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Asma » A história do Rui, asmático desde os cinco anos

Neste espaço que me deram para vos falar um pouco sobre asma, não vou entrar em teorias sobre a sua etiopatogenia e fisiologia, que apenas serviriam para baralhar o leitor comum. Vou limitar-me a contar-vos uma história e dar alguns conselhos para melhor compreenderem no sentido de ajudar o asmático a superar as suas crises e a ter uma vida normal.

Vou falar-vos do Rui, asmático desde os cinco anos de idade. Nessa altura, lembra-se ele, era muito penoso acordar com falta de ar, tosse e pieira; e pior, quando brincava com os amiguinhos, se corresse um pouco mais, lá vinha a “falta de ar”. Aí sentia-se um pouco diminuído… Depois, vinham com as consultas, os testes de alergias, os medicamentos, os cuidados redobrados da família para que não se constipasse; não corresse para não ficar com asma!

Ele tem uma doença de família. A mãe, algumas tias e primas também tinham asma ou outras alergias. Ora, o Rui foi crescendo, já é adulto e não deixou de ter crises de asma, mas já se habituou a esta doença. É um “asmático militante”. Vai regularmente ao seu Médico de Família e também, quando necessário, ao Alergologista, fazendo medicação diária. Passa quase sempre bem porque aprendeu a aceitar a sua doença e a lidar com ela.

Pois é… O Rui, como eu lhe chamei, pode ser o Jaime, o Manuel, a Maria, a Marta ou qualquer um dos muitos asmáticos que existem por esse mundo fora (já que a asma é uma doença à escala mundial com tendência a aumentar). Mas ele pertence aos 5% dos asmáticos que conseguiram controlar a sua doença, ou seja, a viver sem limitações nem receios. Portanto, há que ajudar os outros 95% a viverem como o Rui.

Como ajudar?

* Há uma série de aconselhamentos em relação às crianças filhas de pais asmáticos ou com familiares directos asmáticos, como por exemplo, aleitamento materno o mais possível (se não for possível usar leites hipoalérgicos), não ter alcatifas em casa, não dormirem com peluches no quarto… Enfim, um sem número de cuidados a ter, tanto em relação ao ambiente como à alimentação.

* Vacinar todas estas crianças com vacina anti – pneumococica a fim de evitar infecções que posteriormente possam dar origem a défices imunitários e, consequentemente, a estados alérgicos.

* A ida para os infantários, neste grupo de crianças, deverá ser retardada o mais possível, já que nestes locais, a propagação de infecções virais é muito grande e estas crianças mais susceptíveis irão contrair estas doenças e piorar o seu défice imunitário.

* Se o seu filho tem crises de “falta de ar”, tosse nocturna, pieira ou “farfalheira”, deverá levá-lo ao seu Médico de Família / Alergologista, o mais breve possível (Serviço de Urgência) a fim de ser medicado.

* Cumprir sempre a medicação instituída e seguir os conselhos do pessoal médico e paramédico.

* Se iniciou a sua “falta de ar” já em adulto, tem da mesma forma que recorrer ao seu médico e é importante fazer o tratamento diário, pois disso depende a qualidade de vida do asmático.

Finalmente, gostaria de acrescentar que a asma é uma doença urbana que progride ao ritmo da civilização moderna. Nas cidades, onde a percentagem de casos é mais elevada, não se pode fugir aos poluentes, ao monóxido de carbono, enfim, a todos estes males inevitáveis da civilização.

Os nossos antepassados, talvez nem conhecessem esta doença porque viviam ao ar livre, em contacto com a natureza, e deviam ter um melhor sistema imunitário até porque os que sobreviviam eram os mais fortes… Hoje, a medicina, a par da civilização, encarrega-se de fazer triunfar quase todos, daí que se herdem genes mais fracos. Mas não temos alternativa. Portanto, resta-nos unir esforços para que a maior parte dos asmáticos seja tratada e possa viver uma vida de qualidade.

Asma brônquica

Com quadros de gravidade muito variável, importa salientar que afecta a qualidade de vida de muitos portugueses, estando presente em cerca de 10% da nossa população.

Os estudos funcionais respiratórios devem ser regularmente efectuados, sem dúvida a partir da idade escolar, embora seja possível começar mais cedo. Diz-nos a experiência que tal necessidade não é concretizada na maioria dos asmáticos.

Do diagnóstico, baseado na clínica e nos estudos complementares, parte-se para um programa de controlo assente em educação, evicção alergénica e terapêutica farmacológica. A educação é fundamental. Importa que a doença seja gerida em conjunto pela equipa de saúde e pelo principal interessado em obter ganhos, isto é, pelo paciente e seus familiares.

A evicção alergénica, associada à promoção de estilos de vida favoráveis (atenção ao tabaco e à exposição a poluentes, cuidado com os ácaros do pó doméstico, fungos e insectos, como as baratas, atenção aos pólens e fungos do exterior dos edifícios, é preciso ter uma dieta tradicional, praticar exercício,…), é enquadrada na terapêutica farmacológica.

Temos um bom Programa Nacional de Controlo da Asma; colaboremos todos na sua implementação. A Sociedade e em particular os doentes asmáticos que confiam nos nossos cuidados. Merecem-no!

Mário Morais de Almeida
Presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica

Jornal do Centro de Saúde

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