Arquivo de Pneumologia - Página 2 de 5 - Médicos de Portugal

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É neste sentido que a Pneumologia se tem revelado, no nosso país, um desafio crescente e de grande dimensão, relacionado com diversas variáveis que não podem ser ignoradas. O volume e o impacto da patologia respiratória, de crescente prevalência em diversos quadros clínicos, tem vindo a ocupar lugares cimeiros, infelizmente pouco honrosos, na lista das principais causas de morbilidade e mortalidade. Com o envelhecimento da população, é expectável um aumento de doenças crónicas e degenerativas do foro respiratório nestes escalões etários.

Anualmente quatro milhões de portugueses lutam pela capacidade de respirar melhor, afectados por doenças respiratórias, nomeadamente doenças respiratórias crónicas - DPOC, asma e rinite, cancro do pulmão, tuberculose, pneumonias e gripe

O défice de suporte institucional para as doenças respiratórias acaba por remeter para um plano secundário uma área que tem também, um enorme impacto nos âmbitos profissional e social. A patologia respiratória é responsável por cerca de 30 por cento dos recursos às urgências hospitalares e uma percentagem não inferior a 20% do internamento e isso não tem tido reflexo nos eixos estratégicos da saúde em Portugal, nem no respectivo suporte institucional, que a tem remetido para um plano secundário.

O escasso conhecimento efectivo da realidade da patologia respiratória no país, associado a uma divulgação ainda pouco eficaz de conteúdos médicos acessíveis à população, constitui um constrangimento na implementação de uma abordagem preventiva eficaz.

A decorrente pressão assistencial associada à evolução tecnológica e do conhecimento científico condicionam igualmente desafios prementes, de que se salientam a necessidade de organizar a assistência respiratória domiciliária em Portugal, implementando uma rede de cuidados domiciliários respiratórios integrada com os cuidados continuados, que podem ter impacto na redução dos internamentos, da morbilidade e da mortalidade e ainda dos custos directos e indirectos com a doença respiratória.

Os desafios transformam-se frequentemente em oportunidades, que neste domínio extravasarão o âmbito do Sistema Nacional da Saúde, eventualmente incapaz, sem articulação com estruturas privadas e sociais, de responder eficazmente a estes inadiáveis desideratos.





Os cerca de 2500 casos que se verificam anualmente no nosso país ainda se constituem como um problema. Até porque há mais de sessenta doentes com a forma multirresistente, na qual o bacilo da tuberculose é resistente à maioria dos antibióticos que existem para a tratar.


A tuberculose multirresistente, pela sua perigosidade, é neste momento uma das maiores preocupações das autoridades da Saúde. Apesar de a tuberculose ser uma doença infecciosa para a qual há medicamentos curativos, ela continua a ser uma importante causa de mortalidade no mundo - origina a morte de uma pessoa em cada 25 segundos - sobretudo nos países mais pobres, com insuficientes estruturas de Saúde.


Transmitindo-se de pessoa a pessoa através da inalação de gotículas contendo bacilos, enviadas para o ar ambiente através da tosse de um indivíduo doente, a tuberculose é uma doença de transmissão fácil.


Estar atento aos sintomas e sinais que a caracterizam é fundamental, porque quanto mais precoce for o início do tratamento menos pessoas serão infectadas por aquele doente. Ao contrário da maioria das infecções, a tuberculose instala-se de modo insidioso ao longo de semanas, às vezes meses. O doente sente-se cansado, debilitado, perde o apetite e, lentamente, o peso. Pelo fim da tarde e nas primeiras horas da noite há febrícula que oscila entre os 37-38°C e durante a noite é habitual haver sudação. Estes sintomas, que no início podem passar despercebidos, traduzem a existência de uma infecção, mas não nos indicam qual.


Como a tuberculose pode atingir qualquer sector do organismo, os sintomas específicos da doença dependem do órgão atingido. Porém, na grande maioria dos casos é nos pulmões que a doença se vai desenrolar.


Por isso, são os sintomas respiratórios que, na maioria das vezes, revelam a doença. A tosse é o sintoma principal. Habitualmente persistente, acompanha-se de expectoração cuja cor é característica de infecção: amarela, verde ou acastanhada. Muitas vezes a tosse não é valorizada pelo doente, que a interpreta como consequência do tabagismo ou de uma vulgar constipação.


Uma tosse persistente deve em todos os casos ser investigada pelo médico! Menos frequente mas mais típico é o aparecimento de expectoração com sangue. A presença de sangue na expectoração - hemoptise - é habitualmente de pequena dimensão. Porém, há casos em que o volume de sangue eliminado é tal, que pode pôr em risco a vida do doente. A eliminação de sangue pelo aparelho respiratório, tal como a tosse persistente é um sintoma de alarme que deve, em todos os casos, levar o doente ao médico.


Outros sintomas são possíveis, como a dor tipo pontada (uma dor do tórax que aumenta com os movimentos respiratórios e com a tosse) ou mesmo a falta de ar. Porém, é a associação entre os chamados sintomas gerais sugerindo infecção (febrícula vespertina, suores nocturnos, cansaço, fatigabilidade, perda de apetite e emagrecimento), e os sintomas respiratórios (tosse persistente, expectoração infectada e hemoptise) que definem o quadro habitual da tuberculose pulmonar e ao qual há que se estar atento.


Dr. Jaime Pina
Fundação Portuguesa do Pulmão





Como critérios de referenciação para o Programa de Reabilitação Respiratória temos todos os utentes que apresentam doença respiratória crónica manifestando sintomas persistentes de fadiga e dispneia, trocas gasosas comprometidas, hospitalizações frequentes, estado funcional e emocional comprometidos e diminuição da participação em actividades da vida diária. Devem ser excluídos utentes com doença ortopédica e neurológica grave que comprometa a mobilidade e cooperação no programa.

A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é geralmente a mais indicada para este tipo de programas. Na DPOC, a dispneia é um importante factor de incapacidade, levando ao descondicionamento físico do utente progressivamente. Durante o exercício, verifica-se um aumento do recrutamento de oxigénio cerca de 30% superior a indivíduos sem patologia. Esse recrutamento de oxigénio é necessário para irrigar os músculos respiratórios que se apresentam fracos. Se esse exercício não for controlado, o doente vai entrar em fadiga e falência muscular, resultando em dispneia e medo durante a realização de algum esforço.



Desta forma, os principais benefícios da reabilitação respiratória são:


> Redução dos sintomas respiratórios de fadiga e dispneia;


> Reversão da ansiedade e depressão;


> Melhoria da tolerância ao exercício com aumento da resistência ao esforço;


> Melhoria na habilidade para a realização das AVD;


> Redução do número de dias de hospitalizações.




A reabilitação respiratória não altera as provas funcionais da espirometria, a relação dos gases arteriais durante o repouso nem a eficiência das trocas gasosas (Fonseca et al., 1996). Por outro lado, permite ao doente controlar a dispneia durante a actividade física, contribuindo para um aumento do número de metros na prova de marcha de 6 minutos, aumentando, também, o tempo de treino sem dispneia (Nishivama et al., 2008; Naji et al., 2006).



Marta Gomes,


Mestrado em Fisioterapia Cárdiorrespiratória, Centro de Saúde de Penafiel





Nas cidades dos países desenvolvidos a poluição atmosférica provém sobretudo dos veículos motorizados. Porém, nas cidades dos países em desenvolvimento, também desempenham um papel importante as indústrias poluidoras que, em grande número, ainda se localizam nos espaços urbanos.


A lista das cidades mais poluídas do mundo é encabeçada por cidades com estas características: Cairo, Nova Deli, Calcutá, Jacarta e Cidade do México. A poluição automóvel é constituída essencialmente por óxidos de carbono e de azoto que, sofrendo uma acção fotoquímica da radiação solar, se transformam num smog fotoquímico muito agressivo, contendo gases como o ozono e compostos orgânicos e inorgânicos solúveis em água. Estas substâncias químicas são extremamente irritantes, provocando inflamação das mucosas dos olhos, nariz e brônquios.


São, sobretudo, crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios crónicos que mais sofrem com esta forma de poluição. Daí ser importante saber-se quais os procedimentos que estão ao nosso alcance para minorar os efeitos da poluição atmosférica.


Em primeiro lugar, adopção de modelos de vida saudáveis. Uma pessoa que tem uma alimentação equilibrada, faz exercício físico regular e respeita os períodos de repouso e de recuperação está em melhores condições de suportar as agressões físicas da poluição.


Depois, contribuir para a redução da poluição atmosférica, optando por transportes públicos ou deslocações a pé, em detrimento do veículo privado - é impressionante o número de pessoas que se deslocam sozinhas na sua viatura, às vezes para percorrer pequenas distâncias.


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No início, confunde-se com uma constipação ou uma gripe. São os sintomas que permitem essa confusão: tosse, febre, arrepios. Além de que, com frequência, se segue a uma destas infecções virais típicas do Inverno.


Contudo, a pneumonia é mais grave, correspondendo a uma inflamação dos pulmões que, em organismos mais debilitados, pode ser fatal.


São, aliás, as pessoas mais frágeis que correm maior risco: as crianças, os idosos, os doentes com o sistema imunitário enfraquecido (com VHI/sida, submetidos a um transplante ou a tratamentos de quimioterapia, por exemplo) e os portadores de patologias como a insuficiência cardíaca e a doença pulmonar obstrutiva crónica, entre outras.


Os vírus constituem uma das causas mais comuns de pneumonia, mas há outras: bactérias, fungos, químicos. Cerca de metade das pneumonias são virais, o que explica a semelhança de sintomas com a constipação ou a gripe.


Tosse (seca), dor de cabeça, dores musculares, fadiga e febre são manifestações iniciais comuns, mas à medida que a infecção progride é provável que surja dificuldade respiratória e que haja produção de muco (transparente ou esbranquiçado).


Quanto à pneumonia bacteriana, pode acontecer isoladamente, em simultâneo com uma infecção viral ou na sequência de uma doença respiratória como a gripe.


Os sintomas declaram-se subitamente, incluindo tremores e arrepios, febre elevada, suores, dificuldade respiratória, dor no peito e tosse com muco espesso, entre o amarelo e o verde. São muitas as bactérias passíveis de causar pneumonia, entre elas se destacando o estreptococo e o pneumococo.


Também alguns tipos de fungos podem estar na origem da doença, embora mais raramente. Nas pessoas afectadas, os sintomas tanto podem passar quase despercebidos como persistir por meses.


Responsáveis por uma pneumonia muito específica são os micoplasmas, organismos minúsculos que desencadeiam sintomas muito semelhantes aos da pneumonia viral ou da bacteriana, mas atenuados.


É a chamada pneumonia atípica pois a pessoa pode não ficar suficientemente doente para procurar tratamento ou pode nem sequer se aperceber da doença.


Este é o tipo de pneumonia que se espalha facilmente entre crianças em idade escolar e jovens ou adultos quando em espaços sobrelotados.


Além das fontes de infecção, há outras formas de classificar a pneumonia, distinguindo-se entre a adquirida na comunidade e a hospitalar ou nosocomial. Estar internado aumenta o risco de contrair a doença, sobretudo numa unidade de cuidados intensivos em que o doente esteja ligado a um ventilador (um aparelho que ajuda a respirar): é que o tubo por onde se respira pode albergar bactérias.


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Ao contrário do que acontece com as lesões musculares ou esqueléticas relacionadas com o trabalho (sobretudo devido ao tipo de trabalho particularmente repetitivo e cadenciado que se pratica na maior parte das linhas de montagem a nível industrial), persiste um desconhecimento generalizado que nos coloca perante uma realidade algo desconhecida. Apesar de possuírem uma elevada repercussão na qualidade de vida dos trabalhadores, estamos perante um grupo de doenças respiratórias que se encontram subavaliadas.

Entre as doenças profissionais respiratórias mais notificadas como tendo a sua origem/agravamento na actividade profissional ou no ambiente em que esta é desenvolvida, destacam-se a asma ocupacional, as pneumonites de hipersensibilidade e as pneumoconioses.

A asma ocupacional é cada vez mais reconhecida como uma importante causa de doença profissional e de incapacidade para o trabalho. Os seus números têm vindo a aumentar a nível internacional, com particular impacto nos países mais industrializados. Trata-se de uma doença caracterizada por limitação variável do fluxo aéreo ou hiper-reactividade brônquica que tem origem nas condições de trabalho não favoráveis. A asma ocupacional pode persistir até mesmo vários anos após a remoção da exposição ao agente causal, principalmente quando o paciente teve sintomas por um longo período antes da cessação da exposição.

Face a esta realidade é fundamental que exista um sistema de vigilância nos locais de trabalho, assegurado por médicos do trabalho e por técnicos de higiene e segurança, de modo a promover a melhoria das condições de trabalho pela eliminação de substâncias nocivas e pela implementação de sistemas de ventilação que permitam aumentar a qualidade do ar.

Uma outra patologia que não deve ser ignorada é a pneumonite de hipersensibilidade. Trata-se de uma patologia que faz parte de um grupo de doenças pulmonares que resultam da inalação repetida de certos antigénios dispersos num determinado ambiente. Não se trata de uma doença uniforme, mas sim de uma síndrome complexa caracterizada por diferentes intensidades de resposta a diferentes antigénios, levando a uma imunopatologia com apresentação clínica variável.




As pneumoconioses, das quais a de maior impacto em Portugal continua a ser a silicose, são processos patológicos do pulmão que resultam da acumulação de partículas inorgânicas minerais em meio ocupacional. Os trabalhos de maior risco são desenvolvidos em ambientes como minas e pedreiras, cerâmicas, decapagens com jacto de areia, abertura de poços e galerias e construção civil. No caso concreto da silicose, estamos perante uma doença pulmonar causada por inalação de sílica ou de poeiras minerais que contenham silicatos, substância presente em grande parte das indústrias que abrangem as mais variadas profissões. Clinicamente, a doença apresenta formas e graus de gravidade diferentes, dependendo da intensidade e duração da exposição, da natureza e características das partículas de sílica inaladas, da presença ou não de materiais orgânicos ou inorgânicos na poeira e da associação com outras doenças como a tuberculose e a artrite reumatóide.




Reconhecer a atribuição de incapacidades


Em Portugal, é ao Centro Nacional de Protecção contra os Riscos Profissionais que compete o reconhecimento e a atribuição de incapacidades resultantes de doença profissional. Consideram-se doenças profissionais todas aquelas cuja origem esteja relacionada com a actividade ou o ambiente em que a mesma se desenvolve. Apesar do esforço que tem vindo a ser desenvolvido no sentido de identificar determinadas patologias, nem sempre existe uma associação directa da causa/efeito. Em termos futuros, preconiza-se um esforço global de melhoria contínua das condições de saúde e segurança no trabalho de forma a minimizar o risco e impacto das doenças profissionais em Portugal, nomeadamente na sua vertente respiratória.



Dr. António Jorge Ferreira, Centro de Pneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra





Na abordagem inicial ou na recidiva temos hoje ao dispor novos fármacos com extraordinária tolerância, eficácia acrescida, maior tempo livre de progressão e aumento da sobrevivência global. Com o aumento da esperança de vida e um número crescente de novos casos diagnosticados no idoso, desenvolvemos terapêuticas para estes doentes numa simbiose entre eficácia e escassa toxicidade. Numa estratégia multidisciplinar abordámos o doente com pior estado geral e mais comorbilidades. Para todos procuramos a melhor solução individualizada numa pesquisa persistente e constante de levar mais longe cada doente.

A medicina translacional e a nova investigação ao nível da biologia molecular trouxeram-nos novos rumos de esperança. Nos doentes com mutação do gene do receptor do factor de crescimento epidérmico, a administração de fármacos orais inibidores tirosina quinase trouxeram sobrevivências medianas, na doença avançada, que podem ultrapassar os 24 meses.

Globalmente conseguimos hoje o dobro da taxa de sobrevivência que tínhamos nos anos 70 do século XX. Já na última década conseguimos melhores resultados nos estádios precoces, com a junção à cirurgia de eleição de uma quimioterapia adjuvante; nas duas últimas décadas conseguimos o dobro do tempo livre de progressão e da taxa de sobrevivência com a quimiorradioterapia concomitante para os estádios localmente avançados; na última década conseguimos o dobro do tempo de sobrevivência para os estádios avançados e, entre estes, o triplo para os doentes com mutações do receptor do factor de crescimento epidérmico.


 


Melhor prática clínica


Reunimos e conversámos e estabelecemos entre nós normas de orientação diagnóstica e terapêutica. Estabelecemos as melhores práticas médicas. Partilhamos experiências e saberes tendo o doente com cancro do pulmão como o elemento-chave.

Sabemos que os resultados ainda não são bons. Estamos num tempo de mudança e de muita esperança. Acreditamos que se encontrarmos um bom método de rastreio, se investirmos na prevenção e no apoio às medidas antitabágicas, conseguiremos diminuir a prevalência nefasta do cancro do pulmão. Avançámos ajustando as terapêuticas ao conhecimento do perfil biológico e molecular de cada doente.

Associando marcadores com determinadas terapêuticas, estamos a conseguir individualizar a terapêutica e em situações de sucesso levar cada doente, mesmo com doença disseminada no início, tão longe quanto possível, por vezes transformando a sua doença oncológica "aguda" numa doença oncológica controlada, "crónica". O tempo é de esperança.





Tem menos de um mês, a divulgação entre a comunidade científica dos primeiros resultados, a justificarem ainda estudos confirmatórios, sob o uso da tomografia computorizada de baixa dosagem como método de eleição no rastreio do cancro do pulmão numa população seleccionada de risco para esta patologia.

Enquanto aguardamos por mais resultados, é obrigatório continuar a investir no diagnóstico precoce. Todo um trabalho de alerta deve continuar junto da população em geral, do médico assistente, do especialista pouco atento, para que num indivíduo, em especial se fumador, independentemente do sexo, com queixas de tosse, dor torácica, falta de ar progressiva, expectoração com sangue que não cede a uma terapêutica inicial sintomática, seja realizado um radiograma torácico e, se dúvidas persistirem, uma tomografia computorizada. Se diagnosticarmos precocemente, podemos intervir em fases em que as terapêuticas potencialmente curativas conduzem a longas sobrevivências.

Infelizmente não acontece assim. Em mais de 50% dos tumores pulmonares diagnosticados, além do tumor primário, detectamos já disseminação à distância, a órgãos tão importantes e vitais como o fígado, osso, pulmão ou cérebro. Logicamente que o prognóstico é mais sombrio e os resultados menos entusiásticos.

Referência obrigatória nesta luta por cada vez melhores resultados à evicção tabágica. Se fuma, por favor, deixe de fumar. Se não fuma, por favor, não pense em começar. A relação entre tabaco e cancro é cientificamente super-reconhecida e demonstrada. As medidas antitabágicas, associadas ao enorme esforço feito pela comunidade médica na difusão nacional de centenas de consultas antitabágicas, têm produzido efeitos traduzidos num estabilizar do número de novos casos de cancro do pulmão nos últimos anos. É necessário não desistir de ajudar quem nos procura para deixar de fumar, insistir na divulgação dos malefícios do tabaco e persistir na luta.


 


Inovações ao longo dos tempos


Também na área do diagnóstico vivemos um tempo de esperança. Em meados do século XX conseguimos observar a árvore brônquica, identificar os sinais directos ou indirectos de tumor, proceder a aspirados, escovados e biopsias das lesões suspeitas. Depois conseguimos desobstruir áreas colapsadas, colocar próteses e controlar hemorragias.

Ainda no final do século passado, demos um passo gigante na imagiologia, com a tomografia computorizada permitindo um mais correcto estadiamento da extensão tumoral, do envolvimento ganglionar e da identificação de locais de metastização. No limiar do milénio descobrimos a tomografia por emissão de positrões e associámos ao saber da lesão tumoral o conhecer da sua actividade metabólica.

Também passos importantes ocorreram na cirurgia torácica, na generalização como método diagnóstico mas também terapêutico das videocirurgias, das mediastinotomias, mas também na terapêutica cirúrgica das lobectomias com sleeve, das abordagens complexas do tumor do vértice. Registámos avanços importantes na radioterapia, devendo hoje ser efectuada em acelerador linear de alta energia com planeamento dosimétrico computorizado, privilegiando soluções que diminuam a toxicidade associada ao tratamento e utilizando técnicas de irradiação em fase do ciclo respiratório ou técnicas de controlo activo da respiração.





"Em Portugal, as doenças respiratórias continuam a constituir um problema relevante, o que aliás acontece no resto do mundo." Quem o diz é o presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP), Artur Teles de Araújo, que cita o relatório do Observatório Nacional de Doenças Respiratórias, recentemente apresentado para sustentar esta posição.



Se é verdade que "no combate às doenças respiratórias Portugal ocupa uma posição que não envergonha face aos outros países europeus", não é menos verdade que "as doenças respiratórias crónicas, como a asma e a DPOC são das poucas doenças crónicas cuja tendência é para aumentar, nas próximas décadas, devido a factores como o fumo de tabaco, a poluição atmosférica e as alterações climáticas".

Segundo Teles de Araújo, Portugal tem algumas vantagens relativamente a outros países. "Por termos uma incidência de fumadores relativamente baixa e uma qualidade do ar razoável, a incidência de DPOC e de cancro do pulmão é inferior à média europeia", salienta. No entanto, sublinha que ainda há muito a fazer. "Não existe ainda o grau de acessibilidade aos cuidados de saúde que todos desejaríamos, e para o alcançar há que fazer um esforço que envolva todos: autoridades de saúde, técnicos e sociedade civil", defende.



CANCRO MATA 10 POR DIA


Ainda que haja algumas boas-novas, as doenças respiratórias são "motivos de preocupação". Sem excepção. "A asma e a DPOC atingem mais de 1,5 milhões de portugueses, causando um sofrimento considerável, perturbando o normal funcionamento da sociedade e implicando pesados custos directos e indirectos", aponta o responsável. E contabiliza: "O cancro do pulmão mata mais de 10 portugueses por dia e é o tumor com maior mortalidade. As pneumonias têm tido uma incidência crescente, traduzida numa duplicação dos internamentos em 10 anos, tendo sido internados mais de 43 000 doentes com este diagnóstico em 2009." Por estas razões, o pneumologista defende que "a prevenção e controlo das doenças respiratórias devam ser encarados como um todo", propondo para tal que "no próximo Plano Nacional de Saúde haja um Programa Global com esse objectivo".

A prevenção é ainda mais fulcral com a chegada do frio. "É um facto que as doenças respiratórias são mais frequentes no Inverno, havendo um aumento da mortalidade por estas doenças nesse período do ano", explica. E esclarece: "Para tal contribuirá o facto de ser a época das epidemias sazonais de gripe, o clima que perturba os mecanismos de defesa do pulmão e as condições do ambiente interior (ver Editorial)." Quer isso dizer que o melhor é mesmo ficar em casa? "Penso ser preferível recorrer a outras soluções", responde o especialista, lembrando que "depende das condições da habitação e do facto de nela estarem ou não pessoas infectadas, por exemplo com gripe".

Em Portugal, apenas 20% da população está abrangida pela monitorização da qualidade do ar. Teles de Araújo garante que a qualidade "é boa na maior parte dos dias e dos locais". Há, todavia, "nichos de população ainda expostos a condições não ideais". É que a saúde respiratória e as condições sociais das populações estão "fortemente relacionadas". "Pobreza, más condições habitacionais e exclusão social são aliados poderosos das doenças respiratórias, as quais, embora atinjam todos, o fazem preferencialmente nesses grupos", explica o presidente da FPP. Idosos, crianças nos primeiros anos de vida, imunocomprometidos por outras doenças crónicas, reclusos, institucionalizados, toxicodependentes e socialmente excluídos são grupos de risco e que devem ser vigiados.


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Vários estudos têm demonstrado que até 70 por cento dos doentes não concluem a manobra de inalação correcta promovendo a ineficácia dos tratamentos[7]. Para o especialista médico José Agostinho Marques, Director do Serviço de Pneumologia no Hospital de São João no Porto, a chegada deste novo tratamento "representa uma conquista no tratamento da DPOC. A prática clínica demonstra que os benefícios proporcionados pelo Indacaterol ultrapassam os resultados dos estudos clínicos". O novo mecanismo de acção, que concretiza resultados em apenas cinco minutos, permite ao doente sentir os benefícios de forma quase imediata, constituindo assim uma ajuda decisiva para que o doente não desista do seu tratamento.


Já Teresa Sousa, uma doente deste novo medicamento refere, "é difícil exprimir a diferença que este fármaco trouxe à minha vida! Desde que iniciei a terapêutica com Indacaterol, que me sinto com mais energia, caminho muito mais e melhor. Até os meus amigos notaram que estou mais activa!".


A DPOC é uma doença altamente incapacitante que se caracteriza por uma progressiva falta de ar. A dificuldade em respirar contribui para um cansaço exacerbado que faz com que muitos doentes, em estadios mais avançados da doença não consigam realizar tarefas rotineiras como por exemplo tomar banho, subir umas escadas ou conduzir. Por causa disso, muitos doentes deixam de trabalhar e isolam-se em casa.


A prevalência da DPOC em Portugal está seguramente subvalorizada, mas actualmente, estima-se que mais de 500 mil portugueses sofram desta doença[8]. De acordo com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), calcula-se que morram anualmente cerca de 8,7 por cada 100.000 habitantes por DPOC[9]. A doença atinge mais os homens do que as mulheres devido ao maior número de fumadores masculinos. A SPP aponta também como principal causa da DPOC os hábitos tabágicos, sendo que 10 a 15% dos fumadores vêem a sofrer de DPOC. Algumas profissões que implicam exposição a fumos químicos, poeiras orgânicas e inorgânicas são também um factor de risco para desenvolvimento da doença. No caso dos fumadores, a poluição atmosférica constitui ainda um factor de agravamento. [9].


Segundo o Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR), a DPOC é a segunda causa de internamento por doença respiratória em Portugal. O custo estimado dos doentes com DPOC, cifra-se nos 242 milhões de euros, 197 dos quais atribuíveis ao tabaco[10].


Os DALY (Disability Adjusted Life Years - anos de vida ajustados pela incapacidade) têm sido o critério usada para medir o impacto das doenças. Os DALY são a soma dos anos perdidos devido à mortalidade precoce e o número de anos vividos com incapacidade, ajustados para a gravidade da doença. No caso da DPOC, o impacto da incapacidade, pelo facto de não ser tratada foi estimado em 0,43, em que a morte tem um peso de 1,0 e a saúde perfeita de 0.17. Em 2004, a DPOC foi a décima terceira causa mais comum de incapacidade a nível mundial[11]. De acordo com a projecção do Global Burden of Disease Study, um projecto da OMS, a DPOC será a quinta causa de incapacidade em 2030, e será responsável por quase 4% do total dos DALY perdidos em todo o mundo[11]. Apenas a doença cardíaca isquémica, a depressão, os acidentes de viação e a doença vascular cerebral serão um maior peso em 2030, com a DPOC a ultrapassar quer a SIDA quer o diabetes Mellitus em termos de score DALY[11]. 


 


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Referências


1. IMS Dataview Database Farmacêutica Total, Agosto 2010

2. Donohue JF et al. Once-daily bronchodilators for chronic obstructive pulmonary disease. Indacaterol versus tiotropium. Am J Resp Crit Care Med 2010; 182: 155-162.


3. Dahl R et al. Efficacy of a new once-daily long-acting inhaled ί2-agonist indacaterol versus twice-daily formoterol in COPD. Thorax 2010; 65:473-479.


4. Kornmann O et al. Once-daily indacaterol versus twice-daily salmeterol for COPD: a placebo-controlled comparison. Eur Respir J 2010 Aug 6 (Epub ahead of print)


5. Balint et al. Onset of action of indacaterol in patients with COPD. Int J COPD 2010 (5)311-318


6. Vogelmeier C, Ramos-Barbon D, Damon J et al. Once-daily indacaterol provides effective 24-hour bronchodilation in COPD: A double-blind comparison with tiotropium. Chest 2009;136:4S.


7. Aerosol Drug Management Improvement Team (ADMIT) - Characteristics of pressurized metered-dose inhalers (pMDI). Disponível em: http://www.admit-online.info/en/inhalation-systems/features-of-available.


8. RELATÓRIO DO OBSERVATÓRIO NACIONAL DAS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS 2009- Saúde Respiratória uma Responsabilidade Global. Disponivel em: http://www.ondr.org/relatorios_ondr.html


9. http://www.sppneumologia.pt/textos/?imc=51n78n, acedido em 29 de Setembro 2010
10. RELATÓRIO DO OBSERVATÓRIO NACIONAL DAS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS 2007/2008- Saúde Respiratória uma Responsabilidade Global. Disponivel em: http://www.ondr.org/relatorios_ondr.html


11. WHO The global burden of disease: 2004 update. Part4 - Burden of disease:DALYs. Disponível em: http://www.who.int/healthinfo/global_burden_disease/GBD_report_2004update_part4.pdf.


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