucose, mais frequentes a partir da quarta ou quinta década da vida em sedentários.
O risco de doenças ateroescleróticas, particularmente coronariopatias, está associado à elevação da concentração plasmática de triglicéridos e do colesterol das lipoproteínas de baixa densidade (LDL), bem como de uma redução do colesterol das lipoproteínas de alta densidade. Importa referir que, os programas de prescrição de actividade física que se baseiam em programas de intensidade moderada/baixa têm-se revelado mais eficazes e efectivos. Estas constatações, contrariam a necessidade de estimulações de intensidade elevada. Muito provavelmente, reside aqui a explicação para o facto dos ex-atletas não exibirem índices mais elevados de longevidade, nem se encontrarem mais protegidos contra este tipo de patologias.
Raras são as doenças que não beneficiam de uma prática física correctamente prescrita. A avaliação prévia dos eventuais benefícios e restrições, no âmbito de uma prática física segura, caberá ao médico, preferencialmente ao especialista em Medicina do Exercício, até porque, em muitas das situações apontadas, a conjugação com uma terapêutica farmacológica eficaz é inevitável.
Prof. Dr. José Gomes Pereira
Professor Catedrático e Especialista em Medicina Desportiva
Responsável da Unidade de Medicina do Exercíco no British Hospital Campo de Ourique
Admite-se que existe uma estreita relação entre os hábitos de actividade física, a condição psico-fisiológica e a saúde. As patologias de causa hipocinética (sedentarismo), frequentes na nossa sociedade, são invariavelmente responsabilizadas pela degradação do estado de saúde, em suma, pela progressiva perda de capacidade de adaptação aos estímulos que nos rodeiam.
Implicações na saúde
Neste contexto, acreditamos ser mais lógico considerar a saúde como estado global, de âmbito não só biológico, mas também psicológico e social, sendo a tolerância ao esforço físico uma das variáveis da qualidade de vida. Dotar o indivíduo dos mecanismos adaptativos necessários à resposta adequada aos agentes que possam pôr em risco ou perigar a saúde, constitui o objectivo principal de um programa de actividade física.
“Massa gorda” – O excesso de peso e obesidade
A importância da componente morfológica da condição física advém da forte relação que evidencia com as condições de morbilidade e taxa de mortalidade.
A relação entre a massa corporal e a altura é expressa pelo índice de massa corporal (quociente entre a massa corporal e o quadrado da altura em metros). Valores elevados ou demasiadamente baixos para este índice relacionam-se significativamente com a taxa de mortalidade. O excesso de peso pode ser estatisticamente associado a perturbações da tolerância oral à glucose, hiperinsulinémia, hipertensão arterial, hipertrigliceridémia e certas formas de dislipoproteinémia. Uma amplitude de variação entre 20 e 25, considera-se satisfatória para uma população de adultos jovens. Estes valores tendem a elevar-se ligeiramente com a idade.
Vários estudos e ensaios científicos apontam para a existência de uma correlação directa e significativa entre a massa gorda, perfil lipídico, sensibilidade à insulina, pressão arterial, doenças cardíacas e risco de aterosclerose, responsavéis por elevadas taxas de mortalidade, mesmo no indivíduo não idoso, na faixa média da vida. A distribuição de gordura subcutânea é um indicador importante de risco acrescido de doenças cardiovasculares e metabólicas no adulto. A distribuição adiposa sub-cutânea regional característica do sexo masculino, localizada na região do tronco, mais particularmente a nível abdominal, exibe uma correlação estatisticamente significativa com uma maior resistência à acção insulínica – hiperinsulinémia e um perfil lipídico e hemodinâmico claramente identificado com uma maior aterogenecidade.
Exercício e massa óssea
Ainda no âmbito da componente morfológica considera-se a massa óssea como indicador do estado de saúde. O funcionamento mecânico do sistema osteo-músculo-articular é um meio de protecção do organismo, nomeadamente na manutenção da mobilidade.
As forças mecânicas que se opõem à gravidade, através da actividade muscular, são os factores que mais contribuem para a manutenção ou recuperação da massa e resistência ósseas. O osso é um tecido vivo, em constante remodelação.
Regra geral, o pico da massa óssea é atingido durante a terceira década de vida, ocorrendo, nas etapas subsequentes, uma progressiva perda. O nível máximo de massa óssea e a sua taxa de perda, depende de vários factores, onde a actividade física desempenha papel importante.
Comparativamente com o sedentário, o praticante regular de actividade física, apresenta, para o mesmo escalão etário, níveis superiores de massa óssea. Inversamente, a imobilização provoca uma perda mais rápida.
No ser humano, a osteoporose sem patologia subjacente, é uma consequência inexorável do envelhecimento, que urge retardar, através de programas preventivos. Neste âmbito, assume particular importância o estilo de vida, não existindo substituto eficaz para os aspectos nutricionais e para a actividade física.
O tecido ósseo sofre modificações e adaptações como resposta a estímulos mecânicos. Neste contexto, é importante a influência de factores genéticos, nutricionais e endócrinos, a par da estimulação mecânica é portadora de elevada especificidade, no que concerne à sua metodologia de aplicação e segmentos corporais em que actua. Admite-se a possibilidade de regionalização dos efeitos sobre o tecido ósseo.
Efeitos do sedentarismo na massa óssea
A análise de estados extremos, como sejam a imobilização e a ausência ou redução da força da gravidade, revelam a importância da sobrecarga mecânica na manutenção da massa óssea. Estudos comparativos entre praticantes regulares de actividade física e sedentários, apontam para a necessidade de uma prática física regular para a prevenção e, em alguns casos, na remissão relativa de estados osteopénicos e noutros, de estados osteoporóticos.
Saúde e massa magra – componente muscular
A perda progressiva de massa magra que acompanha o envelhecimento e que se repercute mais activa e precocemente na ausência de actividade física regular, pode comprometer as actividades da vida diária e reflectir-se na auto-suficiência do indivíduo idoso. A manutenção da massa muscular no decurso da vida, só possível quando se solicita a actividade muscular contra resistências significativas – treino da força, permite uma maior integridade não só músculo-esquelética, mas também metabólica. No plano osteo-articular permite uma menor carga ao nível das superfícies articulares e assegura uma maior estabilidade articular.
Quando convenientemente orientados, os programas de actividade física objectivando a manutenção ou desenvolvimento da massa muscular, acompanham-se de uma maior perfusão (irrigação sanguínea) dos tecidos, criando-se desta forma menores condições de instalação de situações isquémicas, maior resistência à fadiga local e aumentos mais moderados da pressão arterial no decurso da actividade muscular.
Como é óbvio, neste âmbito, a auto-satisfação que resulta de uma maior independência ao longo da vida está, inequivocamente, associada à resolução das tarefas mecânicas que se nos deparam ao longo da nossa “luta por uma sobrevivência digna”. A possibilidade de retardar o processo degenerativo inerente à capacidade para produzir força constitui, deste modo, tarefa prioritária nos programas de actividade física regular.
A manutenção da condição muscular pode ser um “antídoto” para várias patologias, tão frequentes nas sociedades industrializadas, fortemente caracterizadas por elevados índices de sedentarismo.
O exercício nas diferentes idades
O desenvolvimento e adaptação motoras, importantes durante o desenvolvimento, onde a criança explora a sua potencialidade para o movimento e desenvolve habilidades motoras básicas, constitui o primeiro passo neste processo.
Em idades avançadas, o equilíbrio e a coordenação assumem importância pelo seu determinismo no controlo postural.
As alterações do equilíbrio e coordenação associados a uma menor resistência muscular, são a causa mais frequente de quedas em indivíduos idosos que, como é sabido, apresentam maior susceptibilidade a fracturas. A sua frequência pode ser reduzida através de programas regulares de actividade física convenientemente orientados.
Componente metabólica
É determinada por vários factores, assumindo particular importância a regulação hormonal, com destaque para as acções metabólicas da insulina e utilização dos substratos energéticos lipídicos (gorduras) e glucídicos (açúcares).
Os programas de actividade física regular reduzem os níveis plasmáticos de insulina. Os mais adaptados, são os de marcha e de estimulação sub-máxima. O aumento da sensibilidade à insulina provocado pelo exercício, é mais evidente no músculo e no fígado. Esta actuação sinérgica explica o benefício do exercício na prevenção de hiperinsulinémias e alterações na tolerância à glucose, mais frequentes a partir da quarta ou quinta década da vida em sedentários.
O risco de doenças ateroescleróticas, particularmente coronariopatias, está associado à elevação da concentração plasmática de triglicéridos e do colesterol das lipoproteínas de baixa densidade (LDL), bem como de uma redução do colesterol das lipoproteínas de alta densidade. Importa referir que, os programas de prescrição de actividade física que se baseiam em programas de intensidade moderada/baixa têm-se revelado mais eficazes e efectivos. Estas constatações, contrariam a necessidade de estimulações de intensidade elevada. Muito provavelmente, reside aqui a explicação para o facto dos ex-atletas não exibirem índices mais elevados de longevidade, nem se encontrarem mais protegidos contra este tipo de patologias.
Raras são as doenças que não beneficiam de uma prática física correctamente prescrita. A avaliação prévia dos eventuais benefícios e restrições, no âmbito de uma prática física segura, caberá ao médico, preferencialmente ao especialista em Medicina do Exercício, até porque, em muitas das situações apontadas, a conjugação com uma terapêutica farmacológica eficaz é inevitável.
Prof. Dr. José Gomes Pereira
Professor Catedrático e Especialista em Medicina Desportiva
Responsável da Unidade de Medicina do Exercíco no British Hospital Campo de Ourique