Entre a mania e a depressão. Assim vivem os doentes bipolares. Uma doença tantas vezes coabitando com a criatividade e a genialidade. De Fernando Pessoa a Tchaikovsky, de Van Gogh a Francis Ford Coppola, de Florbela Espanca a Kurt Cobain. Só para dar alguns exemplos…
O conhecimento da doença bipolar é ainda escasso, nomeadamente quanto às suas origens. Sabe-se que esta perturbação do humor está relacionada com a hereditariedade, na medida em que mais de dois terços dos doentes têm antecedentes familiares. O que está por identificar são os genes que justificam esta predisposição.
Também os neurotransmissores parecem estar envolvidos, tendo sido identificadas alterações nestes doentes face a pessoas saudáveis. Aliás, os investigadores tendem a relacionar os dois factores, inclinando-se para a hipótese de a causa da doença bipolar estar nos genes que regulam os neurotransmissores.
O que se sabe também é que o consumo de álcool e substâncias psicotrópicas potencia os episódios maníaco-depressivos. Outra hipótese em estudo prende-se com o fenómeno da sensibilização, com os primeiros episódios da doença a serem desencadeados por acontecimentos traumatizantes, após o que cada nova crise induz alterações a nível do cérebro, até que as oscilações de humor passam a ser espontâneas.
Entre a “loucura” e a arte são frequentemente estabelecidas linhas paralelas. De quando em vez organizam-se colóquios e simpósios para discutir esta relação estranha entre a doença mental e a criatividade. Nessas discussões é comum falar-se da doença bipolar. Os compositores Schumann e Tchaikovsky eram bipolares. O músico Kurt Cobain também. Peter Gabriel e Axl Rose igualmente. Vitor Hugo, autor de Os Miseráveis, sofria crises de mania e depressão, o mesmo sucedendo com Hemingway. Van Gogh pintava sob a influência da doença. O realizador Francis Ford Coppola é outro artista que lhe conhece os sintomas. Na cultura portuguesa, sabe-se que a doença bipolar afectou autores como Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Florbela Espanca. O que não se sabe é em que medida lhes estimulou a criatividade…
Entre uma crise de mania e uma crise de depressão, o doente vive períodos de estabilidade, sendo que cada crise pode prolongar-se por dias. Calcula-se que a doença bipolar afecte um por cento da população, o que corresponde a cerca de 100 mil portugueses em idade adulta.
Homens e mulheres apresentam a mesma probabilidade de a desenvolver, com os primeiros sintomas a evidenciar-se quase sempre na adolescência, podendo passar-se muitos anos sem que a doença seja efectivamente diagnosticada e tratada.
Os doentes bipolares vivem intercalando as crises com períodos de estabilidade, que podem durar apenas dias ou prolongar-se por meses e até anos.
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Vejamos quais são os sinais destes altos e baixos do humor:
Mania
• Alterações emocionais súbitas
• Irritabilidade excessiva
• Pensamentos acelerados
• Fala demasiado rápida
• Reacção excessiva a determinados estímulos
• Percepção errada dos acontecimentos
• Aumento desmedido da auto-estima
• Optimismo exacerbado
• Comportamentos imprudentes
• Energia excessiva
• Diminuição da necessidade de dormir
• Aumento da libido
Depressão
• Sentimento de inutilidade
• Desespero
• Preocupação excessiva com os fracassos
• Baixa auto-estima
• Pensamentos lentos, dificuldade de concentração
• Perda de interesse pelo trabalho, pelos hobbies e pelas pessoas
• Alterações do apetite e do peso
• Alterações do sono
• Diminuição do desejo sexual
• Choro fácil ou vontade de chorar sem ser capaz
• Ideias de morte
Estes sinais e sintomas são, geralmente, acompanhados de uma noção irrealista dos acontecimentos e da realidade, bem como do consumo excessivo de álcool e outras substâncias.
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Importante é estabilizar o humor
Estamos, com efeito, perante uma doença muito desestabilizadora, com claros reflexos na vida familiar, profissional e social. É certamente difícil lidar com tamanha instabilidade, tanto mais que uma característica comum a estes doentes é a recusa, a negação dos sintomas e, com frequência, uma procura tardia de ajuda médica.
É um facto que não existe cura, mas existem grandes probabilidades de manter a doença controlada, prevenindo, evitando ou encurtando as crises e a sua gravidade. Os tratamentos disponíveis reduzem significativamente o sofrimento e evitam as suas complicações mais devastadoras. Basta dizer que, se não tratada, a doença pode conduzir ao suicídio.
O benefício advém dos chamados estabilizadores de humor, medicamentos cuja acção diminui a probabilidade de recaídas, tanto das crises de depressão como das de mania. Na primeira linha, está, nomeadamente, o lítio, considerado particularmente eficaz no controlo da mania. Em alternativa ou em complemento são usados fármacos à base de carbamazepina e de valproato (substâncias anticonvulsivantes).
Além disso, as crises depressivas são geralmente tratadas com antidepressivos e as de mania com antipsicóticos. A psicoterapia é igualmente um recurso frequente, sendo que estes doentes dependem muito do apoio psicológico.
Com frequência, as pessoas afectadas atribuem os seus comportamentos extremos a outras causas, resistindo a aceitar a ideia de que se trata de uma doença. Lidar com a doença bipolar pode ser difícil, mas existem associações de doentes e grupos de auto-ajuda que se podem revelar muito valiosos.
Para que o humor deixe de andar na montanha russa e passe a viajar por caminhos mais estáveis.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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