UNIDADE DE TUBERCULOSE DO HOSPITAL DE PULIDO VALENTE
Já lá vão cinco anos desde que o piso 2 do edifício rainha D. Amélia, do Hospital de Pulido Valente, SA, se transformou numa unidade de tratamento de doentes com tuberculose.
Aos olhos do director deste serviço, Dr. Jaime Pina, «o balanço é muito positivo». E adianta:
«A maioria dos doentes que aqui entra sai para o ambulatório melhor e a caminho da cura.»
Para celebrar o sucesso destes últimos anos de combate à tuberculose, o Serviço de Infecciologia Respiratória do referido hospital, em conjunto com o grupo farmacêutico Bialfar, editou o livro Unidade de Tuberculose: cinco anos de actividade no Hospital de Pulido Valente 1999-2004.
«A ideia foi divulgar aquilo que aqui temos feito, a fim de podermos ser úteis a outras equipas que trabalham na mesma área, divulgando as nossas metodologias de trabalho», explica o especialista, recomendando:
«O que está no livro é o que fizemos e os resultados que obtivemos durante estes cinco anos; é um desafio a que outras equipas façam o mesmo para obterem resultados semelhantes ou, se possível, melhores.»
«Até agora, temos conseguido quase tudo», acrescenta Jaime Pina, orgulhoso. E continua:
«Depois de dois anos a preparar o projecto, ele foi implementado em espaço próprio no Departamento de Pneumologia do Hospital. Foram criadas condições ambientais que nos garantem segurança, no sentido da prevenção da transmissão da infecção nosocomial, quer para os profissionais, quer para os outros doentes. Mais tarde, melhorámos essas condições, tendo em vista o eventual internamento de doentes com SARS. Temos, pois, uma Unidade de Tuberculose moderna, pronta para receber doentes de qualquer região do País.»
Desde então, «evoluímos principalmente a nível de organização interna», conta o médico.
Aliás, para além da estrutura morfológica e dos equipamentos adequados, Jaime Pina diz que o segredo do sucesso reside na estrutura organizativa.
«Sempre que recebemos um doente com tuberculose, sabemos que o vamos tratar de acordo com os mais elevados padrões do estado da arte», prossegue Jaime Pina, apontando:
«Em Portugal, só existem duas unidades exclusivamente vocacionadas para o tratamento da tuberculose em regime de internamento: a do Hospital de Pulido Valente e a do Hospital de José Maria Antunes Júnior, em Torres Vedras.»
Só em 2004, a unidade lisboeta recebeu doentes provenientes de 51 origens diferentes.
«À excepção do Serviço de Urgência do Hospital de Curry Cabral, todos os serviços de Urgência da região de Lisboa canalizam para aqui os seus doentes, tal como o fazem muitos serviços de internamento», avança o pneumologista.
Uma equipa de peso
São 33 os profissionais que tratam e acompanham diariamente os doentes internados na Unidade de Infecciologia Respiratória do Hospital de Pulido Valente. A equipa liderada por Jaime Pina não se limita a curar a doença, mas, acima de tudo, «a tratar pessoas doentes».
Daí que seja composta por enfermeiros, auxiliares de acção médica, nutricionistas, assistente social, psicóloga, farmacêutica e uma secretária da Unidade. Para além de pneumologistas, a equipa integra também outros especialistas, como um neurologista e um psiquiatra, sempre que necessário.
«Tratamos, habitualmente, uma população física e socialmente muito frágil», refere o nosso interlocutor, «e o apoio psicossocial é fundamental. Por isso, desenvolvemos programas que visam uma abordagem holística do doente: Programa de Ensino sobre a Tuberculose e Programa Integrado de Apoio à Reabilitação da Toxicodependência. Estamos a implementar um Projecto de Grupo de Motivação para Toxicodependentes Internados.
O objectivo é abordar o doente no máximo de perspectivas possível, ensiná-lo relativamente à doença de que sofre e motivá-lo para a reabilitação da toxicodependência, já que uma parte importante dos nossos doentes são toxicodependentes».
«Presentemente, tentamos que integre a nossa equipa um animador cultural ou um terapeuta ocupacional», revela o mesmo médico.
Acontece que, mesmo com apoio psicossocial diário, telefone, videoteca e televisão em todos os quartos, os dias são longos demais para quem está fechado entre quatro paredes durante períodos de tempo tão significativos…
Resta salientar que a unidade tem a sua lotação quase sempre esgotada.
«Em 2003 passaram por aqui 217 doentes, em 2004 o número subiu para 244», salienta Jaime Pina.
A maioria destes pacientes saiu significativamente melhor, o que quer dizer que «a missão foi cumprida».
Internar ou não internar?
Sendo a tuberculose uma doença
facilmente transmissível, através da inalação de gotículas contaminadas
dispersas no ar, a decisão de manter
um doente isolado depende de vários factores.
«A tuberculose pode ser tratada em ambulatório desde que o doente tenha um bom suporte familiar e social», explica Jaime Pina, continuando:
«Um indigente, que não tenha o tal suporte sociofamiliar e que não mostre garantias que assegurem a adesão ao tratamento em ambulatório, representa um perigo para a saúde pública e,
por isso, exige um internamento mais prolongado.»
E acrescenta: «Há também os casos
de maior gravidade, de tuberculose
multirresistente, ou tuberculose em doentes infectados pelo VIH/SIDA, nos quais o internamento é quase sempre obrigatório e mais demorado.»
Ainda segundo o especialista,
«normalmente bastam três semanas de tratamento em regime de internamento para o doente deixar de ser contagioso e poder voltar para a comunidade, onde deverá continuar o tratamento em regime ambulatório, até ser considerado curado. Como um dos principais problemas na tuberculose é o da falta de adesão
à terapêutica, adoptamos, com grande rigor, a Toma sob Observação Directa (TOD), ou seja, administramos sempre
a medicação supervisionada por um profissional de Saúde, no nosso caso,
um enfermeiro».
Devagar, devagarinho…
Embora o número de novos casos por ano esteja a diminuir, Portugal continua a ser «o País da Europa Ocidental com mais tuberculose». Surgem cerca de quatro mil doentes por ano e «o ritmo do decréscimo é muito lento». Lento demais para se poder dizer que a tuberculose está controlada a um nível satisfatório.
Muito pelo contrário, «a situação está muito má, especialmente nos grandes centros urbanos como Lisboa e Porto», frisa o pneumologista. O médico vai mais longe e afirma que «os nossos níveis de incidência e de prevalência não são característicos de um país desenvolvido».
Os toxicodependentes, os doentes infectados pelo VIH/SIDA, os sem-abrigo e os imigrantes – sobretudo os provenientes de África e da Europa de leste – são os
grupos com maior risco de adoecer com tuberculose.
«Alguns dos imigrantes de países muito pobres, como os africanos ou do leste europeu, entram em Portugal já infectados», avança Jaime Pina.
Quando o problema é diagnosticado,
é no nosso País que tomam o primeiro
contacto com a doença e que procuram
o tratamento.
«Neste momento, estamos com uma incidência anual que ronda os 35 casos por 100.000 habitantes, enquanto que essa taxa nos países da União Europeia ronda os 11 casos por 100 mil habitantes. Isto quer dizer que há ainda um longo caminho a percorrer. Todos os anos há regressão da doença, mas, infelizmente, a um ritmo insuficiente», comenta o especialista.
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