Arquivo de Psiquiatria - Página 2 de 6 - Médicos de Portugal

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Na sessão dedicada à "Qualidade no Serviço de Psiquiatria", deu-se ênfase à questão da importância da opinião da pessoa com diagnóstico de doença mental e à sua satisfação perante o serviço prestado. Um elemento importante, já que, de acordo com o Dr. Manuel Jara, Psiquiatra, o doente psicótico continua a ser considerado uma ‘pessoa muda'".


Ainda nesta sessão, foi apresentado um estudo promovido pela Comissão de Humanização e Qualidade dos Hospitais de Coimbra que, de Janeiro a Junho de 2011, sinalizou 417 casos, e que nos deu a conhecer o "doente-tipo" da unidade de saúde. Cerca de 47% de mulheres e 53% de Homens, recorrem a estas unidades essencialmente devido ao consumo de álcool (13.6%), seguido de Depressões Major (13%) e de Doença Bipolar (8.6%). Os homens apresentam-se como sendo mais jovens, solteiros e desempregados, enquanto que as mulheres são casadas ou viúvas e ligadas à área doméstica/serviços.


Na sessão "Psiquiatria e Sociedade", o principal enfoque foi dado à forma como tem sido levado a cabo o processo de desinstitucionalização da pessoa com doença mental, resultante do programa de fecho de Hospitais Psiquiátricos. Dr. Walter Osswald, Psiquiatra, falou da ética médica e da imperatividade desta conduzir directamente ao bem-estar do doente, algo que considera estar a ser posto em causa devido a este desacompanhamento abrupto, resultante de processos de re-institucionalização dos doentes em outras unidades de psiquiatria.


Na conferência "Capacidade e Competência: entre a psiquiatria, a lei e a ética", abordou-se a questão da competência para acções legais, por parte das pessoas com doenças mentais. De acordo com o Dr. Horácio Firmino, responsável pela Unidade de Gerontopsiquiatria do Serviço de Psiquiatria dos HUC, é dever do médico aceitar que os seus pacientes procurem segundas opiniões. "O diagnóstico de demência não implica a falta de competência", ressalva. Adiantando por outro lado que "a Capacidade de Decisão não deve ser entendida como um tudo ou nada, pois poderá ter capacidade de decidir em alguns assuntos e noutros não.".


"Ressonância magnética Funcional e NOC" foi outro dos temas principais deste segundo dia de trabalhos. Nele procurou falar-se da importância da ressonância magnética na elucidação das bases neurológicas dos processos cognitivos na doença. Estudar os efeitos específicos da psicoterapia cognitiva-comportamental na actividade neurológica de indivíduos com perturbações emocionais está ainda no início. A estatística poderá auxiliar neste campo.


Por último, de que forma o "Stress, a inflamação e a depressão surgem enquanto conectores para a demência?". Uma sessão que foi conduzida pelo Dr. Brian Leonard, Psiquiatra, que permitiu perceber de que forma o desequilíbrio social e físico pode levar directamente a um estado de psicose e de patologia do foro psiquiátrico.





Pedro Gamito, director do LabpsiCom, Laboratório da Universidade Lusófona em Lisboa, demonstrou como as tecnologias podem ajudar o serviço clínico e melhorar a vida das pessoas, confrontando os doentes com situações semelhantes àquelas que serviram como elementos traumatizantes.


Por meio de uma realidade virtual, paralela, estas pessoas deparam-se directamente com os seus medos e receios, facilitando o diagnóstico médico e respectivo tratamento. O uso deste método poderá reduzir os custos e a morosidade associados ao tratamento com determinadas terapêuticas e simultaneamente permitir ao sujeito trabalhar distintas questões do seu foro psíquico.


Por seu turno, na sessão dedicada aos "Novos paradigmas no diagnóstico das demências", abordou-se a questão da evolução do conceito ao longo da história, desde os seus primórdios, quando era vista enquanto consequência inevitável do envelhecimento, até aos dias de hoje, abordada enquanto perda da capacidade cognitiva, sem correlação directa ao factor idade.


De acordo com o Dr. Joaquim Cerejeira, psiquiatra, a vida activa, que englobe estimulação cerebral e exercício físico, surge como factor preventivo da demência. A importância de marcadores biológicos, enquanto elementos sinalizadores, de avaliação e medição de um processo patológico, foi outro dos temas abordados nesta sessão, pelo Dr. Luiz Cortez Pinto, do Hospital Garcia de Orta.


No segundo dia do Congresso, o destaque vai para os temas: a "Ressonância magnética funcional e NOC", "Psiquiatria e Sociedade", "Stress, inflamação e depressão: a conexão para a demência?", "Qualidade no serviço de psiquiatria", e "Capacidade e competência: entre a Psiquiatria, a Lei e a Ética".


A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que 450 milhões de pessoas sofram de algum distúrbio mental em todo o mundo. Destas, menos de metade recebe tratamento. Os preconceitos e estigmas associados à doença mental podem ser a causa do subdiagnóstico deste tipo de doenças, que leva ao reduzido acesso aos cuidados de saúde e tratamentos nesta área.





Sem que nada o preveja, o coração parece saltar do peito. Um batimento forte e rápido, semelhante ao galope de um cavalo. As mãos suam, o formigueiro toma conta do corpo e os tremores perturbam o raciocínio. Segundos em que palpitações e dores convergem num desconforto perturbador. Muitas pessoas que sofrem de ataques de pânico pensam que vão morrer - são normalmente 15 a 20 minutos verdadeiramente assustadores.


Súbitos, sem motivo aparente e frequentemente provocados por situações triviais, como uma ida ao cinema ou uma viagem de comboio, estes episódios de profunda ansiedade e medo são acompanhados por sintomas físicos habitualmente associados a uma resposta do organismo a uma situação de extremo perigo. Se alguém nos apontar uma arma de fogo, o corpo prepara-se para fugir, acelerando a frequência cardíaca, com um afluxo de sangue aos músculos, transpiração e rubor. Surge o medo e o estado de alerta agudiza-se. Só que num ataque de pânico, essas alterações acontecem sem que exista perigo real. No auge de cada crise, existe uma sensação de catástrofe iminente.


Este quadro imprevisível alcança a sua intensidade máxima em cerca de 10 minutos e normalmente dissipa-se em poucos minutos, não sendo por isso possível ao médico observar a sintomatologia mas apenas a ansiedade que ela provoca, envolvendo quem sofre a crise num clima de medo constante, receando o aparecimento de um novo episódio a qualquer momento.


Um ciclo vicioso com efeitos negativos na qualidade de vida, podendo mesmo abrir caminho à agorafobia - o receio de lugares públicos, de onde possa ser difícil sair rapidamente. Pode ser um estádio de futebol, um cinema, um aeroporto, um supermercado, um autocarro, comboio ou avião, uma ponte ou um túnel.


Nas situações mais graves, a pessoa acaba por se enclausurar na residência, o que, tendo em conta que a doença afecta sobretudo adultos jovens, pode revelar-se desastroso para o desenvolvimento profissional e social.


São habitualmente pessoas na plenitude das suas capacidades, do seu potencial de trabalho e que, devido aos ataques de pânico e à fobia a eles associada, podem, por exemplo, recusar uma promoção se ela implicar viajar.


Comum a estes doentes é, aliás, algum absentismo laboral, recusa sucessiva de convites profissionais e sociais (o que gera afastamento e perda dos contactos sociais), uma progressiva deterioração económica, o que vai acentuando o isolamento, tão típico de quem sofre de agorafobia. Afinal, o pensamento recorrente é "vou ter a crise novamente?"


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Os factores que estão por detrás de uma depressão são muitos e também os sintomas são múltiplos, entre os de ordem física e os de ordem emocional. A pessoa chora com frequência, com as lágrimas a correr por tudo e por nada. Sente-se, além disso, vazia, inútil e culpada, mas também ansiosa e inquieta, surgindo uma clara dificuldade em tomar decisões.


O cansaço é uma constante, mesmo sem razão aparente. E também sem explicação podem perder-se ou ganhar-se quilos. O sono sofre igualmente perturbações, entre a dificuldade em dormir e uma sonolência constante. A este quadro juntam-se pensamentos negativos, que, no extremo, podem ser dominados pela ideia de morte e conduzir a tentativas de pôr fim à própria vida. O suicídio é, aliás, o risco último de uma depressão não identificada e não tratada.


Mas a memória e a concentração são também afectadas e aqui só o tratamento da depressão resolverá a situação.


Nem todos estes sintomas se concentram numa mesma pessoa, mas quando alguns estão associados e se prolongam por duas semanas ou mais, sem tréguas, considera-se que o quadro é de uma depressão.


 


Reconhecer o problema


Nem sempre se encontra uma explicação óbvia para estes sentimentos depressivos. Mas, com frequência, eles são desencadeados por momentos muito específicos na vida de uma pessoa. Momentos negativos como o desemprego, o divórcio, a morte de alguém próximo. Mas também momentos positivos como o nascimento de um filho.


Nesta balança de causas e consequências, há outros factores que podem estar na origem de uma depressão: doenças, alcoolismo, dependência de drogas e hereditariedade.


E até as hormonas parecem pesar: só assim se explica que as mulheres sofram de depressão duas vezes mais do que os homens. De tal forma que são elas quem mais atenta contra a própria vida, embora sejam eles os que mais concretizam o suicídio, uma diferença que se explica pelos métodos escolhidos por umas e por outros, os deles mais irreversíveis.


A depressão resulta de um desequilíbrio químico ao nível do cérebro, envolvendo dois dos principais neurotransmissores: a serotonina e a noradrenalina. São eles que regulam o nosso humor e uma deficiente comunicação entre as células acaba por induzir o descontrolo das emoções típico dos estados depressivos.


Independentemente da causa, o importante é que a pessoa reconheça a doença e procure ajuda profissional. É que, se não for tratada o mais precocemente possível, uma depressão pode prolongar-se por muito tempo e até tornar-se recorrente.


O tratamento é fundamental para o regresso a uma vida equilibrada. Faz-se com recurso a medicamentos, os antidepressivos, e a psicoterapia, isolados ou combinados. Envolve igualmente um esforço individual no sentido de alterar o estilo de vida, erradicando os factores que possam fomentar a depressão, o que passa, entre outras medidas, por reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, quando ele existe, e por aprender a gerir o stress.





Imagine que de um dia para o outro a sua vida muda... completamente. Depois de alguns avisos que ignorou ou que não assumiu como importantes. "É apenas cansaço", pensou. A rotina passa a ser outra, os seus gostos transformam-se, deixa de ter coragem para trabalhar, fica alheado do mundo, não dá atenção à família... Chega a um ponto em que só se sente bem num quarto escuro, deitado, sem ser interrompido. O mundo vai sendo cada vez mais seu e só seu. Um mundo que vai contra tudo o que sempre considerou como certo. Imagine que nem vontade tem de abandonar o pijama e muito menos de tomar banho ou de fazer a sua higiene diária.


É difícil, não é? Se lhe parece um cenário completamente hipotético e impossível, basta ler as seguintes linhas para perceber que é bem mais real do que parece. Mesmo que alguns a considerem a "doença da moda", ainda que para muitos o consumo de antidepressivos esteja em claro crescimento por falta de conhecimento de alguns profissionais de saúde, ou que para outros seja impossível pensar sequer na hipótese de virem a passar por uma vida diferente dentro da sua própria vida, em que uma nada se assemelha à anterior...


 


Sem motivo aparente


Isabel conta na primeira pessoa um historial de anos de depressão. "No início, não sabemos o que temos. É muito complicado", começa por contar Isabel. Sofre de depressão há já vários anos. Mas não é uma depressão qualquer. É uma doença que não tem uma forte condicionante que a motive (perda de um familiar, perda de emprego, solidão ou diagnóstico de alguma doença, para citar alguns exemplos) e que, "à partida, tem uma componente hereditária associada, uma vez que a minha mãe também sofria de depressão", esclarece. Isabel confessa que não se sentia mal fisicamente. Sentia apenas algum cansaço que a levou a consultar o seu "médico de família". Passou a não ter força, perdeu o apetite e não conseguia dormir. Posteriormente e sem qualquer motivo que o justificasse, "sentia uma grande tristeza e um enorme desânimo".


Isabel, ao contrário de muitas pessoas com doenças mentais, procurou de imediato ajuda. Acabou por ser consultada por um psiquiatra que lhe receitou antidepressivos. Aceitou a terapêutica por ter vivido de perto o problema da mãe e conhecer bem a doença.
"Após começar a ser medicada, demorei cerca de três meses para conseguir sair da depressão. Não tinha vontade de fazer nada, nem sequer consigo ler, que é algo que gosto de fazer nos tempos livres." Isabel vê-se, de um momento para o outro, confinada à cama e por vezes com a televisão ligada, que permanece acesa, com som ligado, mas não consegue captar a sua atenção. "Só me sinto bem deitada, sem que ninguém me diga nada ou me leve para algum lado. Qualquer esforço físico extra, como tomar banho, torna-se uma tarefa árdua e difícil de concretizar", confessa.


O marido e os filhos sempre acompanharam as suas depressões. Isabel até se consegue colocar no lado dos familiares e pensar no que sentem perante a sua doença, mas fica tão cansada que, pura e simplesmente, não reage.


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Uma unidade móvel de saúde interactiva vai iniciar um percurso por várias cidades. Com início em Lisboa (29 e 30 de Setembro), no Parque das Nações, o roadshow «No caminho para que deixe de doer» continua em Outubro: Santarém (6 e 7), Castelo Branco (14 e 15), Viseu (21 e 22) e Porto (28 e 29), entre as 9h e as 19h. Procurar ajuda especializada é fundamental para diagnosticar e tratar os sintomas emocionais e físicos associados a uma doença cuja prevalência está a aumentar em Portugal.


Através de conteúdos interactivos simples e didácticos, qualquer pessoa pode ficar a saber o que é a depressão, como se manifesta e quais os sintomas associados, o impacto no quotidiano familiar e profissional, visitar as regiões do cérebro envolvidas na depressão, responder a um auto diagnóstico que pode ser impresso para levar ao médico de família e visualizar pequenos filmes com situações de quadros depressivos. No website www.adepressaodoi.pt a actualização sobre esta iniciativa será diária.


A Unidade Móvel coloca à disposição dos portugueses mais informação sobre uma patologia que, na opinião do médico João Relvas, presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatria Biológica, «factores circunstanciais como as crises económicas e sociais, como a que vivemos actualmente, podem ser factores adicionais que contribuem para o aumento da depressão».


Lançada pela Lilly Portugal, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), da Associação Portuguesa de Psiquiatra Biológica (APPB), da Associação Portuguesa de Gerontopsiquiatria (APG) e da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB), esta iniciativa vai ser suportada por uma campanha de televisão, rádio, imprensa, on-line e de cartazes em unidades de saúde familiares e farmácias.


Para o presidente da SPPSM, António Palha, «esta iniciativa tem o mérito de ter uma informação isenta sobre uma importante patologia psiquiátrica, a depressão. Um melhor conhecimento da patologia depressiva nas suas várias expressões sintomatológicas é de grande importância para o público em geral». Quanto à depressão em Portugal, sublinha ainda, que os números não são animadores: «os últimos resultados do estudo epidemiológico nacional, coordenado pelo Prof. Caldas de Almeida, apontam para a prevalência de cerca de 7,9% de doentes com depressão em Portugal. Torna-se pois importante tomar medidas mais eficazes quanto ao acesso ao tratamento».


João Relvas, o presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatra Biológica, realça também, o facto de as mulheres registarem uma maior prevalência em relação aos homens, «o que pode estar relacionado com as diversas pressões a que estão frequentemente sujeitas». E acrescenta que «do ponto de vista biológico existem também outras causas associadas à depressão na mulher como o ciclo reprodutivo e as modificações hormonais da mulher ao longo da vida, nomeadamente os ciclos menstruais, a gravidez, a menopausa e ainda o período pós-parto e pós-aborto».


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Em todos estes exemplos, o indivíduo sente que dedica uma importância extrema a algo de que não consegue abdicar. Outras vezes o próprio não se apercebe, mas a exigência para satisfazer essa "vontade" passa a ser o centro da sua vida, ultrapassando a noção de razoabilidade e controlo do próprio sobre o seu comportamento.



A) Seja o modo como se utiliza os telemóveis, a Internet, as redes sociais - que parecem facilitadoras da comunicação, mas que desvalorizam a proximidade interpessoal.


B) Sejam as compras supérfluas, tantas vezes na origem de descontrolos financeiros, mas cuja repetição parece impossível de travar.


C) Seja o trabalho que passa a ser a única actividade que ocupa - o pensamento e as acções, sendo prioridade sobre todos os outros interesses e ocupações, trazendo à mistura uma sensação estranha de que não se consegue parar.


D) Seja no campo das relações humanas de intimidade, nos exemplos de procura incessante e troca constante de parceiros sexuais, com vista ao prazer sexual, ou pela procura desesperada de uma relação de intimidade e proximidade.


E) Seja nas utilizações perturbadas com a comida, ou no recurso exagerado ao ginásio, entre outros.


 


Impulsos difíceis de controlar


O problema é que todos estes comportamentos ocupam o centro das atenções de vida para essa pessoa. A própria não consegue controlar o comportamento, sentindo que é invadida por um forte impulso para o repetir, existindo mesmo sofrimento pela ausência da repetição.

Por vezes, a pessoa não admite, perante si e perante os outros, que isso constitui um problema, mas ao longo do tempo percebe que já não apresenta o mesmo prazer inicial, ou que já não lhe basta. O maior ou menor sofrimento do indivíduo perante a situação de dependência, de entre outros factores, depende também da consciência da mesma.

Mesmo sem enumerar as explicações psicológicas, biológicas ou sociológicas que explicam esta problemática, permitam-me referir que problemas deste tipo nos remetem para a existência de dificuldades na relação do indivíduo consigo próprio, e/ou com os outros. Permitam-me ainda sublinhar que a sua gravidade está associada à precocidade dessa "relação de dependência" e que quanto menos instalada a situação, menos "danos" terá provocado na vida da pessoa, daí que a procura de ajuda técnica se deva fazer o quanto antes.





O padrão saudável emocional não implica que a pessoa seja tranquila e que não tenha emoções, pois "um indivíduo normal reage às situações do quotidiano, sendo alvo de um processo de adaptação emocional constante", explica José Manuel Jara, director de serviço do Hospital Júlio de Matos.


Por isso mesmo "o ser humano é um ser perturbável emocionalmente, o que não significa que a pessoa seja doente. A perturbabilidade é a reactividade".


A forma como as pessoas reagem ao que ocorre à sua volta varia de acordo com a sua personalidade, sendo esta uma das principais variáveis que se considera na reacção emocional, existindo também outros factores. "Há pessoas que são mais serenas e que se adaptam mais facilmente às situações sem serem muito afectadas emocionalmente, enquanto outras são mais temperamentais e reactivas", explica o psiquiatra. Estas características de personalidade poderão ser transmitidas de pais para filhos, daí que possa dizer-se que "traços temperamentais e emocionais se herdam em certa medida".


As emoções regulam o nosso comportamento e não são totalmente irracionais. A irracionalidade emocional só existe se houver um desajustamento significativo em relação à forma de lidar com uma situação, acrescenta o psiquiatra.


 


Outros factores que interferem com o humor


O ambiente externo é outra das condicionantes do estado emocional da pessoa, sobretudo aquele que envolve as relações humanas e o ritmo de trabalho. "Se o contexto de relacionamento é tranquilo, a pessoa tende a reagir menos emocionalmente, ou seja, a não se irritar e tem emoções positivas, muito importantes no plano motivacional", adianta José Manuel Jara. No entanto, o psiquiatra ressalva que nem sempre as emoções negativas acarretam apenas aspectos negativos. Até porque "por vezes, é necessário as pessoas irritarem-se, porque perante coisas desagradáveis as pessoas têm que reagir.


Outra das variáveis que interfere na reacção emocional é o padrão sócio-cultural mutável de geração em geração. "Os portugueses são menos exuberantes do que os espanhóis, na medida em que são mais introvertidos e melancólicos".


Afirma ainda que alguns padrões de humor podem também ser aprendidos o que propicia a emergência de comportamentos emocionais muito imitativos.


As condições atmosféricas e as mudanças de estação constituem dois outros factores que influenciam o estado de humor das pessoas.


"Nos dias em que há uma mudança súbita de tempo - caracterizada por humidade e chuva miúda - os indivíduos podem ficar mais tristes ou mais irritadiços, sem motivo evidente.


Os próprios níveis de glicémia no sangue podem fazer a diferença quando se considera a dinâmica das oscilações de humor que dependem também de regulações metabólicas.


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Direccionadas para diversos públicos-alvo, dedicam-se a vários temas, ganham vida em diferentes suportes e algumas convidam à participação. Todas diferentes, porém todas iguais. Unidas pelo objectivo de alertar e sensibilizar, as campanhas de sensibilização são fundamentais para esclarecer dúvidas, despertar assuntos "adormecidos" ou motivar acções.


No dia 1 de Outubro arrancou no nosso país uma campanha nacional integrada pela mão da Lilly Portugal, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. Para além de marcar presença na internet e nos meios de comunicação social, foi disponibilizada uma unidade móvel, que percorreu 10 capitais de distrito com o intuito de esclarecer, informar e desmistificar dúvidas sobre a depressão.


No mesmo dia em que o camião estacionou em Lisboa (6 de Dezembro) discutia-se o papel das campanhas de sensibilização. A discussão, também ela interactiva, decorreu no Centro de Congressos do Estoril no âmbito do VI Congresso Nacional de Psiquiatria da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, desta feita subordinado ao tema Mitos e Evidência em Psiquiatria. Inserido no Simpósio "A Pessoa e o Meio Ambiente - Elos de Ligação", da Lilly Neurociências, o painel de discussão "A depressão, um problema de saúde pública. Papel das campanhas de sensibilização" foi moderado pela jornalista Raquel Santos e contou com a participação do Prof. António Pacheco Palha, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, da Dr.ª Ana Isabel Berrincha, psicóloga clínica da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB), e do Dr. Luís Laranjeira, director clínico da Lilly Portugal.


 


Resultados positivos


Neste debate foi feito um balanço e verificaram-se resultados. "Quando bem organizadas, cientifica e eticamente correctas, as campanhas de sensibilização têm efeito positivo", proferiu António Palha. O modo como a campanha supracitada foi desenvolvida coaduna com a sua opinião. "A Sociedade apoiou a iniciativa, por ser interessante e alertar as pessoas para uma das patologias mais frequentes em Portugal, que afecta cerca de 800 mil pessoas", acrescentou António Palha.


É cada vez mais frequente aprofundar assuntos, comparar informações e pesquisar sobre temas até à data desconhecidos. Neste contexto tão actual, Luís Laranjeira não hesitou em sublinhar que as campanhas de sensibilização aparecem como "uma oportunidade que as pessoas têm para obterem mais informação. Desde que elaboradas dentro de balizas éticas, são benéficas".


Na ADEB houve repercussões desta acção: aumentaram pedidos de ajuda. "Penso que levou a pensar que o tratamento é possível, mediante o reconhecimento dos sintomas e a aceitação da doença", disse Ana Isabel Berrincha, sublinhando que as pessoas acabam por não pedir auxílio porque "não valorizam a sintomatologia".


 





Vários autores e estudos apontam no sentido de ter uma origem neurobiológica; contudo ainda não é totalmente claro o papel da componente fisiológica. Há também autores que defendem a teoria que na base da perturbação de hiperactividade está uma perturbação de ansiedade e/ou emocional. A DSM-IV descreve a Perturbação de Deficit de Atenção com Hiperactividade como sendo uma perturbação caracterizada pela existência de comportamentos hiperactivos, associados a dificuldades elevadas ao nível da atenção e da concentração.


As pessoas com dificuldades em concentrarem a atenção nas tarefas que estão a realizar tendem a se dispersarem, cansarem e desinteressarem com muita facilidade. Muitas vezes são também impulsivos dado que têm dificuldade em manter a calma para poderem pensar sobre as suas acções.


Esta perturbação pode iniciar-se na infância precoce e a acompanhar o desenvolvimento da criança até à adolescência ou até à idade adulta. Esta perturbação pode comprometer seriamente o desenvolvimento cognitivo e emocional, assim como dificuldade a progressão no percurso escolar.



Devemos estar atentos aos seguintes sinais/comportamentos de qualquer criança:


» Não prestar atenção suficiente aos pormenores ou cometer erros por descuido nas tarefas escolares, no trabalho ou noutras actividades lúdicas.


» Ter dificuldade em manter a atenção em tarefas ou actividades.


» Parecer não ouvir quando se lhe dirigem directamente.


» Não seguir as instruções e não terminar os trabalhos escolares ou outras tarefas.
Ter dificuldade em organizar-se.


» Evitar as tarefas que requerem esforço mental persistente.


» Perder objectos necessários a tarefas ou actividades que terá de realizar.


» Distrair-se facilmente com estímulos irrelevantes.


» Esquecer-se com frequência de actividades quotidianas ou de algumas rotinas.


» Movimentar excessivamente as mãos e os pés e mover-se quando está sentado.


» Levantar-se na sala ou noutras situações em que se espera que esteja sentado.


» Correr ou saltar excessivamente em situações em que é inadequado fazê-lo.


» Ter dificuldade para se dedicar tranquilamente a um jogo.


» Agir como se estivesse ligado a um motor.


» Falar em excesso.


» Precipitar as respostas antes que as perguntas tenham acabado.


» Ter dificuldade em esperar pela sua vez.


» Interromper ou interferir nas actividades dos outros (intrometer-se nas conversas ou nos jogos).


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