Na última década, assistiu-se ao desenvolvimento de uma nova epidemia nos EUA e Europa, denominada Obesidade. Considera-se obesidade quando o índice de massa corporal (IMC) ultrapassa os 30, e excesso de peso quando o IMC se situa entre os 25 e 30. Dados relativos à população americana revelaram um acréscimo de obesos de 14-16% em 1995, para 25% em 2005.
Também na Europa se verifica esta tendência, e os dados referentes à população portuguesa adulta demonstraram que 53% dos portugueses apresentam excesso de peso, valor superior no sexo masculino, em que 60% apresenta IMC superior a 25.
Apesar da sua banalização, a obesidade não deve ser considerada uma variante do normal, mas sim uma doença. São inúmeras as co-morbilidades associadas ao excesso de peso, atingindo vários órgãos e sistemas.
A influência da obesidade noutras patologias
A obesidade está implicada na patogénese da diabetes, hipertensão e dislipidemia, sendo pois um factor de risco cardiovascular relevante. Convém, no entanto, não reduzir a importância da obesidade ao risco cardiovascular acrescido e salientar que a gordura também causa doença noutros órgãos. Um deles é o fígado. Os hepatócitos são um dos locais preferenciais para a acumulação de gordura em excesso. O armazenamento da gordura no fígado leva ao desenvolvimento da esteatose hepática ou fígado gordo.
Em termos clínicos, os doentes não apresentam geralmente sintomas, e o diagnóstico é suspeitado na presença de alterações analíticas (aumento das transamínases) ou ecográficas. A ecografia permite detectar a esteatose hepática ao revelar um fígado difusamente mais claro e brilhante do que o rim. Com o incremento da obesidade verifica-se um aumento na incidência e prevalência do fígado gordo.
Embora um número elevado destes indivíduos nunca venha a desenvolver doença hepática significativa, sabe-se que alguns vão desenvolver doença mais agressiva, com inflamação hepática marcada (esteatohepatite) e progressão para cirrose e/ou carcinoma hepatocelular.
Esta evolução acontece porque a gordura hepática não é inofensiva, tornando o fígado mais vulnerável a outras agressões e diminuindo a sua capacidade de regeneração. Os ácidos gordos armazenados vão desencadear fenómenos inflamatórios cujo resultado final é a morte dos hepatócitos, a activação dos mecanismos fibrogénicos, com a deposição de colagéneo e a evolução para fibrose e cirrose. Sabe-se que os doentes com esteatohepatite apresentam uma doença progressiva, em que metade desenvolve fibrose e um terço evolui para cirrose. A biopsia hepática permite fazer o diagnóstico de esteatose hepática, distinguir entre esteatose e esteatohepatite, excluir outras causas de doença hepática e estabelecer o prognóstico com base no grau de fibrose existente.
Actualmente, o enfoque terapêutico centra-se no controlo do excesso de peso (quer seja por medidas dietéticas, farmacológicas ou cirúrgicas), já que se demonstrou uma diminuição da infiltração gorda hepática e melhoria das transamínases nos indivíduos que conseguiram emagrecer.
Em termos farmacológicos, as tiazolidinedionas são fármacos promissores, aumentando a sensibilidade do tecido adiposo e do fígado à insulina e redistribuindo a gordura visceral para os depósitos lipídicos subcutâneos. Têm também uma actividade anti-inflamatória, e em ensaios clínicos demonstraram serem capazes de normalizar as transamínases e melhorarem significativamente as lesões histológicas.
Em resumo, a obesidade produz doença hepática que hoje se sabe não ser tão benigna como inicialmente se presumia, podendo evoluir para doença hepática terminal. Em termos terapêuticos, não existe tratamento específico, e as principais medidas direccionam-se para a mudança do estilo de vida e tratamento da obesidade. Farmacologicamente, o enfoque dirige-se para fármacos capazes de aumentar a sensibilidade à insulina, embora inúmeros agentes de diversas classes já tenham sido utilizados com resultados por vezes contraditórios.
Susana Lopes
Assistente Hospitalar de Gastrenterologia
H. S. Marcos, Braga
Também na Europa se verifica esta tendência, e os dados referentes à população portuguesa adulta demonstraram que 53% dos portugueses apresentam excesso de peso, valor superior no sexo masculino, em que 60% apresenta IMC superior a 25.
Apesar da sua banalização, a obesidade não deve ser considerada uma variante do normal, mas sim uma doença. São inúmeras as co-morbilidades associadas ao excesso de peso, atingindo vários órgãos e sistemas.
A influência da obesidade noutras patologias
A obesidade está implicada na patogénese da diabetes, hipertensão e dislipidemia, sendo pois um factor de risco cardiovascular relevante. Convém, no entanto, não reduzir a importância da obesidade ao risco cardiovascular acrescido e salientar que a gordura também causa doença noutros órgãos. Um deles é o fígado. Os hepatócitos são um dos locais preferenciais para a acumulação de gordura em excesso. O armazenamento da gordura no fígado leva ao desenvolvimento da esteatose hepática ou fígado gordo.
Em termos clínicos, os doentes não apresentam geralmente sintomas, e o diagnóstico é suspeitado na presença de alterações analíticas (aumento das transamínases) ou ecográficas. A ecografia permite detectar a esteatose hepática ao revelar um fígado difusamente mais claro e brilhante do que o rim. Com o incremento da obesidade verifica-se um aumento na incidência e prevalência do fígado gordo.
Embora um número elevado destes indivíduos nunca venha a desenvolver doença hepática significativa, sabe-se que alguns vão desenvolver doença mais agressiva, com inflamação hepática marcada (esteatohepatite) e progressão para cirrose e/ou carcinoma hepatocelular.
Esta evolução acontece porque a gordura hepática não é inofensiva, tornando o fígado mais vulnerável a outras agressões e diminuindo a sua capacidade de regeneração. Os ácidos gordos armazenados vão desencadear fenómenos inflamatórios cujo resultado final é a morte dos hepatócitos, a activação dos mecanismos fibrogénicos, com a deposição de colagéneo e a evolução para fibrose e cirrose. Sabe-se que os doentes com esteatohepatite apresentam uma doença progressiva, em que metade desenvolve fibrose e um terço evolui para cirrose. A biopsia hepática permite fazer o diagnóstico de esteatose hepática, distinguir entre esteatose e esteatohepatite, excluir outras causas de doença hepática e estabelecer o prognóstico com base no grau de fibrose existente.
Actualmente, o enfoque terapêutico centra-se no controlo do excesso de peso (quer seja por medidas dietéticas, farmacológicas ou cirúrgicas), já que se demonstrou uma diminuição da infiltração gorda hepática e melhoria das transamínases nos indivíduos que conseguiram emagrecer.
Em termos farmacológicos, as tiazolidinedionas são fármacos promissores, aumentando a sensibilidade do tecido adiposo e do fígado à insulina e redistribuindo a gordura visceral para os depósitos lipídicos subcutâneos. Têm também uma actividade anti-inflamatória, e em ensaios clínicos demonstraram serem capazes de normalizar as transamínases e melhorarem significativamente as lesões histológicas.
Em resumo, a obesidade produz doença hepática que hoje se sabe não ser tão benigna como inicialmente se presumia, podendo evoluir para doença hepática terminal. Em termos terapêuticos, não existe tratamento específico, e as principais medidas direccionam-se para a mudança do estilo de vida e tratamento da obesidade. Farmacologicamente, o enfoque dirige-se para fármacos capazes de aumentar a sensibilidade à insulina, embora inúmeros agentes de diversas classes já tenham sido utilizados com resultados por vezes contraditórios.
Susana Lopes
Assistente Hospitalar de Gastrenterologia
H. S. Marcos, Braga