O que têm em comum as histórias de Teresa Nunes e Amélia Aldeia? Estas duas mulheres travaram uma luta contra o cancro da mama durante meses a fio. Hoje, volvidos quase sete anos desde a confirmação do diagnóstico, ambas sentem-se vitoriosas por terem ganho esta batalha. Os testemunhos de coragem de quem nunca deixou de acreditar na vida depois do cancro.
Aos 39 anos, Amélia Aldeia foi surpreendida por um nódulo na mama direita. “De um momento para o outro, detectei algo de anormal, quando estava a tomar banho”, diz. Como tinha uma consulta de rotina marcada, aproveitou a altura para expor as dúvidas à médica. Ao realizar a mamografia – uma das técnicas de detecção de anomalias no tecido mamário – foi-lhe dito que deveria “ser controlada anualmente”. Mas, por descargo de consciência, decidiu levar os exames ao centro de saúde. A médica de família, depois de ver os resultados da mamografia, aconselhou-a a dirigir-se a uma consulta da mama, já que o nódulo apresentava uma dimensão de 3,5 cm.
No hospital de Santa Maria realizou uma nova mamografia e a suspeita de cancro começava a desenhar-se. Dias mais tarde, a biopsia confirma o diagnóstico: cancro da mama. Esta notícia, recebida no dia 6 de Dezembro de 2002, é acompanhada por uma outra informação por parte da médica: “Vai ter de fazer uma mastectomia, pois já tem nódulos na axila”. Perante o choque do momento, Amélia Aldeia ficou “anestesiada”. Mas, sem baixar as armas, decidiu seguir em frente e não esmoreceu.
“Eu aceitei a cirurgia, porque a única coisa que queria naquele momento era tirar o cancro dentro de mim, mesmo que, para isso, tivesse de extrair a mama.” Amélia Aldeia sente que, apesar de tudo, teve “sorte”, porque o cancro foi detectado a tempo. “Clinicamente”, assegura a Dr.ª Ondina Campos, chefe de serviço de Ginecologia aposentada do Centro Hospitalar de Coimbra, “podem-se encontrar nódulos através da palpação, embora a mamografia, o exame de rastreio por excelência, seja aquele que nos permite detectar precocemente qualquer alteração”.
“Está preconizado que as mulheres devem realizar mamografias periódicas a partir dos 40 anos de idade”, acrescenta. Mas, caso haja factores de risco familiares, deve-se iniciar mais cedo, por volta dos 35 anos, com exames regulares de dois em dois anos.” Para a especialista, a mamografia “é o método que garante um maior sucesso terapêutico”, já que “a detecção precoce” é a palavra de ordem na luta contra o cancro.
A Prof.ª Maria João Cardoso, coordenadora do Grupo de Patologia Mamária do Hospital de S. João, no Porto, explica, ainda, que “a maior parte dos nódulos na mama não são malignos: mais de 80% têm uma origem benigna”. Um nódulo “que não dói, duro e irregular é, mais provavelmente, maligno”, refere. Embora a dor seja um sintoma em meio por cento dos tumores, Ondina Campos diz que, raramente, surge como primeiro sinal. “O mais frequente é o aparecimento de uma massa palpável (caroço) no peito”. No entanto, ambas as especialistas são peremptórias em afirmar que, após suspeita ou alteração do tecido mamário, as mulheres não devem hesitar em procurar o médico assistente e, em caso de dúvida, um profissional com experiência nesta patologia.
Amélia Aldeia, hoje com 46 anos, diz que o diagnóstico precoce lhe salvou a vida. Depois da luta contra o cancro, integrou o movimento Vencer e Viver, ajudando outras mulheres que, como ela, se virão a braços com um carcinoma da mama. Fala com conhecimento de causa, o que legitima os seus conselhos: “Façam a palpação antes e depois da menstruação, vão a consultas regulares e não guardem as mamografias dentro da gaveta.”
A vida continua
Teresa Nunes, 45 anos, sentia-se uma mulher perfeitamente saudável. “Não havia desconfiança de nada”, recorda. Mas uma mamografia de rotina, que fez em Outubro de 2001, veio acusar o contrário. “O exame mostrou uma massa estranha, com contornos irregulares. Os médicos pediram novos exames, por haver uma desconfiança.”
No dia 15 de Novembro, foi-lhe comunicado o diagnóstico: cancro da mama. “Passei de uma pessoa saudável a muito doente. Tive uma sensação de estranheza, porque me sentia fisicamente bem, mas os exames diziam que eu tinha cancro”, lembra. Não tinha gânglios da axila afectados, mas, por uma questão de localização do carcinoma, aconselharam-na a submeter-se a uma mastectomia: a extracção completa do seio. “Não questionei o cancro ou a decisão dos médicos, porque a minha maior vontade era vencer e continuar viva”, realça.
Depois da cirurgia, seguiram-se os tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Apesar da agressividade destas terapêuticas, Teresa Nunes, consultora se seguros, diz que teve “sorte” com os efeitos secundários. “Sofri apenas a queda de cabelo”. Ironiza, no entanto, com esta situação, dizendo que esta foi a fase em que mais investiu em roupa, lenços e chapéus.
No pós-operatório, a reconstrução da mama, hoje em dia, pode ser quase imediata. No caso de Amélia Aldeia, no dia da cirurgia foi-lhe colocado “o expansor: um aparelho que, ao encher-se de soro, vai criando a caixa da mama”. Teresa Nunes aguardou um ano, após as 25 sessões de radioterapia, para que a cirurgia de reconstrução lhe devolvesse de novo o seio.
A consultora de seguros, tal como Amélia Aldeia, nunca parou de trabalhar, mesmo na fase dos tratamentos. Ambas são unânimes em afirmar que o facto de estarem ocupadas favoreceu a recuperação. “Nunca quis meter a cabeça na areia e esconder-me deste problema”, sublinha Amélia Aldeia, reiterando: “A partir do momento em que passei por esta experiência de cancro, comecei a dar mais valor à vida.”
Já Teresa Nunes diz que deste duelo contra o cancro reteve uma lição: “Não há como prevenir a morte, mas há forma de prevenir a morte antecipada”. A consultora de seguros reforça a ideia de que não vale a pena encobrir a doença, nem ter medo. “Este sentimento afunda-nos.” Por isso, sugere que todas as mulheres olhem por si e pelo seu corpo, fazendo o rastreio regularmente.
Embora o cancro da mama seja o tumor mais frequente no sexo feminino, é, porém, o carcinoma com maior taxa de sobrevivência, se for detectado em estádios prematuros. “Quando descobrimos uma lesão pré-maligna no rastreio (carcinoma in situ), a cura é de 100%”, explica a Prof.ª Maria João Cardoso, coordenadora do Grupo de Patologia Mamária do Hospital de S. João, no Porto.
Primeiro passo: rastreio precoce
Só em Portugal aparecem cerca de 4500 novos casos de cancro por ano, um número que, apesar de estar aquém do registado na vizinha Espanha (16 mil novos casos, anualmente), não deixa de ser preocupante. Haverá uma verdadeira causa para estes tumores? Segundo o Prof. Vítor Rodrigues, Professor de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina de Coimbra, “a ciência ainda não encontrou uma relação directa de causa/efeito” para a esmagadora maioria dos cancros da mama.
Sabe-se que 5% dos carcinomas são de origem familiar, o que obriga a uma vigilância clínica redobrada. “Há uma variação genética que influencia o aparecimento de cancro da mama entre familiares directos”, explica o especialista. De fora, fica uma percentagem de 95%, à qual “ainda não se consegue imputar uma causa específica”. Suspeita-se, contudo, que exista um conjunto de factores que explicam o maior risco de vir a ter um cancro da mama. “Com a primeira menstruação cada vez mais cedo e a entrada na menopausa cada vez mais tarde, houve um alargamento da janela hormonal, o que se traduz numa ‘agressão biológica’ mais prolongada.”
Quer isto dizer que a mama, estando preparada para “dar leite”, tem um ciclo de produção e de limpeza, que se repete todos os meses. Se a diferença entre a primeira menstruação e a menopausa for maior, a somar à idade tardia do primeiro filho ou à nuliparidade (mulher não ter filhos), “a ‘agressão’ da glândula mamária vai sendo maior”.
Por não se conhecerem ao certo os factores de risco que conduzem ao cancro, o especialista frisa que a cura está à distância do diagnóstico precoce. Em 1986, foram implementados, pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, os primeiros programas de rastreio em Portugal. “Os rastreios são realizados em estreita colaboração com os cuidados de saúde primários e cobre toda a região Centro e, ainda, alguns distritos do Sul e Norte”, informa Maria João Cardoso.
Este programa “utiliza unidades móveis e fixas, que se deslocam aos concelhos de dois em dois anos, enviando convites a mulheres dos 45 aos 69 anos, inscritas nos centros de saúde, para realizar a mamografia”, adianta a especialista. “Os exames”, continua, “são, posteriormente, estudados por radiologistas e, em caso de suspeita, a mulher é chamada para uma consulta de aferição.
“Para caracterizar melhor as imagens, a mamografia poderá ser complementada com a ecografia”, indica Ondina Campos. Havendo suspeição das imagens obtidas, é realizada, ainda, uma biopsia. “Trata-se de um procedimento, em que se retira uma amostra de tecido da zona da mama a estudar, para se ter uma confirmação do diagnóstico”, conclui Maria João Cardoso.
Contra o cancro, tratar e investigar
Na década de 70 do século passado, depois dos avanços registados na radioterapia, a mastectomia radical (excisão completa da mama, com esvaziamento axilar completo) foi sendo, gradualmente, substituída por outras práticas cirúrgicas. Investigadores europeus e americanos iniciavam os testes da remoção parcial do tumor localizado. Foi o início de um tratamento baptizado por “cirurgia conservadora”. E porquê este nome? “Este procedimento mantém o máximo de tecido da mama, retirando apenas o que está afectado pelas células malignas. É uma forma de evitar uma maior ‘mutilação’, mantendo a máxima funcionalidade e o efeito estético”, explica o Dr. João Moura Pereira, presidente da Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS).
Contrariamente ao que acontecia há 100 anos, os tratamentos actuais tentam poupar os tecidos em torno do local afectado, nomeadamente a axila. Ainda assim, por uma questão de salvaguarda, “faz-se o estudo dos gânglios-sentinela”. Esta análise permite descobrir quais os gânglios afectados, “limpando a zona invadida e evitando o esvaziamento axilar completo”. Mas, mediante os casos, não basta, apenas, escolher o tipo de cirurgia. Há, ainda, que criar condições que melhorem o sucesso da intervenção.
Paralelamente à cirurgia, o especialista diz que “nas situações localmente avançadas, em que se pretende um regressão parcial do tumor, pode-se optar por terapêuticas neoadjuvantes”. Fala-se, pois, da quimioterapia ou radioterapia, dois tratamentos que podem ser realizados antes e depois da operação. “Com estes procedimentos, a mama fica em melhores cirúrgicas, permitindo, em caso de resposta ao tratamento, uma intervenção mais conservadora.”
Os trilhos da investigação
A evolução dos tratamentos pós-cirúrgicos tem vindo a ser complementada, nos últimos anos, pelo aperfeiçoamento das técnicas de imagiologia, particularmente a mamografia digital e a ressonância magnética. “Estes exames têm contribuído, sobremaneira, para a detecção de lesões mais pequenas e em fases mais iniciais, susceptíveis de serem tratadas por cirurgia, antes de serem agressivas para a mulher”, destaca o Prof. Carlos Lopes, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.
A investigação tem também caminhado no sentido de encontrar terapêuticas mais dirigidas às células tumorais. Desde há 10 anos, estão disponíveis medicamentos que exercem uma acção selectiva sobre determinadas proteínas. São as chamadas terapêuticas-alvo: “medicamentos capazes de inibir determinadas proteínas estruturais (do tipo dos receptores de membrana, por exemplo), responsáveis pelo crescimento tumoral”. Ao exercerem esta acção, confirma o especialista, “estes medicamentos rompem o ciclo vicioso da célula maligna”. Assim, interrompido o circuito, “a célula estagna e acaba por morrer”.
Mas, apesar destes recentes avanços, Carlos Lopes aponta alguns desafios no tratamento do cancro da mama: “O que se pretende agora é identificar o maior número de genes alterados nas diferentes fases de desenvolvimento do cancro da mama, de maneira a neutralizar a acção das oncoproteinas daí resultantes. Assim, ser poderá desenvolver um tratamento mais personalizado e especificamente dirigido.” Em fase experimental, encontra-se, neste momento, o estudo de um esquema de “vacinas”, “capazes de “estimular a produção de anticorpos monoclonais que neutralizem a acção e combatam a libertação das proteínas anómalas”. O especialista ressalva, porém, que os resultados só estarão disponíveis no prazo de 10 anos.
“Importa, contudo, realçar que as células neoplásicas têm vida, isto é, têm capacidade biológica de se adaptarem às condições ‘adversas’ que lhes criemos e encontrar novos caminhos de progressão. Por isso, as novas formas de tratamento devem ser sempre encaradas como complementares e não como alternativa ao tratamento convencional que engloba acções de cirurgia, radioterapia, quimioterapia e hormonoterapia.”
ONDE PROCURAR AJUDA
Laço
http://www.laco.pt/
Movimento Vencer e Viver
Funciona no Pavilhão da Liga Portuguesa contra o Cancro – Núcleo Regional do Sul
Tel.: 217 265 786
E-mail: vencerviver@dpp.pt
APAMCM: Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama
Av. Marechal Craveiro Lopes, nº 1 (Colégio das Doroteias), Lisboa
Tel.: 217 568 911; 217 585 648
E-mail: info@apamcm.org; estrutura.formacao@apamcm.org
Fórum Europa Donna
Liga Portuguesa Contra o Cancro
Av. Columbano Bordalo Pinheiro, n.º57 F, Lisboa
Tel.: 217 221 810
Aos 39 anos, Amélia Aldeia foi surpreendida por um nódulo na mama direita. “De um momento para o outro, detectei algo de anormal, quando estava a tomar banho”, diz. Como tinha uma consulta de rotina marcada, aproveitou a altura para expor as dúvidas à médica. Ao realizar a mamografia – uma das técnicas de detecção de anomalias no tecido mamário – foi-lhe dito que deveria “ser controlada anualmente”. Mas, por descargo de consciência, decidiu levar os exames ao centro de saúde. A médica de família, depois de ver os resultados da mamografia, aconselhou-a a dirigir-se a uma consulta da mama, já que o nódulo apresentava uma dimensão de 3,5 cm.
No hospital de Santa Maria realizou uma nova mamografia e a suspeita de cancro começava a desenhar-se. Dias mais tarde, a biopsia confirma o diagnóstico: cancro da mama. Esta notícia, recebida no dia 6 de Dezembro de 2002, é acompanhada por uma outra informação por parte da médica: “Vai ter de fazer uma mastectomia, pois já tem nódulos na axila“. Perante o choque do momento, Amélia Aldeia ficou “anestesiada”. Mas, sem baixar as armas, decidiu seguir em frente e não esmoreceu.
“Eu aceitei a cirurgia, porque a única coisa que queria naquele momento era tirar o cancro dentro de mim, mesmo que, para isso, tivesse de extrair a mama.” Amélia Aldeia sente que, apesar de tudo, teve “sorte”, porque o cancro foi detectado a tempo. “Clinicamente”, assegura a Dr.ª Ondina Campos, chefe de serviço de Ginecologia aposentada do Centro Hospitalar de Coimbra, “podem-se encontrar nódulos através da palpação, embora a mamografia, o exame de rastreio por excelência, seja aquele que nos permite detectar precocemente qualquer alteração”.
“Está preconizado que as mulheres devem realizar mamografias periódicas a partir dos 40 anos de idade“, acrescenta. Mas, caso haja factores de risco familiares, deve-se iniciar mais cedo, por volta dos 35 anos, com exames regulares de dois em dois anos.” Para a especialista, a mamografia “é o método que garante um maior sucesso terapêutico”, já que “a detecção precoce” é a palavra de ordem na luta contra o cancro.
A Prof.ª Maria João Cardoso, coordenadora do Grupo de Patologia Mamária do Hospital de S. João, no Porto, explica, ainda, que “a maior parte dos nódulos na mama não são malignos: mais de 80% têm uma origem benigna”. Um nódulo “que não dói, duro e irregular é, mais provavelmente, maligno“, refere. Embora a dor seja um sintoma em meio por cento dos tumores, Ondina Campos diz que, raramente, surge como primeiro sinal. “O mais frequente é o aparecimento de uma massa palpável (caroço) no peito”. No entanto, ambas as especialistas são peremptórias em afirmar que, após suspeita ou alteração do tecido mamário, as mulheres não devem hesitar em procurar o médico assistente e, em caso de dúvida, um profissional com experiência nesta patologia.
Amélia Aldeia, hoje com 46 anos, diz que o diagnóstico precoce lhe salvou a vida. Depois da luta contra o cancro, integrou o movimento Vencer e Viver, ajudando outras mulheres que, como ela, se virão a braços com um carcinoma da mama. Fala com conhecimento de causa, o que legitima os seus conselhos: “Façam a palpação antes e depois da menstruação, vão a consultas regulares e não guardem as mamografias dentro da gaveta.”
A vida continua
Teresa Nunes, 45 anos, sentia-se uma mulher perfeitamente saudável. “Não havia desconfiança de nada”, recorda. Mas uma mamografia de rotina, que fez em Outubro de 2001, veio acusar o contrário. “O exame mostrou uma massa estranha, com contornos irregulares. Os médicos pediram novos exames, por haver uma desconfiança.”
No dia 15 de Novembro, foi-lhe comunicado o diagnóstico: cancro da mama. “Passei de uma pessoa saudável a muito doente. Tive uma sensação de estranheza, porque me sentia fisicamente bem, mas os exames diziam que eu tinha cancro”, lembra. Não tinha gânglios da axila afectados, mas, por uma questão de localização do carcinoma, aconselharam-na a submeter-se a uma mastectomia: a extracção completa do seio. “Não questionei o cancro ou a decisão dos médicos, porque a minha maior vontade era vencer e continuar viva”, realça.
Depois da cirurgia, seguiram-se os tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Apesar da agressividade destas terapêuticas, Teresa Nunes, consultora se seguros, diz que teve “sorte” com os efeitos secundários. “Sofri apenas a queda de cabelo”. Ironiza, no entanto, com esta situação, dizendo que esta foi a fase em que mais investiu em roupa, lenços e chapéus.
No pós-operatório, a reconstrução da mama, hoje em dia, pode ser quase imediata. No caso de Amélia Aldeia, no dia da cirurgia foi-lhe colocado “o expansor: um aparelho que, ao encher-se de soro, vai criando a caixa da mama”. Teresa Nunes aguardou um ano, após as 25 sessões de radioterapia, para que a cirurgia de reconstrução lhe devolvesse de novo o seio.
A consultora de seguros, tal como Amélia Aldeia, nunca parou de trabalhar, mesmo na fase dos tratamentos. Ambas são unânimes em afirmar que o facto de estarem ocupadas favoreceu a recuperação. “Nunca quis meter a cabeça na areia e esconder-me deste problema”, sublinha Amélia Aldeia, reiterando: “A partir do momento em que passei por esta experiência de cancro, comecei a dar mais valor à vida.”
Já Teresa Nunes diz que deste duelo contra o cancro reteve uma lição: “Não há como prevenir a morte, mas há forma de prevenir a morte antecipada”. A consultora de seguros reforça a ideia de que não vale a pena encobrir a doença, nem ter medo. “Este sentimento afunda-nos.” Por isso, sugere que todas as mulheres olhem por si e pelo seu corpo, fazendo o rastreio regularmente.
Embora o cancro da mama seja o tumor mais frequente no sexo feminino, é, porém, o carcinoma com maior taxa de sobrevivência, se for detectado em estádios prematuros. “Quando descobrimos uma lesão pré-maligna no rastreio (carcinoma in situ), a cura é de 100%”, explica a Prof.ª Maria João Cardoso, coordenadora do Grupo de Patologia Mamária do Hospital de S. João, no Porto.
Primeiro passo: rastreio precoce
Só em Portugal aparecem cerca de 4500 novos casos de cancro por ano, um número que, apesar de estar aquém do registado na vizinha Espanha (16 mil novos casos, anualmente), não deixa de ser preocupante. Haverá uma verdadeira causa para estes tumores? Segundo o Prof. Vítor Rodrigues, Professor de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina de Coimbra, “a ciência ainda não encontrou uma relação directa de causa/efeito” para a esmagadora maioria dos cancros da mama.
Sabe-se que 5% dos carcinomas são de origem familiar, o que obriga a uma vigilância clínica redobrada. “Há uma variação genética que influencia o aparecimento de cancro da mama entre familiares directos”, explica o especialista. De fora, fica uma percentagem de 95%, à qual “ainda não se consegue imputar uma causa específica”. Suspeita-se, contudo, que exista um conjunto de factores que explicam o maior risco de vir a ter um cancro da mama. “Com a primeira menstruação cada vez mais cedo e a entrada na menopausa cada vez mais tarde, houve um alargamento da janela hormonal, o que se traduz numa ‘agressão biológica’ mais prolongada.”
Quer isto dizer que a mama, estando preparada para “dar leite”, tem um ciclo de produção e de limpeza, que se repete todos os meses. Se a diferença entre a primeira menstruação e a menopausa for maior, a somar à idade tardia do primeiro filho ou à nuliparidade (mulher não ter filhos), “a ‘agressão’ da glândula mamária vai sendo maior”.
Por não se conhecerem ao certo os factores de risco que conduzem ao cancro, o especialista frisa que a cura está à distância do diagnóstico precoce. Em 1986, foram implementados, pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, os primeiros programas de rastreio em Portugal. “Os rastreios são realizados em estreita colaboração com os cuidados de saúde primários e cobre toda a região Centro e, ainda, alguns distritos do Sul e Norte”, informa Maria João Cardoso.
Este programa “utiliza unidades móveis e fixas, que se deslocam aos concelhos de dois em dois anos, enviando convites a mulheres dos 45 aos 69 anos, inscritas nos centros de saúde, para realizar a mamografia”, adianta a especialista. “Os exames”, continua, “são, posteriormente, estudados por radiologistas e, em caso de suspeita, a mulher é chamada para uma consulta de aferição.
“Para caracterizar melhor as imagens, a mamografia poderá ser complementada com a ecografia“, indica Ondina Campos. Havendo suspeição das imagens obtidas, é realizada, ainda, uma biopsia. “Trata-se de um procedimento, em que se retira uma amostra de tecido da zona da mama a estudar, para se ter uma confirmação do diagnóstico”, conclui Maria João Cardoso.
Contra o cancro, tratar e investigar
Na década de 70 do século passado, depois dos avanços registados na radioterapia, a mastectomia radical (excisão completa da mama, com esvaziamento axilar completo) foi sendo, gradualmente, substituída por outras práticas cirúrgicas. Investigadores europeus e americanos iniciavam os testes da remoção parcial do tumor localizado. Foi o início de um tratamento baptizado por “cirurgia conservadora”. E porquê este nome? “Este procedimento mantém o máximo de tecido da mama, retirando apenas o que está afectado pelas células malignas. É uma forma de evitar uma maior ‘mutilação‘, mantendo a máxima funcionalidade e o efeito estético”, explica o Dr. João Moura Pereira, presidente da Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS).
Contrariamente ao que acontecia há 100 anos, os tratamentos actuais tentam poupar os tecidos em torno do local afectado, nomeadamente a axila. Ainda assim, por uma questão de salvaguarda, “faz-se o estudo dos gânglios-sentinela”. Esta análise permite descobrir quais os gânglios afectados, “limpando a zona invadida e evitando o esvaziamento axilar completo”. Mas, mediante os casos, não basta, apenas, escolher o tipo de cirurgia. Há, ainda, que criar condições que melhorem o sucesso da intervenção.
Paralelamente à cirurgia, o especialista diz que “nas situações localmente avançadas, em que se pretende um regressão parcial do tumor, pode-se optar por terapêuticas neoadjuvantes”. Fala-se, pois, da quimioterapia ou radioterapia, dois tratamentos que podem ser realizados antes e depois da operação. “Com estes procedimentos, a mama fica em melhores cirúrgicas, permitindo, em caso de resposta ao tratamento, uma intervenção mais conservadora.”
Os trilhos da investigação
A evolução dos tratamentos pós-cirúrgicos tem vindo a ser complementada, nos últimos anos, pelo aperfeiçoamento das técnicas de imagiologia, particularmente a mamografia digital e a ressonância magnética. “Estes exames têm contribuído, sobremaneira, para a detecção de lesões mais pequenas e em fases mais iniciais, susceptíveis de serem tratadas por cirurgia, antes de serem agressivas para a mulher”, destaca o Prof. Carlos Lopes, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.
A investigação tem também caminhado no sentido de encontrar terapêuticas mais dirigidas às células tumorais. Desde há 10 anos, estão disponíveis medicamentos que exercem uma acção selectiva sobre determinadas proteínas. São as chamadas terapêuticas-alvo: “medicamentos capazes de inibir determinadas proteínas estruturais (do tipo dos receptores de membrana, por exemplo), responsáveis pelo crescimento tumoral”. Ao exercerem esta acção, confirma o especialista, “estes medicamentos rompem o ciclo vicioso da célula maligna”. Assim, interrompido o circuito, “a célula estagna e acaba por morrer”.
Mas, apesar destes recentes avanços, Carlos Lopes aponta alguns desafios no tratamento do cancro da mama: “O que se pretende agora é identificar o maior número de genes alterados nas diferentes fases de desenvolvimento do cancro da mama, de maneira a neutralizar a acção das oncoproteinas daí resultantes. Assim, ser poderá desenvolver um tratamento mais personalizado e especificamente dirigido.” Em fase experimental, encontra-se, neste momento, o estudo de um esquema de “vacinas”, “capazes de “estimular a produção de anticorpos monoclonais que neutralizem a acção e combatam a libertação das proteínas anómalas”. O especialista ressalva, porém, que os resultados só estarão disponíveis no prazo de 10 anos.
“Importa, contudo, realçar que as células neoplásicas têm vida, isto é, têm capacidade biológica de se adaptarem às condições ‘adversas’ que lhes criemos e encontrar novos caminhos de progressão. Por isso, as novas formas de tratamento devem ser sempre encaradas como complementares e não como alternativa ao tratamento convencional que engloba acções de cirurgia, radioterapia, quimioterapia e hormonoterapia.”
ONDE PROCURAR AJUDA
Laço
http://www.laco.pt/
Movimento Vencer e Viver
Funciona no Pavilhão da Liga Portuguesa contra o Cancro – Núcleo Regional do Sul
Tel.: 217 265 786
E-mail: vencerviver@dpp.pt
APAMCM: Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama
Av. Marechal Craveiro Lopes, nº 1 (Colégio das Doroteias), Lisboa
Tel.: 217 568 911; 217 585 648
E-mail: info@apamcm.org; estrutura.formacao@apamcm.org”>estrutura.formacao@apamcm.org
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Liga Portuguesa Contra o Cancro
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Tel.: 217 221 810