A visão é um bem, todos os dias, renovado pela vida. Felizmente, não necessitamos pensar para ver, mas podemos ver melhor se pensarmos.
Ver é um milagre que, ao longo da evolução das espécies, se tem adaptado de forma progressiva às necessidades dos seres. Ver é sentir mais… ouvimos melhor se virmos os movimentos dos lábios de quem fala. Sentimos melhor o gosto se virmos os alimentos ou um doce…
Sentimos melhor o tacto se virmos aquilo em que tocamos. Sentimos melhor um cheiro se virmos algo que entrou pelos nossos olhos e de que gostamos. Ver é um privilégio da vida que um dia pode atenuar-se ou extinguir-se.
Nenhum de nós seria feliz na cidade ficcionada por José Saramago no ” Ensaio sobre a Cegueira”. Nenhum de nós será feliz se um dia tiver um grave problema de visão. Muitos dos nossos antepassados cegaram por doenças, hoje, raras.
Quantos marinheiros tiveram problemas graves de visão pela falta de vitamina A? Quantas pessoas chegaram ao fim da vida só com percepção de luz por uma simples catarata? Quantas crianças perderam visão porque tiveram sarampo?
“Passos de gigante”
Hoje, estas e muitas outras doenças são prevenidas ou têm tratamento. No século XX, a Medicina deu passos de gigante que nos permitem viver mais e com melhor qualidade de vida. A Oftalmologia, como ramo da ciência médica, diferenciou-se.
E é, actualmente, uma das especialidades mais tecnológicas e exigentes. A noção de ver bem, até há poucos anos proporcionada pelas próteses oculares, óculos ou lentes de contacto, foi ultrapassada pela noção de qualidade de visão.
Ver bem implica ter boa acuidade visual, ter bons campos visuais, boa visão cromática e boa sensibilidade ao contraste. A complexidade dos diagnósticos e dos tratamentos tornou a Oftalmologia numa especialidade muito mais exigente e diferenciada.
Más práticas, por impreparação ou negligência, deverão ser banidas pelas leis do Estado ou pela selecção natural que os utentes melhor informados possam vir a realizar.
Num futuro próximo, tudo será mais complexo e também mais simples. A investigação médico-oftalmológica será necessariamente mais elaborada, será mais objectiva porque estará mais próxima da matemática e da física. Os doentes não serão observados de forma subjectiva. Os algoritmos encarregar-se-ão de interagir para conduzirem a diagnósticos exactos.
Os médicos Oftalmologistas tratarão os doente de forma objectiva, quase perfeita, mas, paradoxalmente, deverão continuar a fazer ciência subjectiva na transcendência da relação humana.
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Glaucoma: 100 mil doentes diagnosticados em Portugal
Dia após dia, a visão de 100 mil portugueses vai-se apagando, em virtude de um “ladrão sorrateiro” que dá pelo nome de glaucoma. Trata-se de uma doença de foro oftalmológico que afecta as fibras nervosas do nervo óptico e que começa por “danificar” a visão periférica.
Para Carlos Nunes da Silva, oftalmologista no Hospital dos Covões, em Coimbra, e coordenador do Grupo Português de Glaucoma, “um dos grandes problemas no diagnóstico é que esta patologia só dá sintomas em fase avançada”.
Quer isto dizer que, quando o doente procura o oftalmologista, porque começa a perder a visão, “pelo menos 50% das fibras ópticas [estruturas responsáveis pela transmissão da informação visual ao cérebro] já estão destruídas. Este responsável alerta para a probabilidade de os doentes cegarem “aos 40 ou 50 anos”, caso o diagnóstico não seja efectuado precocemente.
Uma dos problemas registados nesta matéria é a baixa adesão do doente à terapêutica, que consiste na aplicação de gotas (colírios) nos olhos. Segundo o Dr. António Travassos, presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, “só 30 a 40% dos doentes cumprem rigorosamente as prescrições aconselhadas”.
Para este especialista não faz sentido protelar o diagnóstico, já que as ferramentas actualmente desenvolvidas, nomeadamente estudos da visão cromática, permitem “detectar mais precocemente as alterações do glaucoma”.
Jornal do Centro de Saúde
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