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Dente por dente…

Hoje em dia, já não existem desculpas para torcer o nariz quando lhe pedirem um sorriso de orelha a orelha. Ter uma boca sã está ao alcance de qualquer pessoa: basta, para isso, fazer apenas duas a três escovagens diárias. Se prevenir sai mais barato do que remediar, porque não começar a investir, desde cedo, numa dentição à prova de cáries?

Um estudo realizado pela Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária (SPEMD) revela que 36% das crianças dos 1 aos 7 anos apresentam cáries. E, entre os 8 e os 16 anos, 47% tinham cáries na dentição permanente. Segundo o Dr. Luís Valadares, médico dentista, a cárie dentária é um dos problemas mais frequentes na infância e na adolescência.

“Apesar de haver uma melhoria progressiva destes valores, os dados são preocupantes. De acordo com as metas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em matéria de saúde oral, espera-se que, até 2020, pelo menos 80% (em Portugal, os valores rondam os 51%) das crianças com seis anos esteja livre de cáries. Outra das directrizes aponta para que, aos 12 anos, não haja mais de que 1,5 dentes cariados, perdidos e obturados.”

Para o especialista, “estas situações estão na origem da dor, perda prematura dos dentes de leite, o que poderá causar alterações na cronologia de erupção dos dentes definitivos”. Em última instância, “pode vir a ser necessário usar aparelhos dentários de correcção”, acrescenta.

Na esmagadora maioria dos casos, os fracos cuidados de higiene oral e os maus hábitos alimentares justificam o aparecimento de cáries. Assim, e para se evitarem males maiores, Luís Valadares reforça a importância da prevenção primária: “Os pais devem iniciar a higiene oral dos seus filhos desde o nascimento. Primeiro, com uma gaze e soro, limpando os restos de leite das gengivas. E, depois, por volta dos quatro meses de idade com uma escova adequada para que a criança se habitue.”

Embora a esmagadora das crianças use chupeta ou chuche no dedo, Luís Valadares adverte para o perigo de este hábito se prolongar para além dos dois anos de idade. Em gíria médica, a “mordida aberta” consiste na incapacidade de “sobrepor os dentes da frente do maxilar superior com os da arcada inferior”. Até aos três anos de vida, é possível corrigir a mordida aberta, “removendo o estímulo que a está a provocar”, indica o especialista. Depois dessa idade, “não existindo nenhum hábito parafuncional”, a correcção passa por uma eventual utilização de aparelhos funcionais.

 

Desfazer os tabus

Ir ao dentista ou não ir? Eis uma questão levantada por muitas grávidas. Mas, apesar de inúmeros tabus, a Prof.ª Virgínia Milagre, médica estomatologista, diz que não há razões para ter medo, até porque, no período de gestação, é frequente surgir uma situação que os médicos designam por “gengivite gravídica”. “Os estudos mostraram haver uma correlação entre a gengivite gravídica e o risco de parto prematuro”, aponta a especialista.

“As alterações hormonais durante a gravidez modificam o PH da saliva e alteram a flora bacteriana, razão pela qual existe uma maior propensão a sofrer inflamação das gengivas e até sangramento”, acrescenta. “Contrariamente ao que diz o ditado, hoje em dia, as mulheres já não têm razões para perder dentes durante a gestação, caso tenha cuidados de higiene.”

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Assim, antes de planear ter um filho, a mulher deve realizar uma consulta no dentista, até mesmo para tratar eventuais cáries, já que certos estudos provam existir um risco de transmissão da progenitora para o bebé. “O simples acto de soprar a sopa ou o de chupar a tetina são o suficiente para que a cárie passe para a criança.”

Embora algumas mulheres fiquem de pé atrás na hora de efectuarem alguns tratamentos dentários, Virgínia Milagre diz que não há motivo para alimentar os tabus. “Actualmente, a quantidade de radiação de uma radiografia apical (localizada) é tão pequena que seria preciso efectuar milhares de exames para que isso produzisse efeitos no feto. Mas ainda há profissionais de saúde que se privam de tirar uma radiografia, precisamente por causa das falsas ideias que alimentam sentimentos de medo.”

O mesmo em relação à administração de anestesia ou antibióticos: “Há fármacos inócuos e que podem ser usadas pelas grávidas sem qualquer problema, desde que sejam prescritos pelo médico dentista ou obstetra. Se a gestante tiver dores tem de ser tratada e até pode desvitalizar um dente, caso haja envolvimento do nervo, resultante de uma cárie.”

 

Consulta gratuita para gestantes

Estar grávida não é, portanto, motivo para evitar ter os cuidados necessários de saúde. Este foi, aliás, o mote para que Virgínia Milagre, depois de ter conhecido uma iniciativa no estrangeiro, apresentasse a ideia de fundar uma consulta da grávida e dos bebés dos 0 aos 3 anos em Portugal. A proposta foi acolhida pelo Instituto Superior de Ciência da Saúde Egas Moniz e, em 2004, nasce a primeira consulta de Medicina Dentária destinada exclusivamente a estes grupos.

Embora se trate de uma entidade privada, os cuidados de saúde oral são disponibilizados a custo zero. Qualquer grávida ou puérpera (desde que acompanhada durante a gestação) e os respectivos rebentos até aos 3 anos de idade podem aceder a esta consulta, independentemente da área de residência. Para isso, basta marcar o número 21 294 67 27.

A especialista indica que, em pouco mais de cinco anos, os resultados são já bastantes animadores: “os filhos das mulheres seguidas durante a gravidez não apresentam cáries”. Estes dados provam que “a implementação de hábitos de higiene regular” faz toda a diferença quando se fala em saúde oral, já que “a principal causa de problemas orais deriva da falta de cuidados”.

 

Apostar na prevenção

As lesões gengivais e as cáries estão entre as principais complicações orais no adulto, atingindo, respectivamente, 78 e 70% deste grupo etário. Segundo o Prof. José Pedro Figueiredo, presidente da Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentário (SPEMD), em causa estão situações graves que podem comprometer o “suporte ósseo”, responsável pela fixação dos dentes nas arcadas.

Para o especialista, uma das consequências da falta de higiene oral é a perda de dentes. “Praticamente todos os adultos sofrem de desdentações parciais, o que nos leva a crer que a saúde oral, no século XXI, ainda é altamente deficitária no nosso país.” O mesmo especialista adianta, no entanto, a prevenção primária é a palavra-chave para manter uma boa cavidade oral.

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“A causa número um das doenças gengivais é a placa bacteriana. Trata-se de uma doença infecciosa, em que as bactérias, intimamente relacionadas com as gengivas, vão destruindo o ligamento periodontal, ou seja, o tecido que une o osso aos dentes.” Para se saber se existe placa bacteriana, “basta verificar a existência de tártaro”, que mais não é do que “placa bacteriana calcificada”.

Neste tipo de situações, o tratamento é exactamente igual à prevenção: escovar diariamente os dentes. Mas nem sempre uma higiene oral é o suficiente. Como tal, o especialista diz que, semestralmente, se deve marcar uma consulta no dentista, para que este profissional proceda à limpeza (também conhecida por “destartarização”.

Pela décima edição consecutiva, em Outubro, a Colgate, em parceria com a SPEMD, volta a organizar o mês da Saúde Oral. Esta iniciativa prevê que a realização de rastreios gratuitos a toda a população portuguesa. Para marcar o check-up dentário (não inclui os tratamentos), ligue para o 808 205 206 (número azul, com custo de chamada local), entre as 12 e as 23h e agende a visita com um médico dentista ou estomatologista.

 

Passar a escova

Como prevenir compensa mais do que remediar, José Pedro Figueiredo é peremptório em afirmar que estas medidas estão ao alcance de qualquer cidadão. “Do ponto de vista científico, está preconizada a escovagem correcta dos dentes, pelo menos duas vezes por dia, porque no intervalo de 12 horas há a probabilidade de a placa bacteriana amadurecer, tornando-se patogénica [causa de doença]”, adianta.

“Há duas maneiras de combater as doenças: lutar contra o agressor e aumentar as defesas da vítima. Por isso, recomenda-se a utilização de um dentífrico com flúor, que, para além de reforçar a estrutura do esmalte, aumenta a resistência dos dentes à desmineralização ácida provocada pelas bactérias que causam as cáries.” Segundo o responsável pela SPEMD, as escovagens deve realizar-se após o pequeno-almoço e antes de dormir.

A higiene oral não deve ser, na perspectiva do especialista, um mero “bochechar”. A escovagem correcta é aquela que demora entre três a cinco minutos. E deve ser percorrer todos os dentes, em movimentos de cima para baixo, sem esquecer a língua. Como nem sempre a escova (“convém que esteja em boas condições de utilização, sem pêlos encovados”) alcança o espaço inter-dentários, José Pedro Figueiredo recomenda, ainda, o uso de um fio dentário para uma higiene total.

 

Perdidos e recuperados

As próteses (fixas ou removíveis) são, actualmente, uma solução para quem perdeu ou está em vias de perder uma ou mais peças dentárias. Em complemento a estes artefactos funcionais de reabilitação oral, existe a implantologia: um tratamento destinado à substituição de dentes. “No fundo, o implante de titânio (um material testado e compatível com o organismo) é uma raiz artificial osteointegrada (agarrado ao osso). Sobre o implante é, posteriormente, colocada uma coroa artificial”, explica o Prof. Jorge Ferreira da Costa, docente da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa.

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Para além do papel estético e funcional, o implante pode ser usado, por exemplo, como uma “âncora” para ajudar a reter as próteses totais, removíveis, nas situações em que se soltam com muita facilidade. “É um meio mais económico para pessoas sem grandes recursos financeiros”, adianta o especialista.

Segundo Jorge Ferreira da Costa, a taxa de sucesso destas técnicas é superior a 95%. Mas, para que tal aconteça, é necessário que o osso esteja em boas condições. Contudo, a tecnologia evoluiu de tal forma que, hoje em dia, já é possível fazer “crescer” ou substituir o osso, a partir de outro tecido ósseo (enxertos) ou com materiais sintéticos.

Existindo apenas uma peça dentária em falta, antes da alternativa do implante, podia ser eficaz a colocação de uma “ponte”. No entanto, “esta opção pode sair mais cara do que um implante”, fundamenta. Além dos gastos directos, “implica talhar os dois dentes laterais e uni-los uns aos outros, a fim de produzir uma ‘plataforma’ dentária”. Este procedimento, na óptica do médico, só se justifica quando esses dentes pilares também estiverem danificados. Caso contrário, “o implante é a solução mais adequada, até mesmo do ponto de vista da higiene oral”.

Mas, independentemente da solução encontrada, “é sempre melhor usar uma prótese removível, uma ponte ou um implante do que não fazer nada”. Apesar de, aparentemente, a ausência de um dente poder parecer apenas uma preocupação estética, traz complicações de saúde a longo prazo: Há sobrecarga dos restantes dentes e o dente que está no espaço oponente começa a sair do sítio à procura de um dente para mastigar. Esta má articulação das arcadas provoca, muitas vezes, pancadas laterais dos dentes. E isto acelera a perda de osso e o aparecimento de problemas articulares.”

 

Cada dente a seu tempo

A erupção do primeiro dente geralmente acontece por volta dos seis meses de vida, terminando aos 24 meses. A dentição decídua (vulgo, dentes de leite) é composta por 20 peças dentárias. Dos seis aos 18 anos, vai-se formando a dentição definitiva, constituída por 32 dentes (16 por arcada): dois incisivos centrais, dois incisivos laterais, dois caninos, quatro pré-molares e seis molares.

 

Mais de 300 mil cheques-dentista já foram atribuídos

Segundo o Dr. Rui Calado, coordenador do Programa Nacional de Promoção e Saúde Oral, já foram emitidos mais de 300 mil cheques-dentista. Esta iniciativa tem permitido que as crianças, as grávidas e os idosos tenham uma prestação de cuidados de forma gratuita, no montante disponibilizado pelo cheque. “Este programa tem possibilitado o acesso a cuidados preventivos e curativos por parte dos utentes”, garante. Os destinatários do cheque-dentista podem escolher livremente o profissional de saúde oral. Através do sítio da internet, em www.saudeoral.min-saude.pt/, existe uma lista de médicos aderentes, distribuídos por localização geográfica, o que facilita a pesquisa.

De acordo com os dados avançados, neste momento, 3.221 médicos dentistas e estomatologistas já aderiram voluntariamente ao cheque-dentista. O programa entra agora numa quarta fase, em que se prevê um aperfeiçoamento do programa informático, onde ficam registadas os dados do utente. “Um dos nossos objectivos é permitir que os médicos de Medicina Geral e Familiar, que referenciem os doentes para os profissionais de saúde oral, possam enviar electronicamente informações aos dentistas ou estomatologistas, indicando os problemas de saúde do doente. Mas o inverso também poderá acontecer através da plataforma electrónica.”

Jornal do Centro de Saúde

www.jornaldocentrodesaude.pt

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