A tiróide é a glândula endócrina fundamental para todo o funcionamento do organismo. São as hormonas libertadas pela tiróide que estimulam o metabolismo e asseguram muitos dos processos bioquímicos do corpo. Os principais distúrbios da tiróide são o hipotiroidismo e o hipertiroidismo, porém, os nódulos e o carcinoma da tiróide são cada vez mais frequentes.
«A tiróide é a responsável pela frequência cardíaca, pela pressão arterial, pelo estado emocional, pela regulação da temperatura corporal, pela função intestinal e pelo peso.
Qualquer alteração no funcionamento da tiróide afecta todas estas áreas, causando um grande decréscimo na qualidade de vida dos doentes», explica o Dr. João Jácome de Castro, director do Serviço de Endocrinologia do Hospital Militar Principal.
Calcula-se que 4-5% da população mundial sofre de alterações da função da tiróide (hiper e hipotiroidismo), sendo que esta percentagem aumenta para 10% em pessoas com mais de 50 anos.
«Estima-se, ainda, que 3-4% da população mundial tenha nódulos da tiróide com significado clínico, isto é, com mais de um centímetro, e que 30-40% dos adultos tenham pequenos nódulos sem significado clínico», acrescenta o especialista.
De acordo com dados da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, só em Portugal surgem por ano mais de 400 novos casos de cancro da tiróide, dos quais cerca de 5% acabam por resultar em morte.
O diagnóstico precoce e a terapêutica adequada são fundamentais para travar o avanço do tumor e garantir uma maior esperança de vida ao doente.
Falta e excesso de hormonas
Vários factores podem desencadear um distúrbio da tiróide. Uma doença auto-imune (presença de anticorpos na circulação) que provoque a diminuição da função da glândula, a falta ou o excesso de iodo na alimentação, ou até mesmo a tendência genética pode facilitar o aparecimento de doenças da tiróide.
«São doenças muito frequentes e facilmente tratáveis. Há ainda muitos casos não diagnosticados, contudo, a tendência é para o diagnóstico cada vez mais precoce. Só assim se evitam alguns sintomas», explica o endocrinologista.
A hiperactivação do metabolismo, o nervosismo, a irritabilidade, a insónia, o aumento da frequência cardíaca, a intolerância ao calor, a perda de peso e os tremores são alguns dos sintomas do hipertiroidismo, ou seja, da produção excessiva de hormonas.
Pelo contrário, o cansaço, a depressão, a prisão de ventre, o aumento de peso, a diminuição da frequência cardíaca, a sonolência e a intolerância ao frio são sintomas de quem sofre de hipotiroidismo, isto é, da baixa ou nenhuma produção hormonal.
«Em qualquer um destes distúrbios, o tratamento deve ser iniciado quanto antes. Isto é, logo após ser feito o diagnóstico. No caso do hipotiroidismo, a terapia consiste em repor a dose hormonal que deixou de ser fabricada pela tiróide.
Para o hipertiroidismo aplica-se uma terapia com medicamentos antitiroideus, para reduzir a produção de hormonas. Pode também recorrer-se ao iodo radioactivo ou à cirurgia (tiroidectomia – retirar a tiróide), nos casos recorrentes», afirma Jácome de Castro.
Dos nódulos ao carcinoma
São, ainda, desconhecidas as causas da origem dos nódulos da tiróide. Podem ser de natureza benigna ou maligna, sendo que, na segunda hipótese, representam risco para o desenvolvimento do cancro da tiróide.
«Há nódulos de pequenas dimensões que não exigem tratamento especializado. O próprio médico de família os pode controlar. Quando atingem um tamanho igual ou superior a um centímetro, então beneficiam da vigilância por parte de um endocrinologista», adianta o médico do Hospital Militar Principal, acrescentando:
«Não há tratamento farmacológico eficaz para os nódulos, apenas a cirurgia, sempre que houver suspeita de malignidade ou compressão das estruturas vizinhas. Cinco a dez por cento dos nódulos evoluem para cancro.»
O carcinoma da tiróide é o tumor endócrino mais frequente, mas também mais tratável. Tem uma mortalidade de 5%, o que significa que os restantes 95% dos casos têm sucesso terapêutico.
Inicialmente o diagnóstico pode parecer assustador pela sua associação à dor e à morte, no entanto, os resultados terapêuticos são bastante optimistas. A cirurgia é curativa, na grande parte dos casos, e este carcinoma praticamente não causa dor, se for diagnosticado precocemente.
«A qualidade de vida após a cirurgia é garantida, desde que haja acompanhamento médico», assegura Jácome de Castro.
A rouquidão prolongada, a dificuldade de deglutição e a dificuldade respiratória podem ser os primeiros sinais de alerta para o cancro da tiróide.
Grupo de Estudos da Tiróide
«É pena que as doenças da tiróide sejam pouco ensinadas nas faculdades de Medicina. Apenas com especialização os alunos conseguem um maior conhecimento destes problemas. Mas acredito que esta realidade possa mudar», afirma o especialista.
Criado em 1998, o Grupo de Estudos da Tiróide da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia congrega especialistas em endocrinologia, medicina nuclear, cirurgia e biologia molecular, anatomia patológica e patologia clínica.
«A ideia inicial foi juntar um grupo de especialistas interessados nestas doenças e promover trabalhos entre os vários centros e simultaneamente desenvolver a investigação para melhorar o conhecimento das doenças da tiróide em Portugal», explica Jácome de Castro, coordenador do Grupo.
E continua: «Para além disso, pretendemos estabelecer uma uniformidade terapêutica, através de protocolos de tratamento e seguimento no cancro da tiróide. Estamos também a criar uma relação privilegiada com a clínica geral e com a obstetrícia, no sentido de dar alguma formação sobre os problemas da tiróide. O nosso desejo é criar uma boa relação com as outras especialidades.»
O Grupo de Estudos da Tiróide promete, ainda, actuar perante o público em geral. Para tal, já foi criado o sítio www.spedm.org/grupodeestudosdatiroide.pt, com informação para doentes e com ligação a outros sites estrangeiros relacionados com este tema. Em breve serão lançados folhetos de divulgação.
Quanto ao desenvolvimento de uma associação de doentes, «talvez no Outono», segundo avança João Jácome de Castro.
Ao que parece, há já um grupo de doentes interessado em levar o projecto para a frente, porém, há ainda detalhes a acertar.
«O objectivo seria encontrar um espaço onde os doentes pudessem trocar informações e experiências entre si. Seria uma forma de estarem mais próximos uns dos outros e até dos próprios médicos, para ficarem a par das novidades terapêuticas.»
Segundo o endocrinologista, o projecto está ainda em fase de implementação, sem uma data prevista para o arranque. Ficamos, portanto, à espera de notícias.
Maria Luísa Júnior, 52 anos
Stress, o factor que desencadeou o hipertiroidismo
Maria Luísa Júnior tinha 42 anos quando lhe foi diagnosticado hipertiroidismo. O stress, essencialmente relacionado com os problemas laborais existentes na empresa onde então trabalhava, foi o provável factor que desencadeou o distúrbio da tiróide.
«Andava angustiada, preocupada e até revoltada com situações de injustiça que no dia-a-dia se percebiam e pela indefinição do futuro de todos aqueles trabalhadores», explica esta doente.
A perda de peso, os problemas de circulação, o inchaço nas pernas, a falta de força, os tremores e a intolerância ao calor foram os primeiros sintomas que levaram Maria Luísa a procurar um cardiologista.
De imediato o especialista suspeitou tratar-se de um problema de tiróide. «Quando decidi ir ao médico já estava numa fase muito avançada da doença.
Parecia um “boneco de borracha”, sem força para me movimentar, limitando as minhas tarefas diárias habituais», recorda Maria Luísa, que foi encaminhada para um endocrinologista, precisamente, o Dr. Jácome de Castro. E comenta: «Houve, desde o início, uma grande confiança e empatia entre médico e doente, facilitando um relativamente rápido acerto nas doses da medicação.
Em menos de duas semanas recuperei extraordinariamente. Lembro-me de ter começado o tratamento em Julho e, tendo marcado uma viagem para Agosto, ter sido aconselhada por algumas pessoas a desmarcar, contudo, não desanimei, insisti e concretizei tudo o que estava planeado e, felizmente, correu tudo muito bem.»
Actualmente com 52 anos, Maria Luísa Júnior mantém a consulta anual de rotina e continua a tomar medicamentos. Contudo, garante não se sentir doente.
«Houve uns problemas cerca de dois anos depois do início do tratamento. A medicação deixou de fazer efeito, foram também detectados nódulos na tiróide e tivemos de tomar novas medidas terapêuticas, mas, neste momento, não me sinto uma pessoa doente. Faço a minha vida sem qualquer limitação e recuperei a 100% a qualidade de vida», avança a economista.
Os nódulos desapareceram e a produção hormonal estabilizou graças aos tratamentos que ainda mantém. Maria Luísa Júnior sabe que a medicação terá de acompanhá-la para toda a vida, mas isso não a preocupa, sendo absolutamente irrelevante:
«No princípio do tratamento foi complicado criar habituação e rotina. Agora está tudo completamente ultrapassado e, felizmente, sinto-me muito bem. É, apenas, uma questão de responsabilidade com a rotina da medicação, o preço a pagar pela saúde e pelo bem-estar.»
«A tiróide é a responsável pela frequência cardíaca, pela pressão arterial, pelo estado emocional, pela regulação da temperatura corporal, pela função intestinal e pelo peso.
Qualquer alteração no funcionamento da tiróide afecta todas estas áreas, causando um grande decréscimo na qualidade de vida dos doentes», explica o Dr. João Jácome de Castro, director do Serviço de Endocrinologia do Hospital Militar Principal.
Calcula-se que 4-5% da população mundial sofre de alterações da função da tiróide (hiper e hipotiroidismo), sendo que esta percentagem aumenta para 10% em pessoas com mais de 50 anos.
«Estima-se, ainda, que 3-4% da população mundial tenha nódulos da tiróide com significado clínico, isto é, com mais de um centímetro, e que 30-40% dos adultos tenham pequenos nódulos sem significado clínico», acrescenta o especialista.
De acordo com dados da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, só em Portugal surgem por ano mais de 400 novos casos de cancro da tiróide, dos quais cerca de 5% acabam por resultar em morte.
O diagnóstico precoce e a terapêutica adequada são fundamentais para travar o avanço do tumor e garantir uma maior esperança de vida ao doente.
Falta e excesso de hormonas
Vários factores podem desencadear um distúrbio da tiróide. Uma doença auto-imune (presença de anticorpos na circulação) que provoque a diminuição da função da glândula, a falta ou o excesso de iodo na alimentação, ou até mesmo a tendência genética pode facilitar o aparecimento de doenças da tiróide.
«São doenças muito frequentes e facilmente tratáveis. Há ainda muitos casos não diagnosticados, contudo, a tendência é para o diagnóstico cada vez mais precoce. Só assim se evitam alguns sintomas», explica o endocrinologista.
A hiperactivação do metabolismo, o nervosismo, a irritabilidade, a insónia, o aumento da frequência cardíaca, a intolerância ao calor, a perda de peso e os tremores são alguns dos sintomas do hipertiroidismo, ou seja, da produção excessiva de hormonas.
Pelo contrário, o cansaço, a depressão, a prisão de ventre, o aumento de peso, a diminuição da frequência cardíaca, a sonolência e a intolerância ao frio são sintomas de quem sofre de hipotiroidismo, isto é, da baixa ou nenhuma produção hormonal.
«Em qualquer um destes distúrbios, o tratamento deve ser iniciado quanto antes. Isto é, logo após ser feito o diagnóstico. No caso do hipotiroidismo, a terapia consiste em repor a dose hormonal que deixou de ser fabricada pela tiróide.
Para o hipertiroidismo aplica-se uma terapia com medicamentos antitiroideus, para reduzir a produção de hormonas. Pode também recorrer-se ao iodo radioactivo ou à cirurgia (tiroidectomia – retirar a tiróide), nos casos recorrentes», afirma Jácome de Castro.
Dos nódulos ao carcinoma
São, ainda, desconhecidas as causas da origem dos nódulos da tiróide. Podem ser de natureza benigna ou maligna, sendo que, na segunda hipótese, representam risco para o desenvolvimento do cancro da tiróide.
«Há nódulos de pequenas dimensões que não exigem tratamento especializado. O próprio médico de família os pode controlar. Quando atingem um tamanho igual ou superior a um centímetro, então beneficiam da vigilância por parte de um endocrinologista», adianta o médico do Hospital Militar Principal, acrescentando:
«Não há tratamento farmacológico eficaz para os nódulos, apenas a cirurgia, sempre que houver suspeita de malignidade ou compressão das estruturas vizinhas. Cinco a dez por cento dos nódulos evoluem para cancro.»
O carcinoma da tiróide é o tumor endócrino mais frequente, mas também mais tratável. Tem uma mortalidade de 5%, o que significa que os restantes 95% dos casos têm sucesso terapêutico.
Inicialmente o diagnóstico pode parecer assustador pela sua associação à dor e à morte, no entanto, os resultados terapêuticos são bastante optimistas. A cirurgia é curativa, na grande parte dos casos, e este carcinoma praticamente não causa dor, se for diagnosticado precocemente.
«A qualidade de vida após a cirurgia é garantida, desde que haja acompanhamento médico», assegura Jácome de Castro.
A rouquidão prolongada, a dificuldade de deglutição e a dificuldade respiratória podem ser os primeiros sinais de alerta para o cancro da tiróide.
Grupo de Estudos da Tiróide
«É pena que as doenças da tiróide sejam pouco ensinadas nas faculdades de Medicina. Apenas com especialização os alunos conseguem um maior conhecimento destes problemas. Mas acredito que esta realidade possa mudar», afirma o especialista.
Criado em 1998, o Grupo de Estudos da Tiróide da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia congrega especialistas em endocrinologia, medicina nuclear, cirurgia e biologia molecular, anatomia patológica e patologia clínica.
«A ideia inicial foi juntar um grupo de especialistas interessados nestas doenças e promover trabalhos entre os vários centros e simultaneamente desenvolver a investigação para melhorar o conhecimento das doenças da tiróide em Portugal», explica Jácome de Castro, coordenador do Grupo.
E continua: «Para além disso, pretendemos estabelecer uma uniformidade terapêutica, através de protocolos de tratamento e seguimento no cancro da tiróide. Estamos também a criar uma relação privilegiada com a clínica geral e com a obstetrícia, no sentido de dar alguma formação sobre os problemas da tiróide. O nosso desejo é criar uma boa relação com as outras especialidades.»
O Grupo de Estudos da Tiróide promete, ainda, actuar perante o público em geral. Para tal, já foi criado o sítio www.spedm.org/grupodeestudosdatiroide.pt, com informação para doentes e com ligação a outros sites estrangeiros relacionados com este tema. Em breve serão lançados folhetos de divulgação.
Quanto ao desenvolvimento de uma associação de doentes, «talvez no Outono», segundo avança João Jácome de Castro.
Ao que parece, há já um grupo de doentes interessado em levar o projecto para a frente, porém, há ainda detalhes a acertar.
«O objectivo seria encontrar um espaço onde os doentes pudessem trocar informações e experiências entre si. Seria uma forma de estarem mais próximos uns dos outros e até dos próprios médicos, para ficarem a par das novidades terapêuticas.»
Segundo o endocrinologista, o projecto está ainda em fase de implementação, sem uma data prevista para o arranque. Ficamos, portanto, à espera de notícias.
Maria Luísa Júnior, 52 anos
Stress, o factor que desencadeou o hipertiroidismo
Maria Luísa Júnior tinha 42 anos quando lhe foi diagnosticado hipertiroidismo. O stress, essencialmente relacionado com os problemas laborais existentes na empresa onde então trabalhava, foi o provável factor que desencadeou o distúrbio da tiróide.
«Andava angustiada, preocupada e até revoltada com situações de injustiça que no dia-a-dia se percebiam e pela indefinição do futuro de todos aqueles trabalhadores», explica esta doente.
A perda de peso, os problemas de circulação, o inchaço nas pernas, a falta de força, os tremores e a intolerância ao calor foram os primeiros sintomas que levaram Maria Luísa a procurar um cardiologista.
De imediato o especialista suspeitou tratar-se de um problema de tiróide. «Quando decidi ir ao médico já estava numa fase muito avançada da doença.
Parecia um “boneco de borracha”, sem força para me movimentar, limitando as minhas tarefas diárias habituais», recorda Maria Luísa, que foi encaminhada para um endocrinologista, precisamente, o Dr. Jácome de Castro. E comenta: «Houve, desde o início, uma grande confiança e empatia entre médico e doente, facilitando um relativamente rápido acerto nas doses da medicação.
Em menos de duas semanas recuperei extraordinariamente. Lembro-me de ter começado o tratamento em Julho e, tendo marcado uma viagem para Agosto, ter sido aconselhada por algumas pessoas a desmarcar, contudo, não desanimei, insisti e concretizei tudo o que estava planeado e, felizmente, correu tudo muito bem.»
Actualmente com 52 anos, Maria Luísa Júnior mantém a consulta anual de rotina e continua a tomar medicamentos. Contudo, garante não se sentir doente.
«Houve uns problemas cerca de dois anos depois do início do tratamento. A medicação deixou de fazer efeito, foram também detectados nódulos na tiróide e tivemos de tomar novas medidas terapêuticas, mas, neste momento, não me sinto uma pessoa doente. Faço a minha vida sem qualquer limitação e recuperei a 100% a qualidade de vida», avança a economista.
Os nódulos desapareceram e a produção hormonal estabilizou graças aos tratamentos que ainda mantém. Maria Luísa Júnior sabe que a medicação terá de acompanhá-la para toda a vida, mas isso não a preocupa, sendo absolutamente irrelevante:
«No princípio do tratamento foi complicado criar habituação e rotina. Agora está tudo completamente ultrapassado e, felizmente, sinto-me muito bem. É, apenas, uma questão de responsabilidade com a rotina da medicação, o preço a pagar pela saúde e pelo bem-estar.»