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Distúrbio alimentar: A compulsão de comer

Quando as crianças comem este mundo e o outro, nem sempre isso é sinal de um apetite saudável: comer de uma forma compulsiva pode esconder um distúrbio alimentar. É, pois, preciso estar atento para intervir o mais cedo possível.

Há crianças que revelam um apetite insaciável, devorando em escassos minutos um pacote de bolachas, outro de batatas fritas, fazendo verdadeiras razias à dispensa e ao frigorífico.

Nada parece ser suficiente para as saciar, levando os pais a interrogarem-se se estará tudo bem.

E a maioria das vezes está. Sobretudo quando este apetite sem limites coincide com uma daquelas fases de crescimento, como acontece na transição para a adolescência. De repente, dão um “salto” no seu desenvolvimento, carecendo de nutrientes adicionais para alimentar o novo corpo.

Mas, também pode acontecer que essa compulsão para comer esconda um distúrbio alimentar. Assim é se a criança adoptar algum secretismo em torno deste comportamento ou se ele a fizer sentir-se culpada.

São muitas as emoções em jogo na nossa relação com a comida. Basta pensar que ela está presente em todas as celebrações: os aniversários festejam-se à mesa e o Natal é sinónimo de manjar atrás de manjar…

Comer conforta, disso não há dúvida. Quem já não cedeu a um tentador chocolate num momento de maior tristeza ou ansiedade?

A diferença é que quem sofre do distúrbio de comer compulsivamente, seja um adulto, seja uma criança, começa por encontrar calma e conforto nos alimentos mas rapidamente vê esses sentimentos serem substituídos por vergonha e culpa. Em causa estão grandes quantidades de alimentos, que não são apreciados mas apenas devorados, na companhia de uma sensação de falta de controlo.

Apesar de conhecido, é, no entanto, difícil diagnosticar este distúrbio nas crianças. A criança que come desta forma compulsiva sente-se demasiado embaraçada para falar com os pais, mesmo sabendo-se que a situação a perturba. Além disso, como geralmente este comportamento se repete sem a presença de outras pessoas não é fácil aos pais darem pelo excesso e pelo padrão. E, mesmo que a criança esteja a ganhar peso – e é muito provável que isso aconteça – os pais não têm dados que lhes permitam suspeitar de que há um distúrbio subjacente.
Não é fácil determinar que há um problema.

Os pais vão-se apercebendo à medida que dão pela falta de grandes quantidades de comida na dispensa ou no frigorífico. A criança vai dando outros sinais: come mais depressa do que o habitual, come mesmo sem fome (por exemplo, imediatamente após uma refeição), come até se sentir desconfortavelmente cheia, come sozinha ou às escondidas. A descoberta de embalagens ou recipientes vazios no quarto da criança – debaixo da cama ou num armário – é outro indicador para os pais.

Quando a criança come compulsivamente, acaba por sentir vergonha ou culpa. E quando é dominada por estes sentimentos pode ser tentada a evitar o contacto social, por exemplo faltando à escola ou negando-se a estar com os amigos. São igualmente sinais de alerta importantes.

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Perante estes sinais, é conveniente procurar ajuda médica. Não é fácil diagnosticar um distúrbio alimentar numa criança, mas é importante agir o mais cedo possível de modo a corrigir comportamentos e prevenir consequências para a saúde.

Mas, tão importante como o tratamento profissional, é o modo como os pais abordam o problema com a criança e o apoio que lhe dão. É fundamental falar com a criança quando há suspeita de um distúrbio, neste caso se há suspeita de que ela come compulsivamente. Há que explicar-lhe que esse comportamento pode constituir um problema e que pode ser necessária ajuda médica.

São, contudo, de evitar referências ao aumento de peso e à aparência – são assuntos a que a criança (sobretudo na fase da adolescência) é muito sensível e que lhe despertam sentimentos contraditórios. Centrar a conversa nos comportamentos e sentimentos pode ser mais eficaz. Ao mesmo tempo, é importante que à criança sejam proporcionadas alternativas saudáveis para se alimentar, mas sem forçá-la a restrições drásticas.

O excesso de peso associado ao comer compulsivamente pode ter consequências a prazo: hipertensão, colesterol elevado, diabetes, doença cardiovascular, depressão e ansiedade.

Daí a importância de intervir precocemente. Até porque lidar com um distúrbio alimentar leva tempo, exige perseverança. O problema não se instalou de um dia para o outro e também não será de um dia para o outro que desaparecerá. Vencê-lo é um desafio para os pais e para a criança.

 

Outros distúrbios

A compulsão está presente em todos os distúrbios alimentares, mas há traços que distinguem o comer compulsivamente da bulimia e da anorexia.

Assim, na bulimia o empanturramento é seguido de um comportamento de purga, que tanto pode ser o vómito provocado como a toma de laxantes. O objectivo é evitar ganhar peso. Com o mesmo propósito, um bulímico também pode alternar períodos de compulsão com períodos dejejum ou fazer exercício excessivo.

Na anorexia, o receio de ganhar peso leva a pessoa a passar fome, desenvolvendo uma compulsão com a quantidade de comida que ingere, controlando-a à ínfima porção. Pode haver igualmente tendência para o exercício excessivo para perder peso.

Em todas as situações, estes comportamentos são acompanhados de vergonha e culpa, envolvendo, além disso, sérios riscos para a saúde.

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

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