Profissão: fisioterapeuta. A auto-regulação é hoje uma doutrina central da prática nas profissões de saúde, sendo que algumas já desenvolveram os seus suportes legais.
A responsabilidade por essa regulação reside em mecanismos de natureza central das profissões, suportada pelos princípios éticos e responsabilidades dos seus profissionais, criando-se, assim, expectativas de elevados padrões, quer para o público, quer para os profissionais, sendo esperável uma menor variabilidade do exercício profissional e dos comportamentos.
Esta regulação interna traduz-se, por parte dos profissionais, na aceitação da sua responsabilidade de trabalhar de uma forma que seja consistente com os valores e objectivos estratégicos da organização em que se inserem e incluindo a responsabilidade de manter uma boa prática, atingindo padrões elevados de desempenho.
A organização terá também a responsabilidade de providenciar as necessárias condições para esse desempenho e facilitar o desenvolvimento profissional de uma forma contínua.
Estes conceitos de auto-regulação obrigam a mudanças de atitude e de cultura, no sentido de ser prestada ajuda aos profissionais, os quais, por não conseguirem gerir a sua actividade de forma adequada, poderão ter atitudes não efectivas ou mesmo prejudiciais, junto dos seus clientes.
A profissão de fisioterapeuta tem evoluído de um perfil de técnico sob direcção médica, para um estatuto de profissional.
A dominância da profissão médica, através do que Tapping (1985), citado por Lopes (1994), chama o «controlo do conhecimento», assume aspectos determinantes, mesmo quando, em vários países e no caso actual de Portugal, os fisioterapeutas adquiriram um estatuto de autonomia e de responsabilidade pelo seu exercício e em que deixaram de estar obrigados a depender de uma prescrição médica para prestar cuidados a doentes (Lopes, 1994).
A Fisioterapia está actualmente a produzir os seus próprios filósofos, que discutem a relevância do modelo médico como grelha conceptual para a fisioterapia, explorando agora as relações entre modelos sociais e holísticos e fisioterapia.
A análise histórica da Fisioterapia permite-nos verificar que, num primeiro estado, a subordinação à profissão médica é dominante, mas que ela se vai esbatendo ao longo dos anos, à medida que, do ponto de vista estrutural e funcional, a profissão se vai autonomizando (Lopes, 1994). Segundo Cross, citado por Lopes (1994), no Reino Unido, o desenvolvimento da prática clínica dos fisioterapeutas tem evoluído numa sequência de patamares, entre o perfil de técnico sob direcção médica até aos anos 60, de profissão paramédica com poderes limitados nos anos 70, para profissionais autónomos com responsabilidades na gestão, nos anos 80, e, nos anos 90, para prestadores de um serviço profissional com capacidade de auto-regulação através de negociação e contratualização.
Poder-se-ia dizer que, em Portugal, a situação se passa de forma semelhante, embora com cerca de 10 anos de atraso, através da evolução do conhecimento científico, do progressivo reconhecimento legal da profissão, da protecção do seu título e domínio de intervenção e na valorização da própria formação, hoje consagrada ao nível de licenciatura (com existência de mestrados e doutoramentos em Fisioterapia), bem como pelo crescente reconhecimento, pelo público em geral, do valor social e do estatuto da profissão e dos profissionais.
Apesar dos esforços realizados ao nível das estruturas profissionais, para uma cada vez maior visibilidade da profissão, e para uma cada vez maior autonomização dos seus profissionais, a fisioterapia ainda não adquiriu no nosso País um estatuto de paridade com as profissões de saúde tradicionalmente reconhecidas.
Apesar da evolução no plano da formação básica e pós–básica e dos ganhos importantes a nível da autonomia profissional, reveladas inclusivamente ao nível da função pública (integração numa carreira considerada corpo especial, paralela às demais carreiras na área da saúde, consagração de níveis de hierarquia própria, actuando na prestação de cuidados e na gestão, com total autonomia e responsabilidade), os fisioterapeutas não conseguiram ainda, ao nível dos serviços, libertar-se da tutela médica, hoje em dia considerada inadequada.
Ao longo dos tempos, têm-se vindo a verificar grandes limitações no que respeita ao exercício da Fisioterapia, tendo algumas a ver com a inserção da Fisioterapia no Sistema de Saúde: a nível dos cuidados a prestar à população e onde se insere um conjunto de problemas tais como os modelos de intervenção no contexto dos cuidados primários, secundários e continuados; as questões de autonomia dos seus profissionais e a sua relação com a formação no contexto educativo nacional e face à dominância e poder médico; a integração dos fisioterapeutas nas equipas de saúde como pares dos outros profissionais de saúde; a legislação vigente e os aspectos hoje em dia prioritários da regulação e do controlo do exercício profissional.
A Fisioterapia actua no âmbito da prevenção primária, secundária e terciária (cuidados continuados e reabilitação), não se podendo, por isso, confundi-la com reabilitação ou muito menos tentar limitá-la a uma única área de intervenção.
Porém, na maioria dos hospitais em Portugal, naturalmente vocacionados para cuidados diferenciados, a Fisioterapia encontra-se ainda inserida em Serviços de Medicina Física e Reabilitação, com um modelo da prestação de cuidados mediatizado exclusivamente por aquela especialidade médica.
Tal situação tem ocasionado serviços desarticulados das restantes unidades hospitalares, sem resposta eficiente para os doentes internados e muitos deles totalmente virados para o ambulatório, desvirtuando o verdadeiro objectivo do atendimento nos hospitais.
Nas Unidades de Fisioterapia, a formação é realizada tanto dentro como fora da organização, havendo em Portugal grande tradição de programas de desenvolvimento, quer realizado a nível institucional, quer pela própria Associação Profissional dos Fisioterapeutas.
A Associação Portuguesa de Fisioterapeutas tem desenvolvido grande número de actividades de formação com vista não só a colmatar necessidades dos fisioterapeutas, mas também numa postura de desenvolvimento de novas metodologias e técnicas, permitindo que os fisioterapeutas portugueses se encontrem ao nível dos seus pares europeus.
Hoje em dia, com o crescente número de escolas, muitas dedicam-se também à realização de programas pós-graduados.
A proposta da Fisioterapia valoriza a visão holística do doente, no sentido de um ganho efectivo de qualidade de vida, sendo que uma abordagem em equipa valoriza essa proposta.
A seguir ao estabelecimento de um diagnóstico de fisioterapia, os doentes seguem um programa de tratamento próprio, dirigido para a sua condição específica, sendo assegurado um ensino ou educação nos aspectos que têm implicações para a sua condição e no sentido de uma melhor adaptação ao ambiente que os cerca.
O objectivo é a recuperação ou alívio dos sintomas num dado período de tempo e a aquisição de conhecimentos, motivação e autoconfiança no sentido de manter os ganhos adquiridos. Para a concretização destes objectivos e para serem atingidas as expectativas dos clientes são necessários recursos humanos, equipamentos, infra-estruturas.
No entanto, os Serviços de Fisioterapia devem também preocupar-se por serem financeiramente viáveis, o que a não ser verdade restringe o seu potencial crescimento.
As Unidades de Fisioterapia devem ser reconhecidas como locais disseminadores de conhecimento, tanto para doentes como para estudantes ou profissionais, e possuidoras de recursos de investigação, de forma a terem reputação tanto clínica como académica, contribuindo não só para a melhoria da prática clínica, mas também para a perpetuação das profissões.
Assim, parece ter de se exigir que o Poder encontre as soluções adequadas ao melhor e funcional ordenamento de uma profissão em franca expansão, não compatível, pela qualidade dos seus profissionais e estrutura social subjacente, com a sua dependência directa de quem há muito, ou por opção política ou por reacção, começou a reconhecer a sua incapacidade para a respectiva tutela.
Dr.ª Isabel de Souza Guerra
Fisioterapeuta, Mestre em Gestão de Serviços de Saúde
Presidente da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas
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