Hipócrates, conhecido como o pai da Medicina, proclamava os alimentos como o melhor remédio. Mas as suas afirmações iam mais longe, ao dizer que somos aquilo que comemos. Por este motivo, importa, pois, saber de que forma os alimentos podem ser uma arma a favor – e não contra – a saúde.
Corria o ano de 1989, quando se introduziu, pela primeira vez, o conceito de alimentos funcionais. Este termo, inventado no Japão, serviu os objectivos do programa FOSHU (sigla, do inglês, que significa alimentação para uso específico da saúde).
Os japoneses preconizavam a utilização de alimentos que, para além das suas propriedades nutricionais, pudessem acarretar benefícios para a saúde. Até à data, este foi o único país, a nível mundial, a reconhecer legalmente esta categoria alimentar.
“Actualmente, para além dos aspectos gustativos, os consumidores procuram casar o sabor com os benefícios que os alimentos acarretam para o organismo e para a saúde”, diz a Dr.ª Alexandra Bento, presidente da Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN). A especialista lembra, ainda, que esta questão é, hoje em dia, uma das grandes preocupações da indústria alimentar, contrariamente ao que se passava há 15 anos atrás.
“Há cerca de uma década atrás, a indústria investia, sobretudo, nos procedimentos de higiene e segurança alimentar. Mas, neste momento, para além destes aspectos, desloca o cerne das suas preocupações para as questões nutricionais. Veja-se, por exemplo, a redução do sal, do açúcar e da gordura dos seus produtos. Este é, de facto, o caminho”, adianta.
A nutricionista entende que as empresas alimentares devem fixar pactos de entendimento, para que, em conjunto, consigam incrementar hábitos de alimentação mais saudáveis. Como tal, Alexandra Bento aconselha a indústria a fazer “o diagnóstico dos produtos”, com o objectivo de reduzir em quantidade as substâncias que podem ser prejudiciais à saúde.
Uma dieta desequilibrada, conjuntamente com a falta de exercício físico, tem vindo a ser apontada como um dos factores directamente relacionados com o aparecimento de determinadas doenças.
Note-se, por exemplo, a obesidade, as patologias de foro cardiovascular, a diabetes e a hipertensão, cujos números disparam a nível mundial. “Todos os actores têm a responsabilidade de alterar os regimes alimentares: desde os profissionais de saúde, que devem processar alterações e educar o doente e o consumidor, passando pelas empresas de bens alimentares”, continua.
A este propósito, a Organização Mundial de Saúde (OMS) indica que o aumento do consumo de frutas e legumes reduz a incidência de doenças crónicas não transmissíveis a nível mundial. A indústria, não alheia a esta recomendação, aplica os conhecimentos da tecnologia alimentar ao serviço do consumidor, ao colocar produtos que permitam responder às necessidades nutricionais.
Alimentos com propriedades medicinais
Uma alimentação correcta e variada pode ser o ponto de partida na redução ou prevenção de determinadas patologias. Basta ver que, devido às propriedades medicinais, muitos alimentos funcionais foram catalogados de “nutracêuticos”.
Mas este termo em nada se relaciona com comprimidos ou cápsulas. “A presença de um ou mais compostos biologicamente activos e de origem natural beneficia o bem-estar físico e psicológico”, explica Alexandra Bento.
Os alimentos funcionais podem ainda, conter indicações terapêuticas. Tome-se por exemplo o leite: por ser rico em cálcio ajuda a prevenir ou retardar o aparecimento da osteoporose.
Mas a lista de alimentos com propriedades benéficas para o organismo não se esgota no leite. Uma laranja, devido aos constituintes em vitamina C e fibras, pode, por outro lado, proteger contra as gripes e constipações. Já para não falar no ómega 3, presente no salmão, na sardinha e no atum, com propriedades capazes de prevenir as doenças cardiovasculares.
Contudo, como ressalva Alexandra Bento, apesar do benefícios nutricionais, “os alimentos devem ser encarados no contexto de um estilo de vida saudável, consumidos como parte integrante de uma alimentação variada, e não como uma solução mágica para a saúde e prevenção das doenças”.
Existem, ainda, outros alimentos, que, apesar de manterem as propriedades típicas, são enriquecidos com outras substâncias nutricionais, que ajudam o organismo a funcionar melhor.
São os chamados alimentos enriquecidos, que, como o próprio nome já indica, resultam de um processo de manipulação industrial, tendo em vista um benefício adicional para a saúde.
No entanto, e muito embora estes produtos proliferem nas prateleiras dos supermercados, de acordo com a directiva europeia, é expressamente proibido publicitar ou veicular «informações que induzam em erro o comprador ou que atribuam propriedades medicinais” aos géneros alimentícios.
«À semelhança do que acontece com os medicamentos, a indústria alimentar tem de submeter os seus produtos a estudos científicos, para, a partir daí, poder alegar que os mesmos produzem resultados favoráveis na redução ou combate de determinada patologia», sublinha a nutricionista.
Benefícios dos compostos nutricionais
– Probióticos: microrganismo vivo que ajuda a restabelecer o equilíbrio da flora intestinal. São as chamadas “bactérias boas”, resultantes da fermentação do leite;
– Prébióticos: são o substrato dos probióticos. Ajudam a activar o sistema imunitário e auxiliam a absorção do cálcio pelo organismo. Estão presentes nas fibras do pão, dos cereais, nos frutos e, em maior quantidade, nos legumes;
– Antioxidantes: ajudam a reduzir o risco cardiovascular e a neutralizar os radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento celular. Estão presentes nas frutas e vegetais, tais como o tomate e cebola;
– Esteróis vegetais: estes compostos de origem vegetal ajudam a diminuir a absorção intestinal do colesterol;
– Ácidos Gordos polinsaturados: os ómega 3, presentes nos peixes gordos, como a sardinha, atum e salmão, demonstraram resultados na redução dos lípidos e na prevenção das doenças cardiovasculares.
Jornal do Centro de Saúde
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