“O médico tem pavor de errar” - Médicos de Portugal

A carregar...

“O médico tem pavor de errar”

18 Julho, 2005 0

João Morais é considerado pelos seus pares como um dos cinco melhores cardiologistas do País. Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Cardiologia, diz que há despesismo na Saúde e que os médicos prescrevem medicamentos em demasia porque têm “pavor de errar”

JORNAL DE LEIRIA (JL) – Que motivos terão levado um conjunto de especialistas a considerá-lo um dos cinco melhores cardiologistas do País?

João Morais (JM) – Se significa o reconhecimento pelos meus pares, até porque tenho há muitos anos uma relação saudável com a cardiologia portuguesa, é muito agradável. Independentemente de ser dos cinco melhores ou não, o facto de ter sido destacado pela positiva, agrada-me muito. Esse reconhecimento é também pelos cargos que tenho ocupado, ao longo dos últimos 20 anos.

JL – Essa distinção abrange o trabalho que desenvolve no Hospital de Santo André?

JM – Apesar de tudo, não serão muitos os que, ao fim de 18 anos a trabalhar num grande hospital e num serviço fabuloso e com toda a tecnologia, em Coimbra, se disponibilizam para remontar um serviço de cardiologia num hospital periférico e distrital. Envolve alguma coragem pessoal. Em condições muito limitadas, consegui montar um pequeno serviço do qual hoje se fala e onde os doentes, penso, são bem atendidos. É evidente que essa decisão também me trouxe a mais valia de poder atingir o topo da carreira e o direito ao meu próprio canto, que posso construir à minha imagem e dinâmica.

JL – Quando concorreu ao cargo de chefe de serviço de Cardiologia disse ter como objectivo colocar Leiria no alto nível desta especialidade. O objectivo está cumprido?

JM – Vamos conseguindo, embora haja uma condição, que não previa, que é a clara escassez de médicos. Pensei que a situação pudesse não ser tão grave. Há um défice brutal de médicos que na Cardiologia é particularmente sentido, porque os grandes serviços absorvem quase todos os médicos. E das duas uma. Ou se criam atractivos para eles se deslocarem ou então há muita dificuldade. Por isso, este serviço não tem conseguido crescer muito mais, além dos meios tecnológicos e no atendimento aos doentes, como eles próprios o reconhecem.

JL – Há lista de espera nas consultas de Cardiologia em Leiria?

JM – Não quero ter doentes para ver daqui a um ano. Prefiro ter, passe a expressão, uma atitude mais honesta. Este serviço é pequeno (tem apenas quatro médicos), e não temos capacidade de atender todos os doentes que recorrem a nós. Prefiro ser selectivo. Estou a fazer marcações para daqui a três meses, mas esses doentes eu garanto que vejo. O Conselho de Administração do hospital apoiou-me nesta decisão. Peço desculpa aos doentes, mas tem que ser assim. A selecção é feita por mim, depois de analisar todos os pedidos que me chegam. Muitos são referenciados para Cardiologia mas nada têm de significativo, do ponto de vista cardíaco.

JL – As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal e em idades cada vez mais precoces. Como se pode inverter a situação?

JM – Do ponto de vista mundial, vislumbram-se luzes ao fim do túnel. Alguns países mais desenvolvidos conseguiram nos últimos anos, inverter essa tendência. Isso devido à tomada de múltiplas medidas, como a luta anti-tabagismo. Essa tendência começa a ser contrariada pelo aparecimento de novos flagelos, como a obesidade. Portugal será terrivelmente atacado com enfartes do miocárdio daqui a 15, 20 anos, se não se fizer nada junto dos jovens. O emergir deste gravíssimo problema, que há alguns anos se pensava afectar apenas os americanos, é também europeu e muito português.

JL – Somos do País da Europa que mais percentagem gasta do seu PIB na Saúde. O que falha?

JM – Atrás dessa pergunta andam governos há 30 anos. Há, indiscutivelmente, despesismo na Saúde. Isso tem a ver com a desorganização do sistema, que não permite articular os cuidados primários, secundários e terciários. Há uma dispersão dos vários intervenientes com relações, às vezes pouca claras, entre sectores público e privado. Consomem-se quantias astronómicas de Exames Complementares de Diagnóstico nos hospitais e fora deles. Uma boa parte são repetições. Qual é o doente que sai de um grande hospital sem fazer dez ou 15 exames? E, frequentemente, chega ao seu médico e vai repetir tudo. E vice-versa. Do meu pequeno serviço, não sai nenhum doente sem uma carta para o seu médico, outra para ele e com as cópias dos exames complementares de diagnóstico. A informação clínica que neles consta é propriedade, antes de mais, do doente.

JL – Acredita nas medidas anunciadas pelo novo Governo?

JM – Pago para ver. Há mudanças que têm de ser feitas, é evidente. Mas para já, que eu saiba, o ministro só avançou com generalidades e alguns projectos de intenção. Correia de Campos é um homem muito conhecedor, que merece o respeito de todos, mas a materialização das ideias não foi anunciada. Quando diz que vai reduzir o consumo de horas extraordinárias em serviços de urgência, nem sequer imagino como isso será possível. O serviço de urgência é a chave da saúde em Portugal. Muitos portugueses não têm acesso fácil ao médico de família, nem às consultas de cuidados primários, para não falar nas especialidades. Quando têm um problema vão sempre bater à porta das urgência, a pior que pode haver. Uma medida que me agrada tem a ver com a articulação dos sectores. Faz sentido a ideia de que hospital e centro de saúde podem funcionar de forma integrada, eventualmente com uma gestão comum.

JL – O exagero de exames é uma auto-defesa dos médicos?

JM – É a chamada medicina defensiva. O médico sente-se muito pressionado a não errar, quanto mais não seja do ponto de vista emocional. Nos últimos anos, tem havido a tendência do médico para exacerbar isso. Além do seu próprio juízo e do código deontológico, o médico tem a pressão da Comunicação Social e de uma indústria ligada ao direito e à justiça. O médico tem pavor de errar. Estamos a assistir a uma desvirtuação do próprio acto médico, que deixou de ser apenas partilhado entre médico e doente. Hoje, todos têm medo que lhe entre a SIC ou a TVI pelo consultório a perguntar: “O seu doente morreu? Foi negligência?” A nova geração de médicos está muito permeável a isto.

JL – O modelo das empresas S. A. funciona bem?

JM – Vivi o processo de transição deste hospital para S. A.. Leiria tem uma situação confortável e tem aparecido bem classificado nos rankings do Ministério da Saúde. É algo que nos agrada, embora não signifique que os problemas estejam resolvidos. Longe disso. Há é uma gestão muito cuidadosa de recursos e não há tantos desperdícios. Mas os hospitais são um bem público e comum, que não devemos menosprezar. Dizer que os hospitais devam cair no domínio privado, é algo que me faz confusão. Os sistemas públicos têm de viver em consonância com o privado, o que não quer dizer que haja um relegar do sector público para o privado.

JL – Concorda com a eliminação dos diversos sub-sistemas de saúde?

JM – Do ponto de vista teórico era capaz de dizer que sim. O grande problema é que fico com a sensação que se vai nivelar por baixo e isso faz-me confusão. Vejo doentes dos múltiplos sistemas de saúde que estão seriamente preocupados e percebo porquê. Sem particularizar, há sistemas de saúde razoáveis e claro que, com estas medidas, se perderão benefícios. Sei que o Governo quer poupar dinheiro, que é uma obsessão. Mas nenhum ministro, nos últimos dez anos, conseguiu dizer ao certo qual o défice da saúde. É sempre mais ou menos. Com o passar dos tempos, já nem sabem em quantos dígitos vai.

JL – Temos um alto índice de consumo de medicamentos. Os médicos prescrevem em demasia?

JM – Temos de ter algum cuidado quando dizemos que se prescreve cada vez mais medicamentos. E falo da Cardiologia, que é o que conheço melhor. Há 15 anos, qualquer doente com enfarte do miocárdio, seria medicado com dois medicamentos. Hoje nenhum doente sai sem, pelo menos, cinco medicamentos diferentes. Isto porque a investigação nos diz que este grupo de medicamentos são benéficos e têm de ser obrigatoriamente tomados pelos doentes. Não podemos meter tudo no mesmo saco. Mas não posso nem devo realmente ignorar ou meter a cabeça na areia. Há realmente um aumento de consumo de medicamentos por razões que não têm a ver, propriamente, com a correcção do acto médico mas, mais uma vez, com a desorganização e falta de articulação do centro de saúde, hospital e medicina preventiva.

JL – Genéricos? Sim ou não?

JM –Não podemos ser fundamentalistas. Por mim falo. No início quase não os usava, agora uso muito mais. Mas é evidente que os genéricos levantam aos médicos algumas reservas, que têm que ver com o controlo de qualidade. Há uma série de indicadores que nos levam a ter alguma prudência. Existem genéricos em todo o mundo e Portugal tem que os usar cada vez mais, para poupar algum dinheiro. Só que o poder tem de nos garantir a qualidade dos genéricos e a forma de medir a sua eficácia. Porque é que temos genéricos de marca, da casa A, B ou C, que não são um mero produto branco e que até podem ter preços diferentes? Isto não ajuda a dar confiança aos médicos.

JL – Tem alguma apetência política?

JM – Não tenho nenhuma apetência pelo lugar político. Aí, direi que apenas quero ser médico. No entanto, ao longo da vida, fui tendo algumas participações de natureza cívica. Não devemos pautar a nossa intervenção só pelo que fazemos no dia-a-dia mas tomar posições públicas. Devemos defender aquilo em que acreditamos e contestar aquilo que achamos mal. Ou seja, sermos um pouco políticos no nosso dia-a-dia e não deixar isso apenas nas mãos de outros.

JL – Como analisa a situação económica do País?

JM – Sabemos que vamos todos de dar o nosso contributo para resolver esta questão. Mas entre as medidas tomadas para resolver o défice, vejo falar muito pouco na invasão fiscal. Preocupa-me que em Portugal se peça sempre aos mesmos. Sou privilegiado, mas olho para quem está ao meu lado: os meus doentes e quem trabalha comigo. O País, no pós-25 de Abril de 1974, conseguiu desenvolver uma classe média bastante forte. Uma classe que percebeu que valia a pena viver neste País e que hoje é fortemente penalizada.

JL – Há quem diga que de “Zé Povinho” passou a ser “Xico esperto”? O que pensa?

JM – Este País, de facto, tem 30 anos. O que está para trás do 25 de Abril não conta. Renasce em 1974 e com esse renascer há todo um novo viver do ser português. É um recuperar de décadas e décadas perdidas, o que nos levou por vezes por caminhos menos claros. Todos reclamam direitos e ninguém fala em deveres. O homem novo tem que nascer nas escolas. Não podemos esperar que um adulto formado (ou deformado) mude. Vieram fundos europeus mas desbaratou-se muita coisa, sobretudo no âmbito da educação. Ao português não lhe chamarei “Chico esperto”, acho antes que tem virtudes que outros povos da Europa não têm. Isso é bom só que nunca o conseguimos aproveitar na sua verdadeira essência. Se o aproveitássemos, sob o ponto de vista cultural, provavelmente tínhamos um homem culto a desenrascar-se. Assim só temos homens a desenrascar-se. Gastámos milhões em estradas e em óptimos edifícios, mas perdemos o desafio da cultura. Aí é que acho que estamos a milhas da União Europeia. Não é por termos o Centro Cultural de Belém ou agora a Casa da Música do Porto que somos cultos.

JL – Nasceu no Porto, estudou em Coimbra, trabalha em Leiria mas vive na Figueira da Foz. Porquê?

JM – Vivo na Figueira desde 1990. Foi uma opção familiar porque a minha mulher, também médica, foi trabalhar para lá. A Figueira é um local encantador para viver. Gosto muito de mar e tenho a felicidade de ter uma casa muito perto dele, o que é fantástico. Depois de terminar o curso, em 1979, fui para Castelo Branco. Em 1983, iniciei a especialidade de cardiologia em Coimbra, onde fiquei a trabalhar até 2000, dedicando-me quase em exclusivo aos cuidados intensivos. Lidar com a fronteira entre a vida e a morte foi algo que sempre me desafiou.

JL – Tem tempos livres?

JM – Mesmo esses são muito ligados à profissão. Ao longo do ano chego a fazer 50 intervenções no País e no estrangeiro. Tento manter-me informado, não prescindindo da leitura de um diário e de um semanário. Não prescindo também da internet que, para mim, é vital. Não há dia que não consuma, pelo menos, hora e meia no computador. Gosto muito de estar com a família (mulher e dois filhos), partilhar a mesa e de um bom vinho. Deixei de fumar há alguns anos, mas um charuto, ao fim-de-semana, dá-me muito prazer.

Dr. João Morais,
director do serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André

Perguntas dos outros

Lurdes Rocha,
coordenadora distrital da Prevenção das Doenças Cardiovasculares

Qual o papel dos médicos de família na luta contra as doenças cardiovasculares?

Quase diria que é todo. Esse papel deve ser iniciado antes que o doente dê entrada no hospital. Só que reconheço que o médico de família tem um papel extremamente complicado, porque o sistema de saúde não funciona bem. Desempenha um conjunto de actividades, tarefas e desafios, que lhe deixam pouco tempo para tomar conta da família e evitar que ela adoeça. Não há prevenção nas escolas, nas empresas, nem nas comunidades e, portanto, o que resta aos médicos de família é tratar dos doentes.

Jorge Ferreira,
médico nutricionista, Leiria

Que medidas se podem tomar para as pessoas terem uma alimentação mais regular?

É um problema geracional por isso há que investir, sobretudo, nas camadas mais jovens.

Anabela Lucas,
chefe de serviço do Centro de Saúde de Porto de Mós

Quais as restrições, nomeadamente sexuais, nos primeiros seis meses, após um enfarte do miocárdio?

Partindo do princípio que o doente está numa situação estável, no dia a seguir à saída do hospital pode ter relações sexuais. Tem é que ser uma prática saudável e regular. Não é altura para grandes aventuras, nem vão de escadas. A pessoa que vive com o doente deve colaborar nesta discussão. Como o doente não fala neste assunto, porque é tabu, o médico deve provocar a conversa.

Percurso

João Morais, 51 anos, director de serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André, foi considerado um dos cinco melhores cardiologistas do País, pelos seus pares. O seu nome integra a selecção de 50 médicos de dez áreas diferentes, feita entre centenas de médicos, num trabalho especial da revista “Sábado”. É membro da Direcção da Associação Portuguesa de Cardiologia e ocupa um lugar de destaque, na Sociedade Europeia de Cardiologia. É licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, especialista em Cardiologia desde 1997, granjeou o título de Cardiologista Europeu em 2001 e de “Fellow da European Society of Cardiology” em 2003. Desempenha um total de 13 cargos e funções em instituições médicas diversas e integra 16 sociedades científicas, portuguesas e estrangeiras. É ainda autor de dezenas de estudos, no âmbito da actividade científica.

Páginas: 1 2

ÁREA RESERVADA

|

Destina-se aos profissionais de saúde

Informações de Saúde

Siga-nos

Copyright 2017 Médicos de Portugal por digital connection. Todos os direitos reservados.