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Unidade de Monitorização de Epilepsia e do Sono quer ajudar o Pedro a viver melhor

1 Maio, 2005 0

«Oh!, Pedro, outra vez?», é uma pergunta em forma de lamento frequente no Hospital de Leiria, que explica as cicatrizes espalhadas pela cabeça de Pedro Leal, 19 anos.

Este jovem tem, desde muito cedo, a vida marcada por uma epilepsia grave. Os pais começaram a notar que algo não estava bem com o filho, sobretudo, a partir dos 4 anos, e aí, quando foram ao médico, tiveram a certeza de que se tratava de epilepsia. Mas o problema já vinha de trás e foi decorrente de um parto traumático.

O Dr. Francisco Sales, que segue o Pedro na Unidade de Monitorização de Epilepsia e do Sono (UMES) do Serviço de Neurologia 2 dos Hospitais da Universidade de Coimbra, confirma esta ideia.

«Ele fez um acidente vascular cerebral no período perinatal e quando chegou à altura de poder começar a andar os pais repararam que isso não acontecia. Descobriu-se que metade do corpo estava paralisada, o que deu origem, depois, a crises epilépticas muito graves», atesta o médico.

Os pais andam sempre com o coração nas mãos. «Quando o telefone toca é um sobressalto permanente porque as crises são constantes e imprevisíveis», diz a mãe, Albina Leal, 44 anos. Isto significa que o Pedro pode estar bem, ao andar na rua ou sentado numa cadeira, a ajudar no jornal da escola, no Centro de Recuperação de Crianças Deficientes de Fátima, como de repente se pode estatelar no chão, de cabeça, sem qualquer amparo. As consequências são óbvias.

A onda de crises agudizou-se principalmente a partir dos 14 anos. Maria Albina, empregada fabril, confessa que já teve de «comprar um capacete para o Pedro usar enquanto anda na rua», de modo a permitir que o filho não martirize mais a cabeça com ferimentos resultantes de tombos imprevisíveis.

Embora o Pedro não goste, sabe que «é o melhor para ele», diz o pai, Virgolino Leal, 45 anos, construtor civil. «Já perdemos a conta às vezes que tivemos de ir ao hospital com ele», suspira. Diz a mãe que, «só hoje, o Pedro teve cinco crises, enquanto esperávamos aqui no hospital».

A pedra de toque para que o Pedro perca o controlo são, imagine-se, a alegria em relação a alguma coisa, o entusiasmo, a excitação perante um momento de maior felicidade ou ainda, por exemplo, quando se deita mais tarde, segundo os pais.

A técnica de um cirurgião francês para ajudar o Pedro

Esta família, que vem de Loureira, uma aldeia perto de Fátima, tem agora uma nova esperança para melhorar a condição do filho. Uma cirurgia com uma técnica desenvolvida recentemente pelo médico francês Olivier Delalande, que virá de propósito aos HUC, é a solução para permitir ao Pedro melhorar significativamente o quadro grave de epilepsia que o atinge.

Sabem que nem tudo se vai resolver definitivamente, até porque à epilepsia do Pedro junta-se um défice cognitivo. No entanto, Maria Albina Leal espera «que esta operação traga mais independência» ao filho.

De uma forma simples, a operação de que o Pedro e mais uma rapariga vão ser alvo, nos HUC, consiste na abertura de uma espécie de «túnel» na zona cerebral afectada e que origina a epilepsia.

«O objectivo da chamada hemisferotomia é desconectar as zonas cerebrais, ao contrário de remover tecido, sendo uma intervenção muito menos invasiva», explica Francisco Sales.

A causa da epilepsia nem sempre está associada a uma lesão cerebral. Aliás, em 30 a 40% dos casos o motivo das crises não é descortinável. E muito menos se deve pensar que a epilepsia é imediatamente sinónimo de doença mental. «Esse é um estigma que deve ser ultrapassado e é preciso que as pessoas reconheçam bem essa fronteira», refere a enfermeira Ana Isabel Silva.

Se há quem pense que pode haver contágio, apenas pelo contacto com a pessoa afectada, não vá por aí. É totalmente falso esse conceito e mais: qualquer pessoa pode vir a ter uma crise de epilepsia se ultrapassar um dado limite, em determinadas circunstâncias: a falta de sono, a ingestão de fármacos ou o abuso do álcool.

Uma unidade com cinco camas

A UMES de Coimbra foi criada especificamente para diagnosticar, seguir e tratar doentes com epilepsia. As tecnologias mais recentes estão ali ao serviço dos doentes. Qualquer dúvida pode ser desfeita em relação a pessoas que manifestam episódios semelhantes às crises epilépticas, mas que podem não ter a patologia.

«Essa é uma situação frequente e aqui temos os meios que permitem fazer a destrinça. São os chamados “falsos positivos”, algo que é mais claro nas crianças do que em adultos», explica a Dr.ª Conceição Robalo, neurologista que faz a ponte entre o Hospital Pediátrico de Coimbra e a UMES.

Aquela unidade, de características únicas em Portugal, também procura determinar e classificar o tipo de epilepsia verificada em cada caso.

«Não são suficientes as explicações familiares ou dos próprios indivíduos afectados. A nossa intenção é estudar as crises, para saber de que modo elas são despoletadas, onde é que estão localizadas, enfim, conhecer a fundo uma situação concreta, de modo a definir a melhor medida terapêutica», sublinha a especialista.

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